Ecopoesia, História e Biogeodiversidade

No mês de março, a LPN através do seu Centro de Formação Ambiental organizou uma ação de formação para professores, no Palácio Marquês de Pombal e Jardins, que constituem um dos conjuntos patrimoniais mais notáveis do concelho de Oeiras, classificado como monumento nacional e uma das obras mais representativas da arte dos jardins em Portugal.

 

Ponto de referência do concelho de Oeiras e do País, o Palácio e Jardins liga-se, incontornavelmente, à figura do Marquês de Pombal, que aplicou os seus desejos, não só para criar espaços de recreio e de lazer da casa de campo, mas também de criação de uma quinta de produção de modo sustentável.

 

Esse local reunia as caraterísticas necessárias para nos transportar para um saber ambiental, que expressa o ser no tempo, o conhecer na história, reforçando a nossa identidade e relação com a natureza.

 

O percurso efetuado contou com a dinamização do Paulo Loução e Sara Santos da Nova Acrópole-Oeiras-Cascais, Ana Fortunato do ITQB – Instituto de Tecnologia Química e Biológica António Xavier e, teve o início na entrada do palácio erigido no início do século XVIII, em pleno período barroco, por Paulo de Carvalho e Ataíde, tio paterno de Marquês de Pombal, que lhe deixou em herança o morgadio, no qual o estadista viria a transformar na Quinta de Oeiras.

 

Para se compreender aquilo que pisávamos, as relações desse substrato com o quotidiano, e com os materiais utilizados nas edificações, efetuou-se uma introdução acerca da Geologia da região pelo professor destacado na LPN, Jorge Fernandes, complementando-se de seguida, com as explicações sobre a História e os motivos Mitológicos que se expressam no local, por Paulo Loução.

 

 

No átrio do palácio de Marquês de Pombal.

 

 

 

No interior do palácio de notável arquitetura, as pinturas e esculturas de Joaquim Machado de Castro transportavam-nos para a vivência da época, bem como os admiráveis revestimentos de azulejos, nas salas, escadarias e terraços com temas profanos e religiosos.

 

Ao percorremos as diversas salas do palácio orientados por Paulo Loução, uma delas se destacou pela sua singularidade, com as paredes de cor castanha e de cobre.  Trata-se da sala da Concórdia, onde no teto se revela uma pintura atribuída a Joana de Salitre e onde estão representados o Marquês de Pombal e dois dos seus irmãos, numa união plena de fraternidade pelo facto de os irmãos se abraçarem de forma entrelaçada.

 

Nessa sala cheia de simbolismo, a "Concordia" entre irmãos está perfeitamente refletida e documentada num acordo para gestão e manutenção da quinta. Este acordo visava fortalecer o vínculo entre irmãos, permitindo a manutenção da mesma unida. Mas também, o poder infinito, com os três a representar a sociedade da altura: clero, nobreza e exército.

 

 

Foto (DGPC)

 

 

 

Ao sairmos do palácio, nos jardins adjacentes nota-se uma procura ecológica da paisagem, através da criação de um ambiente aparentemente espontâneo e de ideias que evocam a natureza. Em frente ao palácio, duas árvores majestosas – Araucárias de Norfolk – Araucaria heterophilla, constituem um elemento cénico destacado, como se fossem sentinelas zeladoras de um espaço de arte e dos belos jardins.

 

Descendo a escadaria antiga do terraço das Araucárias com várias estátuas e ornamentos, os formadores iam ligando a História e o simbolismo mitológico dos azulejos com a ecologia do local, conjugando-se com os aromas dos pomares de citrinos, flores e plantas. Junto às Araucárias, Ana Fortunato descrevia as caraterísticas das Araucárias, árvores originárias das ilhas Norfolk (Austrália) e da América meridional, de grande longevidade, que têm muita história para contar e que podem atingir cerca de 70 metros. A espécie é conhecida como um fóssil vivo, existindo desde o Mesozoico (ou seja, há uns 251 milhões de anos).

 

Como curiosidade, essas árvores são geralmente dioicas (dentro da mesma espécie há árvores que só dão frutos masculinos e outras que só dão frutos femininos) até que em 1878, Júlio Henriques, diretor do jardim Botânico de Coimbra verificou que existiam exemplares plantados que tinham os dois sexos (frutos masculinos e femininos na mesma árvore). Atualmente, existem dúvidas “quanto ao sexo” desta árvore, pois embora a maioria dos exemplares seja dióica, dentro da mesma espécie pode haver exemplares monóicos, sendo que alguns autores consideram, ainda que, a mesma árvore pode mudar de sexo ao longo da vida. (Diário de Coimbra, 2013).

 

 

Ana Fortunato descrevendo algumas caraterísticas das plantas.

 

 

 

 Envoltos de uma clara relação entre natureza, arte, história, e ecopoesia, Sara Santos, da Nova Acrópole recitava alguns poemas inspiradores, construindo-se pontes de conhecimento que atravessavam o elemento água com as suas fontes e cascatas.

 

 

Recital de poesia por Sara Santos junto à fonte dos Embrechados.

