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A composição da floresta esteve em discussão no segunde debate do ciclo "Floresta e Incêndios Florestais – Incertezas e Verdades"

Ciclo de debates "Floresta e Incêndios Florestais – Incertezas e Verdades"




Decorreu no dia 30 de novembro o segundo debate do ciclo "Floresta e Incêndios Florestais – Incertezas e Verdades", com o tema "Recompor a nossa floresta. As espécies contam?”, e que contou com a participação de uma centena de cidadãos, incluindo estudantes, investigadores, especialistas, proprietários e vários profissionais de empresas, associações e entidades, públicas e privadas, dos setores florestal, ambiental e agrícola.

“Uma das questões mais repetidas na opinião pública foi o apontar recorrente dos eucaliptos, sobretudo, e dos pinheiros como uma das causas mais importantes dos fogos. Em contraponto muito se falou de “espécies autóctones”, “árvores bombeiras” e outras designações. Urge diversificar a nossa floresta por razões de valoração da riqueza ambiental e económica e também para minimizar riscos. Mas poder-se-á fazê-lo com base em preconceitos ou informação menos adequada? Que fazer? Como gerir expectativas e cuidar de rendimentos?”



Moderação de ANTÓNIO SOUSA MACEDO
Engenheiro Florestal. Exerceu funções de Diretor Geral das Florestas, tem larga experiência como gestor e consultor na área florestal e é Presidente do Colégio de Engenharia Florestal da Ordem dos Engenheiros.

Oradores convidados:
- José Miguel Pereira: Investigador do Centro de Estudos Florestais do Instituto Superior de Agronomia, um dos maiores especialistas nacionais e com vasto currículo internacional em matéria do estudo e interpretação de fogos florestais e da ecologia florestal.
- Manuel Rainha: Engenheiro Florestal. É um dos reputados especialistas na gestão e uso do fogo controlado. Conhece particularmente bem a situação e os riscos dos incêndios em áreas protegidas tendo sido responsável pela formação e gestão operacional de equipas de prevenção, deteção e apoio ao combate a incêndios florestais.
- Domingos Patacho: Membro e ativista da QUERCUS, organização não-governamental de ambiente. Tem-se destacado pelas intervenções em defesa de uma floresta mais sustentável e tem tecido críticas à expansão dos eucaliptos em Portugal apontando-a como uma das causas que aumenta o risco dos incêndios e a sua dimensão.

Pensando nos que não puderam estar presente nesta iniciativa, partilhamos aqui aqueles que foram os aspetos trazidos para discussão pelo painel de convidados.

Numa primeira ronda de intervenções, António Macedo colocou aos convidados a questão que deu o tema a este debate - "na recomposição da floresta, as espécies contam?".

José Miguel Pereira, pensando no papel das espécies no espaço florestal na questão dos incêndios, é da opinião que sim, ainda que não apenas por si, referindo que nesta matéria é igualmente necessário ter em conta a área arborizada (área total da floresta) e a arrumação dessas áreas no território (arranjo espacial da floresta), dois fatores que tendem a ser subvalorizados nesta equação. Reconheceu que no que respeita às espécies existem duas mais problemáticas [pinheiro-bravo e eucalipto], mas sujeitas a muitas 'não verdades'. E para melhor explicar a sua perspetiva, José Miguel Pereira desafiou os presentes a pensarem no fogo metaforicamente como um 'herbívoro muito pouco seletivo', em que na ordem das suas 'preferências alimentares' temos um 'animal' que prefere, acima de tudo, mato, seguido de pinhal-bravo, seguido de eucalipto, seguido de montado, até chegarmos, por último, a áreas agrícolas. Mas que em condições meteorológicas severas (extremas), as diferenças entre estas preferências atenuam-se. Foi o que aconteceu em 2017, em que a conjugação em Portugal de um ano de seca extrema, com a passagem do furação Ophelia ao lado da costa [que contribuiu para alterações/aumento da temperatura] e 500 ignições por dia, resultaram na combustão, sem distinção, de todos estes tipos de 'preferências alimentares'.

Quanto à pergunta que muito se tem colocado - "porque não arborizar com bétulas, carvalhos, castanheiros e afins?" - José Miguel Pereira lembra que o motivo da arborização não é o de evitar incêndios florestais e sim o da prestação de serviços materiais (obtenção de rendimento). Conhecendo as exigências deste tipo de espécies, é preciso reconhecer que existem problemas em alterar de forma geral a composição da floresta e, dando como exemplo, a floresta de carvalhos e castanheiros, perguntou aos presentes em jeito de desafio - "Para quem serve? Quem está disposto a pagá-la? Se a sociedade disser que sim, então vamos a isso."

