Todos gostamos de visitar um jardim, caminhar num parque ou simplesmente parar junto de uma árvore. A presença da vegetação transmite tranquilidade e bem-estar e recorda-nos uma realidade essencial: sem as plantas e os ecossistemas de que fazem parte, a vida humana não seria possível.
Para as populações urbanas, os espaços verdes constituem também lugares de memória, encontro, lazer e contacto com a natureza. Desempenham, simultaneamente, funções ecológicas fundamentais, contribuindo para a conservação da biodiversidade, a regulação do clima urbano, a qualidade de vida e a adaptação às alterações climáticas. Simultaneamente, a conservação e valorização dos geomonumentos e afloramentos geológicos em contexto urbano são essenciais para a memória da história geológica da cidade.
Foi neste contexto que, no dia 12 de setembro, a LPN promoveu a ação de formação “Caminhos da Água: Percursos de natureza e património em Lisboa”, destinada a professores, estudantes, investigadores, associados e cidadãos interessados em conhecer melhor o património natural e cultural da cidade.
A iniciativa foi em parceria com a EPAL – Empresa Portuguesa das Águas Livres e contou com a participação dos formadores Rui Queirós, responsável pela componente de biodiversidade, e Jorge Sequeira, responsável pela componente da Geodiversidade.
A ação integrou-se na aposta da LPN na promoção da educação ambiental em contexto urbano, valorizando, entre outros, os princípios da Agenda XXI para o desenvolvimento sustentável, nomeadamente os relacionados com Cidades e Comunidades Sustentáveis, e procurando aproximar os cidadãos dos espaços verdes, da biodiversidade e do património natural e cultural.
A ação iniciou-se junto ao miradouro sobre o estuário do Tejo, um local privilegiado para observar a relação entre a cidade, o rio e o território envolvente.
A partir deste ponto foi promovida uma reflexão sobre a evolução de Lisboa e sobre os efeitos do crescimento urbano na paisagem, na ocupação do território e nos espaços naturais. A observação da cidade permitiu questionar de que forma a expansão urbana modificou os sistemas naturais e como os espaços verdes podem contribuir atualmente para uma cidade mais equilibrada e resiliente.
Foi neste enquadramento que o formador Rui Queirós introduziu a Tapada das Necessidades, apresentando a sua importância histórica, paisagística e ambiental e destacando o seu papel enquanto espaço verde urbano e importante refúgio de biodiversidade.
Por sua vez, o formador Jorge Sequeira realizou uma introdução à Geologia de Lisboa, permitindo compreender que a atual paisagem urbana assenta numa história geológica muito mais antiga e complexa relacionando com o abastecimento da água em Lisboa.
A partir do miradouro, os participantes foram assim convidados a olhar para Lisboa numa perspetiva integrada, relacionando paisagem, geologia, biodiversidade, ocupação humana e história da cidade.
Tapada das Necessidades: um laboratório natural em Lisboa
Um dos momentos centrais da ação decorreu na Tapada das Necessidades, espaço verde histórico com cerca de 10 hectares, situado entre Alcântara e a Lapa.
Apesar da sua riqueza ambiental, botânica, histórica e arquitetónica, a Tapada continua relativamente desconhecida por muitos lisboetas. A visita procurou, por isso, aproximar os cidadãos deste património e evidenciar o seu enorme potencial enquanto espaço de educação ambiental, aprendizagem e contacto com a natureza.
Rui Queirós mencionou que a história da Tapada remonta a 1742, quando D. João V promoveu a construção da ermida, do convento e do palácio das Necessidades, na sequência da aquisição de terrenos agrícolas envolventes.
Durante o século XIX, o espaço sofreu importantes transformações paisagísticas, nomeadamente a transformação da antiga zona de hortas num jardim de inspiração inglesa, associado ao jardineiro Jean-Baptiste Bonnard. Foram posteriormente construídos a Estufa Circular, lagos, cascatas, chafarizes e outros elementos que contribuíram para a riqueza paisagística do espaço.
Ao longo da ação, a água constituiu um elemento condutor, uma vez que a história da Tapada está profundamente ligada à necessidade de assegurar este recurso num território cujos solos apresentavam reduzida capacidade de retenção. Esta abordagem permitiu ainda estabelecer uma ligação com os atuais desafios da gestão sustentável da água.
Neste contexto, existiu uma galeria de água associada ao sistema de abastecimento ligado ao Aqueduto das Águas Livres, contribuindo para o fornecimento de água à Quinta das Necessidades e para a manutenção dos seus jardins, lagos e restantes estruturas hidráulicas.
Um património botânico de grande diversidade
Durante o percurso orientado pelo Rui Queirós foram observadas árvores e plantas de elevado interesse botânico e paisagístico. O levantamento arbóreo realizado em 2012 identificou cerca de 3348 exemplares, pertencentes a 102 espécies arbóreas, revelando a dimensão deste património vegetal.
