17 milhafres-reais encontrados mortos em Leomil, Almeida

O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e a Guarda Nacional Republicana (GNR) estão a investigar o caso, mas o crime de envenenamento surge como uma das causas mais prováveis. Se a investigação concluir que houve envenenamento, poderá tratar-se do caso mais grave alguma vez registado em Portugal, no que respeita ao número de indivíduos desta espécie mortos.

 

©Palombar

 

 

Caso em investigação

O ICNF recebeu, no dia 12 de janeiro, uma denúncia relacionada com a morte de aves selvagens em Leomil, no concelho de Almeida. Seguindo o protocolo para estas situações, foi mobilizado o órgão de polícia criminal competente, a GNR, e foi feita a prospeção e recolha de evidências para proceder com a investigação do caso. “Assim que sejam conhecidos os resultados das análises forenses às provas e indícios recolhidos no local, o ICNF tomará, no âmbito das suas competências, as providências que venham a revelar-se necessárias”, afirma o ICNF em comunicado.


Suspeitas de envenenamento

Embora não seja formalmente adiantada uma causa para o sucedido, o elevado número de aves mortas, numa mesma zona e num curto intervalo de tempo, parece apontar para um caso de envenenamento propositado.

 

A confirmar-se, este não seria o primeiro caso de mortalidade de milhafres-reais (Milvus milvus) em eventos suspeitos ou confirmados de envenenamento. Segundo dados da GNR, publicados num relatório do projeto LIFE Aegypius Return em 2024, pelo menos 21 milhafres-reais morreram em 19 casos analisados entre 01/01/2021 e 30/06/2024, dos quais três indivíduos (de três casos diferentes) foram  definitivamente envenenados, nomeadamente com estricnina e carbofurano.

 

O recente caso de Leomil aparenta ser o caso mais grave alguma vez registado em Portugal, no que respeita ao número de milhafres-reais mortos. Torna-se ainda mais grave por se tratar de uma espécie em vias de extinção, protegida, cuja população reprodutora em Portugal detém o estatuto de conservação “Criticamente em Perigo”.

 

Milhafre-real morto em caso suspeito de envenenamento, detetado no âmbito do projeto Sentinelas, da Palombar, em 2023. ©Palombar

 

 

O envenenamento é uma das principais ameaças à conservação da biodiversidade, e tem impactos severos, principalmente sobre espécies já em risco, como o milhafre-real, ou o abutre-preto (Aegypius monachus), mas também aporta riscos sobre animais domésticos e pessoas. O uso ilegal de venenos, apesar de constituir um crime punível com pena de prisão, continua a ser uma prática relativamente comum em Portugal e no Mundo. Uma investigação criminal adequada é fundamental para que se apurem os factos e se identifiquem eventuais suspeitos, que deverão ser levados a tribunal para que a sensação de impunidade vigente acabe de uma vez por todas.

 

 

Uma espécie inofensiva, ameaçada de extinção

O milhafre-real é uma ave de rapina maioritariamente carnívora e oportunista, cujos hábitos incluem também a necrofagia – o que a torna vulnerável ao envenenamento, pelo consumo de iscos ou animais contaminados. Entre 2021 e 2024, o milhafre-real representou 34% dos animais selvagens mortos em casos suspeitos (ou confirmados) de envenenamento. O envenenamento, a perda e alteração de habitat, e também a mortalidade em linhas elétricas constituem os principais fatores de mortalidade que contribuiram para o declínio da espécie em Portugal, sobretudo como espécie nifidicante.

 

Em Portugal, as populações de milhafre-real apresentam dois tipos de dinâmica. Existem grupos invernantes, oriundos do centro e norte da Europa, que se concentram geralmente em dormitórios com grande expressão, por exemplo, no interior do Alentejo, Beiras e Trás-os-Montes. A Península Ibérica desempenha, assim, um papel muito importante na conservação das populações europeias, sendo que um evento nefasto aqui pode ter consequências graves à escala continental.

 

A população reprodutora é muito reduzida e concentra-se principalmente nas paisagens abertas ou em mosaico do interior raiano. As maiores densidades encontram-se no Planalto Mirandês, onde tem sido alvo de muitos esforços de conservação por parte de entidades como a Palombar e o ICNF, e também de ações de vigilância reforçada por parte da GNR.

 

Outros parceiros do projeto LIFE Aegypius Return, como a LPN (Liga para a Protecção da Natureza), a Faia Brava e a SPEA (Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves) têm igualmente dedicado esforços de conservação para a recuperação da espécie, tendo também organizado regularmente os censos de inverno da espécie.

 

 

Milhafre-real (Milvus milvus). ©Paulo Monteiro/SPEA

 

 

Repúdio coletivo

Os parceiros LIFE Aegypius Return manifestam o seu total repúdio por qualquer tipo de crime ambiental, e a sua disponibilidade para auxiliar as autoridades no apuramento dos factos e no combate ao crime contra a vida selvagem, através da cooperação e da dinamização de ações de capacitação como a WildLIFE Crime Academy. Em relação ao caso de Leomil, a SPEA está também disponível para se constituir como assistente do processo.

 

 

Sobre o projeto LIFE Aegypius Return

 

 

O projeto LIFE Aegypius Return é cofinanciado pelo programa LIFE da União Europeia. O seu sucesso depende do envolvimento de todos os stakeholders relevantes, e da colaboração dos parceiros, a Vulture Conservation Foundation (VCF), beneficiário coordenador, e os parceiros locais Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural, Herdade da Contenda, Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, Liga para a Protecção da Natureza, Associação Transumância e Natureza, Fundación Naturaleza y Hombre, Guarda Nacional Republicana e Associação Nacional de Proprietários Rurais e Associação Nacional de Proprietários Rurais Gestão Cinegética e Biodiversidade.

 

 

 

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