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A “A literacia sobre Florestas e fogos. O papel dos Media” foi o tema para o terceiro debate do Ciclo de Debates – Floresta e Incêndios Florestais

Os participantes do terceiro debate, integrado no ciclo dedicado à Floresta e Incêndios Florestais, defendem a necessidade de uma maior formação e sensibilização dos jornalistas no sentido de mobilizar a Opinião pública e implementar uma reforma preventiva estruturada da Floresta.





A sala 2 da Culturgest foi palco para mais um debate do Ciclo de Debates – Floresta e Incêndios Florestais, desta vez subordinado ao tema “A literacia sobre Florestas e fogos. O papel dos Media”. Sendo os Media um dos responsáveis pela formação da perceção dos portugueses no que respeita aos incêndios e Floresta, este debate foi organizado no sentido de analisar e refletir sobre a forma como a informação é e deve ser passada aos cidadãos, reunindo oradores com grande expressão ao nível do jornalismo como Manuel Carvalho do “Jornal o Público”, Henrique Monteiro do “Jornal Expresso” e José Manuel Fernandes do “Jornal digital Observador”, contando com a moderação de João Bugalho engenheiro florestal e membro suplente da direção Nacional da LPN.

Pensando nos que não puderam estar presente nesta iniciativa, partilhamos aqui aqueles que foram os aspetos trazidos para discussão pelo painel de convidados.


O painel teve início com uma breve reflexão do Eng.º João Bugalho que frisou o facto dos meios de Comunicação Social serem dominados por notícias de incêndios, com especial enfase para as suas consequências trágicas, no entanto, não se fala em fogos. De acordo com João Bugalho, os fogos são parte integrante dos ecossistemas mediterrânicos, pelo que não se deve restringir os Fogos mas sim os Incêndios. Mencionando a necessidade duma perspetiva mais profunda e realista sobre a problemática da Floresta e dos Incêndios por parte da Comunicação Social, sugerindo que esta acolha o contributo da comunidade científica, para uma maior literacia dos Media.

Passando às intervenções dos oradores, Manuel de Carvalho começou por mencionar que os Media têm um papel reduzido na passagem da informação relativamente à Literacia sobre a Floresta. Embora este ano tivessem havido manifestações de alguma preocupação, discutindo-se algumas causas estruturais, os Media tiveram uma postura reativa, comentando o tema a posteriori após a ocorrência dos acontecimentos. Segundo Manuel de Carvalho, uma das razões para tal acontecer, deve-se ao facto dos fogos registarem-se mais no verão, período em que há uma maior carência de agentes noticiosos e, porque para a TV, as imagens alusivas aos incêndios garantem audiências. Por outro lado, Manuel de Carvalho referiu a ausência de especialização no jornalismo, como uma das causas da falta de acompanhamento das notícias – “tem de se dominar a tecnicidade do discurso florestal e em Portugal isso não existe”. “Uma notícia do ICNF não é contextualizada ou percebida”. Apontou a necessidade duma maior formação e sensibilização dos jornalistas sobre a Floresta e os Incêndios, relembrando que em Portugal já houve um organismo, a Direção-Geral das Florestas, que em determinada altura desempenhou e bem essa missão.

Henrique Monteiro concordou com a necessidade de se distinguir “Fogos” de “Incêndios”, pois segundo ele – “O Fogo sempre foi um cedro para a nossa civilização”. Para Henrique Monteiro, é dada relevância à notícia espetáculo que desencadeia emoções, não existindo literacia, havendo inclusive jornalistas, que segundo ele, não conseguem fazer a distinção entre um sobreiro e um pinheiro. Sublinhou que nunca houve a coragem de se fazer uma verdadeira reforma administrativa e que ninguém entende o papel regenerador do fogo, sendo  da opinião de que se investe mais no combate do que na prevenção, gastando-se avultadas verbas em equipamentos de combate desajustados aos limites físicos do território em vez duma prevenção estruturada. De acordo com Henrique Monteiro algumas medidas que poderiam minimizar os incêndios seriam a implementação do cadastro, o emparcelamento e a coragem política para combate o “lobby” dos Bombeiros Voluntários, cabendo à Comunicação Social ter o papel de agente catalisador de mudança em vez de ser agente do espetáculo.

Para José Manuel Fernandes, existem dois fatores que contribuem para a iliteracia: o primeiro refere-se à falta de formação dos jornalistas e o segundo à agenda mediática. Mencionou que a formação dos jornalistas é cada vez mais “afunilada” e menos aprofundada, agindo segundo a agenda mediática, especialmente a Televisão. Para se inverter essa situação sugeriu que as universidades possam assumir o papel de promoção da literacia dos jornalistas, tal como mais ações de formação e de divulgação, reforçando a necessidade de mais incentivos e financiamento para essa área. 