A diversidade da Tapada permitiu abordar temas como espécies autóctones e exóticas, introdução e aclimatação de plantas, património botânico, biodiversidade urbana e história dos jardins.
Apesar da Tapada revelar-se como um verdadeiro laboratório natural ao ar livre, com grande potencial para atividades de educação ambiental e científica, ela precisa de ser reabilitada pois eram visíveis, alguns sinais de degradação do património natural e construído. Nesse âmbito, Rui Queirós informou que atualmente encontra-se em discussão a passagem do projeto de reabilitação para a esfera municipal, considerando-se que este espaço possui importância para áreas que ultrapassam o interesse turístico, envolvendo espaços verdes, cultura, património e desenvolvimento urbano.
A reabilitação deverá constituir uma oportunidade para valorizar não apenas o património histórico e arquitetónico, mas também a biodiversidade, os espaços verdes, os sistemas de água e o potencial educativo da Tapada.
Ao longo do percurso que se efetuava na Tapada das Necessidades, a formação não se limitava à interpretação do património. Foram também apresentados e realizados alguns exemplos de atividades relacionadas com os líquenes, de identificação e análise de propriedades do solo efetuadas pelo professor em mobilidade na LPN, que os professores podem desenvolver posteriormente com os seus alunos, utilizando os espaços verdes urbanos como verdadeiros laboratórios naturais.
Essas atividades permitem relacionar as características do solo com a vegetação existente, a disponibilidade de água, a biodiversidade e os diferentes usos do território, demonstrando que numa saída de campo a um jardim ou parque se podem articular conteúdos de diferentes áreas disciplinares.
O percurso prosseguiu até ao Geomonumento da Avenida Infante Santo, sob orientação do formador Jorge Sequeira, mantendo-se a água como elemento agregador da ação. A disponibilidade deste recurso foi determinante para o desenvolvimento de Lisboa, condicionando a ocupação do território, a criação de jardins e espaços agrícolas e a construção dos sistemas históricos de abastecimento. Ao longo do percurso, foi ainda possível observar alguns trechos do aqueduto junto a áreas habitacionais, testemunhando a relação entre as antigas infraestruturas de abastecimento de água e o crescimento da cidade
Jorge Sequeira aprofundou a interpretação da geodiversidade lisboeta e o papel da Geologia na construção e no desenvolvimento da cidade. Foram abordadas, em particular, a exploração das pedreiras de calcário e a utilização desta matéria-prima na produção de cal, evidenciando a importância dos recursos geológicos no desenvolvimento e na transformação da paisagem urbana de Lisboa.
No local do Geomonumento da avenida Infante Santo aflora a Formação de Bica, constituída por calcários do Cretácico Superior. Estas rochas testemunham um passado em que a região de Lisboa apresentava condições ambientais muito diferentes das atuais, associadas a ambientes marinhos quentes, recifais e pouco profundos.
A presença de níveis e nódulos de sílex permitiu estabelecer uma ligação entre geologia e história humana. O sílex foi utilizado pelas populações pré-históricas como matéria-prima para a produção de instrumentos, demonstrando como os recursos geológicos influenciaram também a ocupação e utilização do território.
Deste modo, um afloramento rochoso tornou-se uma verdadeira janela para diferentes escalas temporais: milhões de anos de história geológica e milhares de anos de história humana.
Um dos objetivos da LPN é promover o aumento das oportunidades de contacto direto com a natureza, tanto para os cidadãos como para as escolas. Num contexto de crescente urbanização, os jardins e parques constituem espaços privilegiados para desenvolver aprendizagens fora da sala de aula, permitindo aos alunos observar fenómenos no seu contexto, formular questões, recolher dados e realizar pequenas investigações.
As atividades outdoor podem, assim, contribuir simultaneamente para a literacia científica, a educação ambiental, o bem-estar e a valorização do território.
A ação realizada na Tapada das Necessidades não constitui uma iniciativa isolada. A LPN já realizou diversas ações em jardins e parques urbanos, inclusive há 7 anos na Tapada das Necessidades e pretende dar continuidade a este trabalho de descoberta e valorização dos espaços verdes de Lisboa, promovendo novas ações de formação, sensibilização e educação ambiental em jardins e parques da cidade.
Estas iniciativas que se relacionam com os eixos da ENEA 2030, da Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e Biodiversidade 2030, do Referencial de Educação Ambiental para a Sustentabilidade e do Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória procuram proporcionar novas oportunidades de contacto com a natureza, conhecendo a biodiversidade e a geodiversidade urbana e demonstrando aos professores e cidadãos as potencialidades destes espaços enquanto locais de aprendizagem, conservação, lazer e participação.
A próxima iniciativa que conta também com o apoio da EPAL decorrerá no dia 7 de novembro, no Parque Florestal de Monsanto, com a ação “Por Trilhos no Parque Florestal de Monsanto”. Participem e estejam atentos à nossa newsletter e agenda do site…
Conhecer é o primeiro passo para valorizar — e valorizar é essencial para conservar.
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