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Portinho da Arrábida uma praia em mudança

No passado dia 3 de Julho a LPN esteve presente na conferência “Portinho da Arrábida - uma praia em Mudança”.






Nesta palestra estiveram presentes o Dr. Luís Rebêlo (LNEG), a Dra. Maria de Jesus Fernandes (ICNF); a Dra. Maria das Dores Marques Banheiro Meira (Presidente da Câmara Municipal de Setúbal) e o Clube da Arrábida.

O objectivo desta conferência foi o de apresentar e expor as preocupações dos utilizadores desta praia relativamente ao desaparecimento e à má qualidade da areia últimos anos. Foi apresentado um parecer sobre o Portinho da Arrábida elaborado pelo Dr. Luís Pina Rebelo e pela Dra. Sílvia Nave, ambos do LNEG.

Neste parecer fez-se uma caracterização da situação actual verificou-se que a diminuição e a baixa qualidade da areia disponível tem seis consequências directas na utilização balnear:
1.    Diminuição do tamanho da praia- a praia está reduzida actualmente a 37% do que outrora foi a sua máxima extensão.
2.    Erosão Costeira - a diminuição do tamanho da praia leva ao aumento da erosão costeira.
3.    Menor área de utilização - diminuição da capacidade de carga da baía no que diz respeito à sua utilização balnear.
4.   A pluma Argilosa - recentemente na zona da antiga Praia do Portinho, verifica-se a dispersão na baía de uma pluma acastanhada, deteriorando a qualidade visual as águas cristalinas que caracterizam a baía.
5.    Aparecimento de calhaus na praia – a existência de uma grande quantidade de calhaus na face da praia é outro dos factores que diminuem a qualidade do areal e está directamente relacionado com a diminuição do volume da areia no sistema.
6.    Desaparecimento do Monte de areia – outras das consequências da diminuição da largura da praia do Portinho prende-se com o desaparecimento do monte de areia.

Pela análise de fotografias antigas (portinho da Arrábida 100 anos de memórias) verifica-se qua as praias da zona já tiveram um aspecto semelhante ao actual (anos 10 do séc. XX), no entanto a pressão exercida pelas construções na zona do areal e da arriba podem também ter tido a sua contribuição para o desaparecimento da areia. Nomeadamente, a construção das várias estruturas de protecção existentes conduziram à situação actual, ou seja actualmente existe uma protecção de rocha quase continua desde o restaurante Farol até ao início do actual areal da baía. Estas estruturas por serem rígidas reflectem a energia da ondulação, em consequência desta reflexão de energia a areia tem mais dificuldade em fixar-se e é transportada para o largo. Isto potencia o desaparecimento da areia e a formação da praia de calhau em frente das zonas que protegidas pelo paredão.

Para além disto as intervenções efectuadas nas encostas - uma estrada de acesso à praia e seis parques de estacionamento asfaltados - conduziram à formação de pequenos taludes, deixando as encostas argilosas expostas, o que associado à formação de caleiras e canais para a condução da água pluvial, faz com que a carga sólida transportada pela água das chuvas que chega à praia seja em maior quantidade. Esta água com mais carga sólida tende assim a colmatar a porosidade da areia diminuindo a sua capacidade de absorção e percolação de água nas areias. Desta forma a areia da praia passa, então a funcionar como um filtro, retendo a argila proveniente das encostas e deixando de ser “limpa” e branca para ser argilosa e com uma cor acastanhada/avermelhada.

Como conclusão foi dito que apesar dos “Indicadores geológicos apontarem para que as variações na quantidade de areia da praia do portinho possam ser encaradas como um fenómeno natural”, estas podem ser potenciadas pelas acções de fixação e de dragagem do canal de navegação. Já ao aparecimento da mancha argilosa dentro e fora do areal estará relacionado com as intervenções feitas nas encostas.

Para reverter o estado actual de degradação da praia do portinho, deve ser equacionado um plano de intervenção que inclua a totalidade dos problemas detectados, a limpeza do areal existente, a correcta gestão do espaço, a utilização de materiais adequados, a resolução do problema associado às águas de escorrência provenientes das encostas e a realimentação da praia com areia de características idênticas à existente. Este plano deve também contemplar a elaboração de um estudo que permita compreender a dinâmica dos sedimentos na parte superior do delta e na zona submersa da praia, bem como de um estudo de impacto ambiental que permita saber quais os impactos da realimentação da praia com areia.


 

Fotografia de Rui Cunha