“Numa palavra: intensa.” É desta forma que Jade Gava descreve a experiência de acompanhar o trabalho desenvolvido em Portugal para a conservação do abutre-preto (Aegypius monachus). Estudante de Medicina Veterinária na École Nationale Vétérinaire de Toulouse (ENVT), em França, Jade encontra-se a concluir a segunda de três estadias de investigação em Portugal, desenvolvidas em colaboração com a LPN no contexto do projeto LIFE Aegypius Return.
A colaboração começou em janeiro de 2025, durante uma primeira estadia em Portugal. O contacto com as equipas e com o trabalho desenvolvido no terreno abriu caminho à possibilidade de aprofundar esta experiência no âmbito da sua formação académica, sob supervisão de David Delgado Rodríguez, médico veterinário e membro da equipa LPN, e do seu orientador interno em França. O regresso a Portugal permitiu agora não só avançar com a recolha de dados, mas também voltar a trabalhar diretamente com as equipas envolvidas no projeto, discutir objetivos e consolidar a investigação que Jade continuará a desenvolver em França ao longo do próximo ano letivo.
Do indivíduo à população
O trabalho está enquadrado na área da Medicina da Conservação e segue uma abordagem One Health (ou “Uma Só Saúde”), que reconhece a estreita relação entre a saúde humana, a saúde animal e a saúde dos ecossistemas.
Durante as suas estadias, Jade tem acompanhado diferentes atividades realizadas pelas equipas no terreno, incluindo ações de captura e marcação de abutres e a recolha de amostras biológicas para acompanhamento sanitário. São jornadas exigentes, frequentemente iniciadas nas primeiras horas da manhã e realizadas em locais de difícil acesso, que requerem uma estreita articulação entre as equipas responsáveis pela monitorização da reprodução, os técnicos autorizados para a captura e marcação das aves e os profissionais envolvidos na avaliação do seu estado de saúde.
É precisamente esta componente que Jade destaca entre os momentos mais marcantes da experiência. “Se tivesse de destacar uma [atividade], escolheria os dias dedicados à marcação dos abutres”, explica. Para a estudante, estes momentos permitem participar diretamente nas ações de conservação e, simultaneamente, recuperar uma dimensão essencial da prática veterinária: o acompanhamento individual de cada animal.
Durante estas ações, participou no exame clínico dos abutres capturados, uma experiência que lhe permitiu observar na prática como a avaliação de um indivíduo pode contribuir para compreender e acompanhar uma população inteira. “É precisamente esta visão da medicina veterinária aplicada à conservação – do indivíduo à população – que mais me motiva e na qual gostaria de desenvolver a minha carreira no futuro”, afirma.
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O que comem os abutres-pretos?
Uma parte importante da investigação desenvolvida por Jade acontece, porém, longe das aves. Durante o estágio, a estudante tem trabalhado sobre as egagrópilas – material regurgitado pelas aves que contém restos não digeridos da sua alimentação – e outros restos alimentares recolhidos nos ninhos das colónias reprodutoras portuguesas. Através da sua análise, é possível identificar as espécies animais que integram a dieta dos abutres-pretos, aprofundar o conhecimento sobre o seu espectro alimentar da espécie e analisar a sua relação com os recursos disponíveis no território.
Este segundo estágio permitiu precisamente reunir os dados necessários para esta componente da investigação, que serão posteriormente analisados em França. O conhecimento produzido poderá contribuir para compreender melhor não apenas a ecologia alimentar do abutre-preto, mas também algumas das questões sanitárias associadas à alimentação de aves necrófagas.
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Conservação, saúde animal e saúde pública
O trabalho desenvolvido procura também contribuir para um novo sistema de controlo sanitário aplicado às Áreas de Alimentação para Aves Necrófagas. Estas áreas desempenham um papel determinante na disponibilização de alimento para espécies necrófagas, mas a sua gestão implica ter em consideração diferentes dimensões sanitárias. A investigação procura, por isso, integrar riscos zoonóticos e biossanitários, bem como questões relacionadas com a utilização e gestão de subprodutos animais.
É aqui que a abordagem One Health ganha particular relevância ao integrar a biologia e ecologia do abutre-preto com os vários elementos que estão presentes no ecossistema, como a fauna selvagem, os animais domésticos, os sistemas de produção e a saúde pública. Para Jade, esta articulação entre medicina veterinária e conservação é também uma possível escolha de futuro. “A conservação da natureza é uma área em que gostaria de trabalhar”, explica, considerando “um verdadeiro privilégio” poder participar num projeto pelo qual sente uma forte motivação.
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Formar futuros profissionais da conservação
Para além dos resultados científicos, a estadia em Portugal tem permitido a Jade conhecer de perto o funcionamento de um projeto de conservação e trabalhar diariamente com as equipas que acompanham a recuperação do abutre-preto no país.
“A equipa da LPN é extremamente acolhedora e integrou-me muito rapidamente”, destaca. Apesar de alguns pequenos desafios associados à língua, a estudante salienta a disponibilidade da equipa e a importância do diálogo para ultrapassar essas barreiras.
O contacto direto com o terreno é outra das dimensões que mais valoriza. Os dias de trabalho em plena natureza, entre deslocações, acompanhamento das aves e recolha de dados, proporcionam aquilo que descreve como um verdadeiro “espírito de aventura”, aliado à possibilidade de participar diretamente em ações concretas de conservação.
Ao acolher estudantes e jovens profissionais e ao proporcionar o contacto direto com projetos de conservação no terreno, a LPN e o LIFE Aegypius Return contribuem também para a formação de uma nova geração de profissionais capazes de trabalhar na interface entre biodiversidade, medicina da conservação e a saúde da vida selvagem.
Uma ligação que, no caso de Jade, poderá prolongar-se muito para além destas estadias em Portugal: “É sempre um enorme prazer voltar a encontrá-los e trabalhar com eles no terreno.”
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