15/6/2007
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II Encontro de Antropologia, Cinema e Sentidos
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Entre os dias 7 e 10 de Junho realizou-se o II Encontro de Antropologia, Cinema e Sentidos, em Miranda do Douro, organizado pelo Centro de Estudos de Antropologia Social (CEAS), o Departamento de Antropologia da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD - Pólo de Miranda) e - uma novidade relativamente ao ano passado - a Liga para a Protecção da Natureza (LPN).
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Por isso mesmo, este ano a Antropologia Visual aliou-se ao tema do Ambiente. Preparadas para o grupo que partiu de Lisboa e para os colegas antropólogos e alunos de Miranda estavam as Conferências da Dr.ª Amélia Frazão sobre Etnobotânica - a vegetação apresentada do ponto de vista simbólico, mas também dos seus usos sociais, como seja a sua utilização nas gastronomias locais e medicinais - e do Dr.º Paulo Mendes, cuja palestra girou em volta da relação entre o ambiente, os fenómenos sociais e culturais.
Os filmes/documentários desde ano foram 3: O Mercado de Vila Franca de Xira - o quotidiano do mercado, desde a sua abertura aos comerciantes, a preparação dos produtos expostos, a conversa com que faz do mercado a sua casa, a abertura ao público, a algazarra organizada de cores, de sons e de cheiros - e Avieiros, que retrata a vida da comunidade piscatória oriunda de Aveiro e residente em Vila Franca de Xira. Estes dois documentários, de autoria de Umme Salma e Ricardo Silva, são fruto de um projecto documental da Câmara Municipal daquele concelho sobre a herança e património material e cultural da região. Por fim, foi apresentado o filme Balaou, participante no Festival IndieLisboa 2007, de Gonçalo Tocha, que relata a história da viagem de um jovem, e que é motivada por uma outra partida, a morte da mãe do narrador.
Outra novidade deste II Encontro foi a multiplicidade de eventos culturais: Fomos convidados a estar presentes na inauguração da Exposição Enquanto Espero (Paisagens) de autoria do fotógrafo António Coelho, que reflecte a dialéctica existente entre o gesto, a palavra e a mão como dispositivos neuromotores - a palavra gestual escrita, com os significantes vento, terra, água e os significados (apresentados em legenda) das cidades mediáticas que associamos a catástrofes ambientais e humanitárias - Beirut, Israel, Nova Iorque, Ruanda.
Fomos também convidados a ver - e sentir - a Exposição "Nunca Máis - a Voz da Cidadania" criada pelos amigos da Galiza em protesto contra o acidente do Prestige, relatando as manifestações de então contra não só a morosidade e indiferença do governo espanhol face ao acidente, mas onde se aliaram as vozes contra a Guerra do Iraque. Finalmente fomos ainda convidados a participar no lançamento dos livros Transformar a Economia - Desafio para o terceiro milénio, de James Robertson, Criar Cidades Sustentáveis, de Herbert Girardet e Pensar como uma Montanha, de Aldo Leopold, da Edições Sempre-em-pé (www.sempreempe.pt).
Como não poderia deixar de ser, e por mais de razão este ano, realizamos dois percursos pedestres científicos: Uma caminhada de Miranda do Douro a São João de Arribas, com o apoio de Bárbara Fráguas, para a observação de aves: Britango (Neophron percnopterus), Grifo (Gyps fulvus), Milhafre-real (Milvus milvus), Águia-calçada (Hieraaetus pennatus), Águia-de-asa-redonda (Buteo buteo), Tataranhão-caçador (Circus pygargus), Peneireiro-vulgar (Falco tinnunculus), Andorinhão-real (Apus melba), Gralha-de-bico-vermelho (Phyrrocorax phyrrocorax). No final desta caminhada, recolhidas as imagens paisagísticas deste património de valor incalculável e o encontro com as pessoas que por lá vivem, esperava-nos uma sardinhada ao ar livre em São João de Arribas para os 20 participantes portugueses, galegos e italianos.
O segundo percurso realizou-se em Atenor, com o passeio com os burros mirandeses, organizado pela AEPGA - Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino. Ainda que seja uma repetição do ano passado, o entusiasmo do passeio e a doçura destes burros fazem as delícias dos participantes. Novamente, tal como no ano passado, o Encontro promoveu não só a troca de experiências e de opiniões no campo da antropologia e mais concretamente da antropologia visual - desta vez, de braço dado com o Ambiente - como a partilha de sensações visuais paisagísticas, gastronómicas e monumentais.
Finalmente, já à margem do encontro com os colegas de Miranda, mas fazendo parte do programa, fomos visitar o Santuário de Santo Antão, onde foi possível realizar actividades de canoagem e avistar um javali a banhar-se na margem do rio Sabor. A beleza imagética do local, a simpatia e boa disposição dos nossos anfitriões - os membros da Confraria do Santuário - e a preocupação da possível iminência da destruição do local que foi outrora terra dos Távora e de todo o rio Sabor, o último dos rios livres em Portugal, que integra 20 tipos de habitats naturais, com a construção de mais uma de várias dezenas de barragens em Trás-os-Montes (uma gigantesca obra, projectada para o Baixo Sabor, que irá afectar aproximadamente 50% da extensão total do rio, inundando uma área máxima prevista de 3660 ha.) resumiram o nosso dia ali passado.
De volta a Lisboa, fica agora mais que nunca a certeza que este é um Encontro a realizar-se sem interrupções, que a partilha e a aprendizagem académica pode e deve ir além do espaço da academia, que esta é uma região que sempre deixa saudades de tão boas memórias.
Filipa Alvim
Amnistia Internacional - Secção Portuguesa
António Lourenço
Liga para a Protecção da Natureza
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