Após as intervenções dos oradores, alargou-se a reflexão ao público presente.

Tito Rosa, presidente da Direção nacional da LPN, relembrou que o jornalismo atualmente está dependente das agências de comunicação e sujeito às regras do mercado e por isso não constitui uma agenda de Interesse Público. Para além disso, na formação da opinião pública os comentadores “estudólogos” têm uma grande responsabilidade, no entanto por vezes em vez de ajudar a uma maior consciencialização, acabam por complicar. Reforçou a necessidade de mais financiamentos para a sensibilização e de serem promovidas campanhas de sensibilização nos órgãos de comunicação social, de forma a passar uma mensagem fidedigna e não “a reboque” dos interesses que deturpam a informação.

Quanto à pergunta “porque é que não se pode aproveitar os programas de maior popularidade para se transmitir uma opinião fundamentada”, Henrique Monteiro foi da opinião que é difícil veicular essa informação, pois esses programas também são os de maior iliteracia, já José Manuel Fernandes referiu que se houver uma conversa “interessante” a audiência não será má, reforçando que existindo incentivos, existirão mais notícias.

Em resposta a José Velez, relativamente aos lobbies dos bombeiros e à necessidade de uma maior controlo de prevenção, Henrique Monteiro referiu que pela primeira vez, após as catástrofes ocorridas, conseguiu-se chegar às causas, mas tudo acabou por gravitar no discurso maioritário em torno da informação bélica da vanguarda do fogo.

Já Manuel Carvalho afirmou não ser da opinião de que os “políticos são corruptos e que trabalham para os seus lobbies”, considera sim é que não têm coragem para os enfrentar. Henrique Monteiro mencionou que a recente situação dos incêndios veio mais uma vez mostrar os impactos ambientais, económicos e mesmo sentimentais por não existir uma floresta ordenada. A ausência duma estratégia que passa pelo emparcelamento, reestruturação do território e a necessidade da Comunicação Social transmitir essa ideia foi a questão levantada por Luís Vasconcelos. Henrique Monteiro corroborou essa opinião mas disse não acreditar que a Comunicação Social fosse a solução, pois a informação encontra-se cada vez mais dispersa e são mudanças muito lentas. 

João Bugalho deixou à plateia a informação de que não obstante a ausência do orador previsto - Ricardo Costa da SIC, este tinha garantido que a SIC irá emitir cerca de 15 programas de curta duração associados ao tema dos incêndios, contando com a presença e perspetiva de especialistas, vítimas e proprietários e que contará com o apoio da LPN na elaboração do guião. Estes programas serão também divulgados pelas redes sociais.

Para José Manuel Fernandes a questão do emparcelamento não é assim tão simples!  Descrevendo a sua experiência passada neste verão, num concelho junto a Pedrógão apercebeu-se de que não é fácil a limpeza dos terrenos. Interroga-se como se faz por exemplo a limpeza dos terrenos numa zona classificada? De acordo com José Manuel Fernandes o cenário do emparcelamento é um “inferno burocrático”, considerando que as ZIF têm sentido a sul do Tejo mas que a Norte se torna muito complicado. “Escrevi durante décadas relativamente à recuperação dos edifícios dos centros históricos, deram-se os incentivos certos e de repente tudo mudou”, ou seja, deverão dar-se os incentivos bem orientados e as regras certas para que exista uma mudança rumo a uma reforma florestal concluiu José Manuel Fernandes, mencionando ainda que os problemas do País interior não poderão ser organizados e resolvidos do mesmo modo.

Manuel Carvalho concluiu a sua intervenção expressando a opinião de que deveria haver uma regionalização que protagonizasse políticas mais próximas das populações contemplando a especificidade dos territórios. 

Competiu ao Professor João Bugalho, da LPN, o encerramento deste terceiro debate do ciclo, na linha das intervenções anteriores de descentralização das ações de formação com uma mensagem de convite para se efetuar um programa de sensibilização para os Jornalistas em Viseu referindo que “se tivermos força na Opinião Pública os decisores farão o que se pretende”.

O próximo debate deste ciclo decorre a 14 de dezembro com o tema “O Ordenamento é importante! As opções de desenvolvimento do interior ainda o são mais!”



Mais informações sobre o Ciclo de Debates "Floresta e Incêndios Florestais – Incertezas e Verdades" aqui

Uma iniciativa LPN - Liga para a Protecção da Natureza com o apoio da Caixa Geral de Depósitos e a colaboração da Ordem dos Engenheiros.