 

 

Fontes // Sophia de Mello Breyner

Um dia quebrarei todas as pontes

Que ligam o meu ser, vivo e total,

À agitação do mundo do irreal,

E calma subirei até às fontes.

 

Irei até às fontes onde mora

A plenitude, o límpido esplendor

Que me foi prometido em cada hora,

E na face incompleta do amor

 

Irei beber a luz e o amanhecer,

Irei beber a voz dessa promessa

Que às vezes como um voo me atravessa

E nela cumprirei todo o meu ser.

 

 

 

Guiados por Paulo Loução, os participantes atravessavam a margem direita da Ribeira da Lage, visualizando um cais que testemunha a transformação da ribeira num canal navegável dentro dos limites da Quinta do Marquês de Pombal. Na foz da Ribeira da Lage construiu-se um porto, que para além de outras funções, servia para transportar os produtos agrícolas produzidos em grandes quantidades na Quinta de Oeiras (exemplo - Vinho, azeite).

 

 

Paulo Loução descrevendo a simbologia da fonte dos Embrechados inpirado nos mosaicos romanos.

 

 

 

Junto à ponte, o professor destacado da LPN, salientou a necessidade de um planeamento dos ecossistemas e um ordenamento do território que tenha em conta uma ocupação do solo sustentável nas bacias hidrográficas. A evolução do traçado da Ribeira da Lage e as crescentes urbanizações, impermeabilizando os solos, bem como a destruição da galeria ripícola, levaram, no passado a eventos de cheias com perdas humanas, materiais, patrimoniais e de biodiversidade (novembro de 1983).

 

Rodeados de vegetação de arbustos, o Palácio e Jardins, –  como o Folhado - Viburnum tinus, Sanguinho-das sebes – Rhamnus alaternus e de algumas árvores com destaque para a quantidade de Choupos brancos –Populus alba, Alfenheiro do Japão - Ligustrum lucidum e Freixo- Comum – Fraxinus angustifólia, entre outras, salientava-se a necessidade de se preservar a vegetação autóctone e o risco ambiental decorrente da proliferação no território de espécies invasoras.

 

 

 

 

 

Nos jardins, as cascatas e fontes são elementos predominantes, porém, na data da ação havia pouca água no leito da ribeira derivado da seca que assolava o país. Mais adiante, em frente, à escadaria das Araucárias, avista-se a Gruta Nobre ou Cascata dos Poetas,  mas na altura, não foi possível a sua melhor visualização por estar em obras,  Paulo Loução mencionou que “…No centro da Cascata dos Poetas surge um gigante aquático, figura alegórica ao rio Tejo, encimada pelos bustos de Homero, Virgílio, Tasso e Camões, do cinzel do escultor Machado de Castro…”.

 

Caminhando nesta viagem interdisciplinar pelos jardins em direção à Casa da Pesca, passámos pela horta ajardinada e a Fonte das Quatro Estações, uma bela escultura onde à sua volta existe um parterre de água de linhas modernistas, uma criação de Gonçalo Ribeiro Teles, quando os jardins foram alvo nos anos 60, de uma intervenção da sua autoria.

 

 

Fonte das Quatro Estações

 

 

Após a visita à designada Quinta de Baixo onde eram as instalações da adega, celeiro e lagar de azeite, passando pelas instalações atuais da Nova Acrópole de Oeiras-Cascais, fomos rumo em direção á Quinta de Cima, onde se fazia a produção dos Bichos-da-seda e onde se localizava a Casa da Pesca.

 

A Casa da Pesca está atualmente inserida na Estação Agronómica Nacional e pelo caminho, observou-se diversas plantações de espécies autóctones, como a murta, o azevinho, freixos e diversas plantas aromáticas. Chegados à Casa da Pesca, avistamos um local magnífico, aonde o Marquês se dirigia a cavalo ou de carruagem, para ir pescar num tanque.

 

Neste local utilizado como recreio pelo Marques, embora não esteja em funcionamento, insere-se, provavelmente, a maior cascata barroca portuguesa – a cascata da pesca, com árvores frondosas a rodeá-la e lindos painéis de azulejos alusivos à ilha mítica dos Amores descrita por Luís de Camões, numa triologia única da água – pesca, mina de ouro e poetas.

 

Para aumentar a riqueza cénica e intimista, fomos ainda presenteados por Sara Santos, com um mais um recital de poesia, reconstituindo-se ainda mais, o romantismo do local.

 

 

Casa da Pesca – recital de poesia por Sara Santos.

 

A visita aos Jardins do Marquês de Pombal, quando nos envolvemos na harmonia do local dando-nos a conhecer a sua biogeodiversidade, o seu elevado valor patrimonial, histórico, e artístico pensamos que contribuirá para nos conectar ao Mundo de forma mais responsável.

É essa a mensagem que pretendemos levar, por forma a estimular os professores a promoverem aulas ao ar livre com os seus aluno,  pretende-se proporcionar recursos úteis, diversificados, construir “pontes” entre as diferentes áreas de conhecimento, para que se possam realizar atividades e saídas de campo, como por exemplo, nos Jardins do Marquês de Pombal.

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