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Da Arrábida à Arriba Fóssil Valorizando a Biodiversidade e a Geodiversidade

Quem conhece com um olhar profundo o Parque Natural da Arrábida e a Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa da Caparica desenvolve um instinto de identidade e um sentimento de proteção. Foi esse o objetivo de conhecer esses espaços naturais de património natural e cultural que levaram a LPN através do professor destacado e com os professores da Escola Secundária Gago Coutinho a realizar uma saída de campo com os alunos do 10º ano.





“Cá estamos no Parque Natural da Arrábida criado em 1976 como resultado do apelo poético de Sebastião da Gama e dos esforços desenvolvidos pela LPN para a conservação deste património!” Esta afirmação era dada pelo professor Jorge Fernandes anunciando-se a entrada na região de uma Serra a que o “poeta de Azeitão”, Sebastião da Gama chamou de “Mãe”, aos alunos do 10º ano de escolaridade da Escola Secundária Gago Coutinho, Alverca que participaram nas saídas dos dias 19 e 20 de março. Nessa saída descreveu-se a riqueza natural, histórica e cultural, enquadrada nos objetivos programáticos da disciplina de Geografia A em que o trabalho de campo se torna um espaço privilegiado de aprendizagem ao mesmo tempo em que se contempla a beleza paisagística da Península de Setúbal.

Juntos, a LPN e os 11 professores da Escola, no âmbito da disciplina de Geografia A efetuaram um itinerário a duas áreas protegidas que englobava paragens em sete estações com a participação de cerca de 126 alunos. Embora fosse elevado o número de alunos, a saída estava bem organizada pois os alunos dividiram-se em grupos de trabalho em algumas estações munidos de um guião elaborado pelos professores de Geografia permitindo um posterior desenvolvimento de atividades que os ajudaria a integrar a aprendizagem efetuada durante a saída.

Durante o percurso salientou-se entre outros temas, a Geologia e a biodiversidade notável, destacando-se a convergência das diferentes floras, nas quais os matos são únicos, constituindo um dos últimos vestígios de uma floresta pré-glaciárica. Foi também mencionado o valor da fauna e flora do Parque Marinho Luís Saldanha compreendido entre a praia da Figueirinha - Praia da Foz e a necessidade da sua conservação. 

A nossa viagem começou com o rumo à primeira paragem do itinerário - os Viveiros da Secil-Outão. Embora o impacte das pedreiras seja um dos exemplos mais marcantes da pressão humana e do seu impacte no ambiente, esta paragem justificava-se pelo facto de se ter contemplado projetos de intervenção e de gestão na recuperação paisagística das áreas em exploração. Nas instalações da Secil os alunos alternaram em grupos de trabalho. Um dos grupos ia participando numa descrição da Geologia da área e do património natural descrevendo-se os diferentes aspetos que iriam observar do Parque Natural por parte do professor destacado na LPN - Jorge Fernandes, o outro grupo ia participando com a engª Filipa Costa, da Secil, na observação e descrição dos Viveiros da Secil que apresenta exemplos das plantas autóctones que recriaram(riam) o coberto vegetal originalmente existente no local de exploração.

Embora no primeiro dia da saída de campo as condições meteorológicas não fossem as melhores não permitindo devido ao nevoeiro a vista no miradouro norte, no segundo dia, “o tempo estava mais simpático” e visualizaram-se identificando as diferentes geomorfologias, os principais relevos da Arrábida, os diferentes solos derivados da Geologia da região que condicionam a flora, fauna e as diferentes formas de ocupação humana.

Seguidamente descemos pela cadeia da Arrábida em direção ao litoral, nas encostas viradas a sul, à praia do Creiro, onde efetuámos um pequeno percurso pedestre onde de relance se avistava um dos seus encantos naturais – a pedra da Anicha e vermos os processos de salga desde os tempos da ocupação romana na estação Arqueológica do Creiro. 

Mas a nossa saída nunca poderia ficar completa sem a paragem no Alto do Jaspe. Olhando para oeste, permitia-se a fruição de uma paisagem linda onde uma das mais altas escarpas calcárias -  a Serra do Risco se debruçava sobre nós e em  que Sebastião da Gama se referiu como o “fóssil de uma onda”. Nas encostas abrigadas a Sul, onde o maquis adquire estrato arbóreo originando a mata do solitário, víamos o retrato do que eram as florestas do mediterrâneo há muitos milhares de anos e que foi motivo para o apelo poético do Sebastião da Gama, influenciando a criação da LPN, em 1948. Junto a esse local foi ponto de escala obrigatório um tipo litológico único que foi explorado para fins ornamentais e que é de alto valor pedagógico e científico testemunhando diversos processos tectónicos e de evolução da bacia Lusitaniana.

