Do Jardim Tropical de Lisboa aos Geomonumentos

Conhecer o Jardim Botânico Tropical de Lisboa (JBT), efetuar percursos didáticos de geodiversidade e biodiversidade urbana, sensibilizando os professores para a utilização desses espaços urbanos como local de estudo e de construção de recursos didáticos foi o objetivo desta ação de formação.

 

Esperando-nos logo à entrada do Jardim Tropical., estava César Garcia, coordenador dos jardins do Museu de História Natural e Ciência de Lisboa, que nos iria orientar para mais uma ação que evidencia a importância da abordagem da biodiversidade urbana e da observação direta como estratégia de ensino e de aprendizagem.

 

Dr. César Garcia coordenador dos Jardins do Museu de História Natural e Ciência apresentando o Jardim Botânico Tropical aos participantes.

 

 

 

E assim partimos à descoberta do oásis de forte vocação didática com mais de um século de idade. Situado na zona monumental de Belém, outrora um espaço de quintas e casas de recreio da nobreza portuguesa dos séculos XVI a XVII, o Jardim Tropical foi criado em 1906 por Decreto Régio. Com cerca de 600 espécies, na maioria tropicais e subtropicais (grande parte originária das então colónias) constitui um centro de documentação vivo com muitas espécies de valor ornamental e agrícola.

 

Ao longo da visita César Garcia ia-nos explicando algumas peculiaridades das várias espécies da flora, sendo que algumas se destacavam pelo seu porte, como por exemplo as Araucárias ou as Cycas - plantas dioicas (cada indivíduo só tem órgãos masculinos ou femininos) com folhas semelhantes às palmeiras que bordejam o lago conhecidas desde o Triásicoe que apresentam as flores femininas mais primitivas. Percorrendo a alameda que nos conduzia aos caminhos dos trópicos, rodeados de Palmeiras (Washigtonia robusta e filífera) visitavam-se espécies de todos os continentes, passando pelas autóctones europeias, como a palmeira das vassouras (Chamaerops humilis) ou o folhado (Viburnum tinuas) e observando-se problemas específicos, como por exemplo, o problema das espécies invasoras. A praga da vespa asiática (Vespa velutina) com alguns ninhos instalados na copa das árvores ou o escaravelho das palmeiras que coloca em risco várias plantas suscetíveis, em particular a espécie Phoenix canariensis (Palmeira das Canárias) mas também outras espécies de palmeiras são situações que têm vindo a ser intervencionadas no Jardim Tropical.

 

E íamo-nos transportando para habitats e ambientes muito diferentes da cidade ao observar o Pinheiro de S. Tomé - (Afrocarpus mannii (Hook. f.) C. N. Page, árvore conífera endémica, de grande estatuto de conservação (só existe em S. Tomé de Príncipe entre os 1200m e 2024m de altitude com folhas completamente diferentes das usais agulhas dos pinheiros) ou constatar a Ecologia ao vivo através da competição entre uma árvore imponente de crescimento rápido, a Figueira da Índia- Ficus macrophylla e o Sicómoro, árvore com diversas referências na Bíblia.

 

 

Da esquerda para a direita:  Figueira da Austrália (Ficus macrophylla);  Sicómoro (Ficus sycomorus).

 

 

"Mais do que um jardim é um laboratório de investigação de plantas", resume César Garcia enquanto nos mostrava o fruto da Orelha de macaco (Enterobium contortisiliquum, árvore nativa do Brasil com um formato recurvado que lembra uma orelha.

 

Fruto da orelha de macaco – Enterobium contortisiliquum

 

 

 

 

Após a visita a este espaço de aula ao vivo, onde pudemos contactar com as mais variadas espécies tropicais, após o almoço iniciámos o percurso com a orientação do Jorge Sequeira, técnico do LNEG para descodificarmos a geodiversidade nas ruas e geomonumentos de Lisboa.

 

A Conservação do património natural engloba os geomonumentos e embora o ambiente urbano por vezes oculte os afloramentos geológicos existem vários geomonumentos em Lisboa inventariados, entre os quais os Geomonumentos do Rio Seco e o da Aliança Operária, interligando as geociências com a história da cidade, com a sua dimensão urbanística, artística, social e económica.

 

 

 

Após a explicação da Geologia de Lisboa, em direção ao Geomonumento do Rio Seco, íamos observando as rochas ornamentais constituintes dos monumentos e ruas de Lisboa – os calcários do Cretácico Superior, com fósseis de rudistas (grupo de bivalves extintos), existentes, por exemplo, na Igreja da Memória e nas fachadas dos edifícios. Das rochas, dos seus fósseis se traduziam os paleoambientes, transportando-nos para a época dos dinossauros, evidenciando um ambiente recifal, de águas marinhas quentes, tropicais, pouco profundas.

 

Também das rochas se fazia cultura efetuando-se uma breve descrição histórica pelo professor destacado na LPN - Jorge Fernandes em que a ligação da história e arquitetura do local à Geologia era inevitável. Após termos visitado a Igreja da Memória edificada por D. José I grato por  se ter salvo de uma tentativa de assassínio, dois anos antes em 1758 e onde está sepultado o Marquês de Pombal passando pelo Palácio Nacional da Ajuda que substituiu a Real Barraca assim chamada por ser feita de madeira e onde se instalou D. José I após o terramoto de 1755.

Com a orientação do Jorge Sequeira, a cidade de Lisboa mostrava-se com “um outro olhar”, os “olhos do conhecimento” que nos permitem sentirmo-nos mais envolvidos por esta cidade fascinante, de grande riqueza histórica e cultural e em particular na sua zona ocidental.

 

 

Geomonumento do Rio Seco – Calcários da Formação da Bica – Cenomaniano Superior.

 

 

 

No Geomonumento do Rio Seco, antiga pedreira, é possível interpretar-se fenómenos de avanço do nível do mar (transgressão), observando-se antigos fornos de cal e nódulos de sílex usado como matéria prima para o fabrico de armas, utensílios e pederneira.

 

 

Geomonumento do Rio Seco – Cenomaniano – Cretácico Superior. Nódulo de sílex.

 


Continuando o nosso percurso pelas ruas de Lisboa, de repente testemunhámos episódios de vulcanismo em Lisboa, observando-se a disjunção prismática nos basaltos através do Geomonumento da Aliança Operária.


Através do repositório dinâmico natural e cultural das freguesias da Ajuda e Alcântara íamos caminhando até que chegámos ao nosso destino final a Capela de Santo Amaro, classificada como monumento nacional e rodeada por quatro oliveiras, árvores de Interesse Público, classificadas em 2008, árvores das mais antigas da cidade e que partilham a história da capela fundada em 1542 e que contém no seu interior magníficos azulejos datados do final do século XVI.  


Localizado junto à Capela de Santo Amaro, o miradouro de Santo Amaro apresenta uma panorâmica privilegiada para o rio Tejo e a ponte 25 de abril. Não poderia ser um contexto melhor para que o Jorge Sequeira caraterizasse a Geologia de Lisboa.
O passado e o presente caminharam lado a lado em espaços vivos de reconhecimento pela necessidade que temos em preservar os nosso testemunhos e valores naturais e culturais.


Moldada pela geodiversidade e pela biodiversidade, a história e cultura de Lisboa, os valores naturais e culturais só podem ser conservados por quem conhecer e se envolver. A educação é fundamental e essa é uma das missões da LPN – conhecer para proteger e valorizar.

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