A resposta de Manuel Rainha veio completar a do Professor José Miguel, revelando que, apesar de se falar muito em 'fogos florestais', mais de metade da área ardida nos incêndios de 2017 consiste em comunidades de matos. A maioria dos incêndios começa, na verdade, nestas áreas, acabando depois por invadir os espaços florestais. Lembrou ainda que as pessoas conseguem atribuir valor a espécies florestais, mas que o país não sabe quanto está disposto a investir para diminuir a área ardida nestes territórios (áreas de matos), cujo valor direto é inferior ao da floresta. Uma situação preocupante em áreas de montanha (e.g. no Gerês, Estrela, Freita), onde o desafio consiste em perceber como se conseguirá defender estes extensos territórios de comunidades de matos (territórios não produtivos) que aparecem muito associados a atividades que atualmente se apresentam num cenário de regressão, como a pastorícia (gestão da carga combustível), a apicultura e a caça.

Domingos Patacho também é da opinião que as espécies contam pois não são todas iguais, reagem de forma diferente ao fogo (e.g. carvalho vs acácia), mas reforça que a gestão é igualmente determinante neste processo, pois com gestão diminuímos o efeito ‘espécie’. Existem "N" variáveis na floresta e as mais difíceis de controlar são as sociológicas (comportamento das pessoas, tipo de gestão). Uma situação agravada a norte do Tejo pela falta de ordenamento e a existência de uma estrutura de propriedade muito pequena (cerca de 0,5 ha), que leva a que os proprietários não consigam tirar rentabilidade da floresta e, consequentemente, ao seu abandono.
Num cenário de alterações climáticas, com situações atípicas como as que verificámos este ano (e.g. incêndios florestais que 'saltaram' extensões de quatro centenas de metros e até o próprio rio Tejo), Domingos Patacho é da opinião que temos de ir pela gestão adaptativa, gerir e ordenar melhor a nossa floresta, o nosso território, lembrando que para tal não basta ao Estado conhecer os proprietários dos terrenos florestais mas também os dos espaços agrícolas e lameiros [pastagens permanentes com alto valor natural].

Terminada uma primeira ronda de comentários, António Macedo pediu aos convidados que comentassem a frase da sinopse deste debate - 'Uma das questões mais repetidas na opinião pública foi o apontar recorrente dos eucaliptos, sobretudo, e dos pinheiros como uma das causas mais importantes dos fogos' - pensando nas funções dos espaços florestais (produção, conservação, recreio, etc.), nos territórios, nas (expectativas das) pessoas e na questão da adequação das espécies.

Na opinião de José Miguel Pereira, construímos uma paisagem que não conseguimos ter nem controlar, especialmente num cenário de despovoamento do interior em combinação com as alterações climáticas. Deu como exemplo a vila de Mação, cujo brasão apresenta como armas uma ovelha, duas abelhas e um cacho de uvas, representando aqui a riqueza da vinha para a região; uma realidade nos anos 1930, pois até há dois anos atrás mais de 90% do território deste concelho consistia em espaço florestal. Um tipo de estrutura insustentável. Lembrou que um espaço sem vocação agrícola não pode ser gerido como mancha contínua de floresta, pois não ter vocação agrícola não é sinónimo de ter vocação florestal. José Miguel Pereira não se mostra contra o eucalipto, mas sim contra uma paisagem de quilómetros de floresta continua, com aldeias quase abandonadas no seu interior, reforçando que é preciso privilegiar as áreas de pastagem e a pastorícia para diminuição da biomassa dos matos.

Manuel Rainha falou na evolução das escolhas que as pessoas foram fazendo com base no valor da floresta e dos seus produtos, e das quais são reflexo, por exemplo, o desaparecimento de serrações e pontos de recolha de resina, e o não escoamento de lã. Alterações às quais acresce a perda de capacidade de reposição da floresta pós-fogo, do abandono. Partilhou ainda algumas preocupações, como o comprometimento da produção de mel nos territórios de montanha recentemente ardidos (e onde esta era já a principal fonte de rendimento) e a ocupação dos solos com floresta, sendo que há zonas mais adequadas e necessárias à produção agrícola, pelas características dos solos/retenção (e.g. vales agrícolas), que não podem ser perdidas para plantação de autóctones. Manuel Rainha terminou lembrando que ‘não são as autóctones de hoje que vão pagar as despesas de amanhã’ e que não havendo valor ou compensação, não haverá também pessoas nesses territórios.