A paragem do Alto do Jaspe foi um ponto didático importante na nossa saída mas eis que chegava a inevitável questão – “professor, onde vamos almoçar?”, perguntava um aluno. Com efeito, na saída do dia 19 face às condições meteorológicas não serem amigáveis tivemos o privilégio de almoçar com o nosso farnel no salão dos bombeiros indo depois para o Castelo de Sesimbra, enquanto que os alunos do dia 20 abraçados pelo bom tempo almoçaram na 5ª paragem – O Castelo de Sesimbra. “Que grande descida do Castelo para a vila” dizia um aluno. Na verdade, há um grande contraste morfológico com os relevos caraterísticos de toda a costa da Península de Setúbal tendo-se mencionado que essa estrutura é particular, a que se dá o nome de Diapiro. Depois do almoço realçaram-se aspetos relacionados com a intervenção antrópica no meio costeiro nomeadamente a erosão da praia da Califórnia de Sesimbra, o assoreamento do porto de Sesimbra e a perda das areias com a falta de acarreio de sedimentos resultantes do estuário do Sado na praia do Portinho da Arrábida.

À medida que a tarde avançava era tempo de sairmos rumo à plataforma do Cabo Espichel onde a terra encontra o mar, constituindo um litoral de natureza erosiva (catamórfica). Outrora foi um dos maiores locais de peregrinação do país onde se registam trilhos de pegadas de dinossauros nas lajes calcárias do jurássico superior no Monumento Natural da Pedra da Mua.  Um dos trilhos de saurópodes está associado à lenda da N. sra. da Pedra da Mua, tornando-o, a partir de então, local sagrado. Abrangido pelo mesmo decreto-lei que classifica as jazidas da pedra da Mua e dos Lagosteiros a caminho já de Santana, na região de Zambujal de Cima visitou-se o Monumento Natural da Pedreira do Avelino que sobressai pela qualidade dos trilhos e icnitos que o constituem permitindo que alguns alunos “mais cépticos” tivessem um contacto direto com essa jazida de pistas bem conservadas de saurópodes.

Mais perto do pôr do sol, o brilho da água tornava-se mais ténue, mas dava ainda para se contemplar a paisagem no miradouro dos Capuchos.  Na arriba fóssil da Costa da Caparica onde se observa o traçado atual do estuário do Tejo, as praias, os sistemas dunares, os campos agrícolas, para além de se ter mencionado a evolução geológica da arriba fóssil, trabalhou-se alguns aspetos relacionados com a intervenção antrópica na faixa litoral. Salientou-se para além do processo de formação atual da arriba, a importância da necessidade de se conservar e proteger as dunas analisando alguns aspetos de riscos existentes de ocupação e intervenção humana, resultando na erosão do litoral. Sensibilizou-se para a compreensão dos processos geológicos e de formas de prevenção que passam por exemplo por estabelecer regras de ordenamento do território e efetuarem-se plantações de espécies dunares adaptadas a esses ecossistemas.

De volta à escola pensamos que com esta saída os alunos tiveram uma nova perspetiva e uma aproximação mais profunda destas áreas protegidas visitadas. A saída de campo realizada possibilitou momentos de aprendizagem onde a cognição, a afetividade e o ambiente se conjugaram para que os temas abordados tenham um olhar mais desperto para os locais visitados, na esperança de que no futuro tenhamos cidadãos sejam mais proactivos no que diz respeito à conservação da natureza e ao ambiente.
 
 
Introdução à saída de campo e descrição da Geologia e Biodiversidade do Parque Natural Arrábida – Instalações da SECIL.

 
Introdução à saída de campo com a professora de geografia Isabel Marina - Instalações da SECIL.

 
Viveiros da SECIL.

 
Viveiros da Secil.

 
Praia do Creiro.


Alto do Jaspe – Vista para a Serra do Risco.

 
Alto do Jaspe – Brecha da Arrábida.

 
Miradouro do Norte


Cabo Espichel.


Miradouro dos Capuchos.