Domingos Patacho explicou não ser necessariamente contra o eucalipto – não considera a espécie preocupante em si, mas sim a área de monocultura de eucalipto e, mais importante ainda, a sua falta de gestão, lembrando que dos 900 mil hectares de eucaliptal existentes em Portugal, mais de 600 mil não são geridos (área que exclui os eucaliptais pertencentes às principais empresas de produção / Altri e Navigator). Uma situação que resultou de décadas de más políticas, algumas mais ativas outras mais passivas, e onde se inclui, por exemplo, os apoios à florestação em terras agrícolas (RURIS). Ao proprietário deve ser dada liberdade de escolha das espécies que planta e da gestão que pratica, mas não quando isso afeta os seus vizinhos. Domingos Patacho concluiu lembrando que há territórios com capacidade produtiva que estão a ser abandonados e que voltar a otimizá-los para produção florestal, mesmo que de eucalipto bem gerido, vai ter um custo muito elevado.

António Macedo questionou "se fossem o primeiro-ministro, o que fariam para revitalizar a área ardida em 2017? Que espécies / floresta devíamos ter?"

De acordo com José Miguel Pereira, o exercício seria exequível num cenário virtual, mas extremamente complexo num cenário real, onde não correria o risco de assumir uma atitude tecnocrática do que devia ser feito, e sim assumir as limitações e complexidade da ruralidade. Deu o exemplo da ZIF de Alvares, para a qual está a dar o seu contributo, e onde se perdeu 70% da área nos incêndios de junho de 2017. Perante uma realidade de 7.000 hectares e 3.000 proprietários, a maioria dos quais residentes em Coimbra e Lisboa, não é possível assumir uma postura de "eu gostava que fosse assim". Não se pode pensar nas espécies isoladamente, porque o que lá está são comunidades. Há custos, e são algumas espécies que pagam intervenções (e.g. silvícolas) necessárias para outras. E o que o mercado não pagar tem de ser compensado por outra via. José Miguel Pereira falou ainda de outros problemas que precisam ser considerados, nomeadamente a liberdade do Estado de gerir e legislar num cenário em que mais de 90% do território florestal é privado, e da tensão social pelos comportamentos individuais e impacto das ações de cada proprietário (e.g. quem arborizou até às casas, quem foi fonte / acidental de ignição). Sobre a questão de ‘como arrumar as florestas’, do ponto de vista técnico considera esta uma tarefa cada vez mais difícil devido a dois importantes fatores - as alterações climáticas e as pragas / doenças, dando o exemplo do que está a acontecer com o castanheiro & a vespa das galhas nos territórios no Norte (e.g. Vinhais, Arouca), e do pinheiro & do nemátode do pinheiro.

José Miguel Pereira deixou à plateia uma última nota, sobre as espécies invasoras, com destaque para as acácias e as háqueas - espécies com pouco valor comercial no contexto do mercado português e que estão a mudar os territórios, para pior.

Domingos Patacho concluiu a sua participação lembrando aos presentes que o governo reage a estímulos, pelo que a sociedade civil e os especialistas precisam pensar em conjunto, e que o caminho passa por políticas públicas na área da fiscalidade, num formato viável (pensando no atual cenário económico da população destas áreas), não por obrigação, mas por estímulo.

Terminadas as intervenções, Manuel Rainha partilhou ainda um vídeo com um relato de um pastor e a sua perspetiva sobre o fogo controlado na gestão da paisagem na Serra da Freita.

Competiu ao Professor João Bugalho, da LPN, o encerramento deste segundo debate do ciclo, com uma mensagem sobre a importância das ONGA e da necessidade de intensificação da sua atividade, da sua agregação.



O próximo debate deste ciclo decorre a 6 de dezembro com o tema “A literacia sobre florestas e fogos. O papel dos MEDIA.”

Mais informações sobre o Ciclo de Debates "Floresta e Incêndios Florestais – Incertezas e Verdades" aqui

Uma iniciativa LPN - Liga para a Protecção da Natureza com o apoio da Caixa Geral de Depósitos e a colaboração da Ordem dos Engenheiros.




05/12/2017