Em busca das orquídeas selvagens e dos algares improváveis

Legenda da fotografia de topo: Enquadramento Geológico da região antes do início da caminhada efetuado por Rui Baptista professor do Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências de Lisboa e colaborador - membro do Centro de Estudos e Actividades Especiais da LPN.

 

 

O Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC) incluído no Maciço Calcário Mesozóico (MCE) exerce uma atração magnética para os amantes da natureza e em especial para os geólogos. No “Reino da Pedra”, contando com 76 geossítios, ali se apresentam as mais significativas grutas que cruzam o interior do maciço, bem como as mais extensas e importantes formações cársicas do país revestidas por plantas que crescem espontâneas no Parque e nos envolvem num mundo de aromas.


Calculamos que para os espeleólogos do CEAE – LPN descer ao mundo subterrâneo de algares e grutas  seja uma aventura entusiasmante de descoberta única ao apreciar-se de uma profusão de espeleotemas onde se abrigam uma infinidade de seres vivos, de que se destacam dez espécies de morcegos.


Numa luminosa manhã de maio, no início de mais uma saída de campo, um rabirruivo (Phoenicurus ochruros) espreitava-nos do topo do telhado em frente à sede da LPN, seguidamente, quando entramos no jardim da LPN somos surpreendidos com a silhueta de uma ave que não é comum de se observar, o Goraz (Nycticorax nycticorax), uma ave com estatuto de conservação em Portugal – em perigo poisado num freixo-de-folha-estreita (Fraxinus angustifolia).

 

Goraz (Nycticorax nycticorax) – num freixo-de-folha-estreita (Fraxinus angustifolia) no jardim da LPN. Fotografia de Cristina Girão.

 

 

Este já eram tópicos premonitórios para uma saída agradável e excelente. E lá partimos no autocarro rumo à parte o norte do planalto de Santo António onde iríamos caminhar um pouco pelos calcários do Jurássico orientados pelos técnicos do CEAE -Centro de Estudos e Atividades Especiais da LPN. No trajeto do autocarro Raul Pedro e Jorge Fernandes iam descrevendo algumas particularidades do trajeto, bem como o enquadramento geológico e ambiental do MCE, mencionando-se por exemplo questões problemáticas como sejam a exploração das pedreiras de calcários ou a sensibilidade dos aquíferos.


O MCE era definido quando avistávamos a imponente escarpa de falha de Arrifes, falha inversa que margina o Maciço e que faz a transição entre as formações calcárias do Jurássico Médio e Superior sobre os sedimentos Cretácicos e Terciários da Bacia do Baixo Tejo. Chegando ao destino do início da caminhada, Rui Baptista, professor do Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências de Lisboa e antigo membro do CEAE-LPN munido com a Carta Geológica explicou a Geologia do MCE no contexto da evolução da Bacia Lusitaniana, uma unidade geomorfológica que se individualiza pelas suas peculiaridades de âmbito litoestratigráfico e tectónico. A unidade geomorfológica estava delimitada a oeste e na direção NNE, pela Falha da Mendiga e pela depressão de Alvados associadas ao sistema de falhas de Alvados no sentido NO-SE.
Caminhando pela paisagem bucólica em direção ao Algar improvável e geossítio do Algar do Ladoeiro, a natureza parece que nos lançava de aromas penetrantes e envolventes convidando-nos a aprofundar a nossa expedição. Pelo caminho íamos encontrando diversas plantas aromáticas e medicinais, como por exemplo a Rosa Albardeira (Paeonia broteroi), planta que apresenta uma flor muito bonita, exclusiva da Península Ibérica e que tem propriedades antiespamódicas e sedativas.

 

 

 

Há belas flores na Natureza, caso da rosa-albardeira (Paeonia broteri) que além disso, é usada na farmacopeia (as plantas tóxicas são a base de muitos medicamentos!) à esquerda a flor e à direita os frutos muito pilosos. Na mitologia grega Paeon, foi um médico que curou muitos feridos na guerra de Tróia e que, em agradecimento, foi transformado nesta bela flor. Texto e Fotografia de Cristina Girão.

 

 

De súbito, damo-nos conta com muitas orquídeas de diferentes espécies.

 

 

Descoberta de orquídeas selvagens – Orientação do Eduardo Marabuto investigador no Centro de Biologia Ambiental da Faculdade de Ciência de Lisboa. Fotografia do CEAE-LPN.

 

 

Nessa altura, as lentes atentas dos fotógrafos participantes ofereciam novas perspetivas sobre a flora, tendo-se identificado só ao longo do percurso por Eduardo Marabuto, investigador no Centro de Biologia Ambiental da Faculdade de Ciência de Lisboa cerca de 12 espécies diferentes, e deslindando-se a sua natureza e fascínio. A Cristina Girão com a sua boa disposição ia-nos alertando - Cuidado não pisem as orquídeas selvagens! Quem anda pelo campo, convém ver onde põe os pés para assim apreciar estas pequenas maravilhas!

 

 

Satirião-menor (Anacamptis pyramidalis). Fotografia de Cristina Girão.

 

 

Feito o aviso e pelo meio com algumas piadas científicas e não só caminhávamos junto a muros de pedra que delimitam pastagens e olivais numa grande riqueza de biótopos até chegarmos a um topo onde na verdade se encontrava repleto de cavidades – algumas minúsculas, outras de inesperada monumentalidade. Aí, ao redor deparávamo-nos com uma vista inigualável da paisagem circundante e tinha-se de estar atento para onde se colocava os pés, pois que de repente, no meio da vegetação, pequenos orifícios davam lugares a cavidades profundas.


Chegados a esse topo, os técnicos do CEAE-LPN estavam à nossa espera para efetuar uma descida ao Algar Improvável e explicarem as vicissitudes da sua aventura. Encontrávamo-nos a uma cota ligeiramente acima dos 500 metros e o horizonte abre-se à nossa frente (Sul) abrangendo uma ampla área do Planalto de Santo António. Aos nossos pés, o lajedo fraturado desta zona dispunha-se em bancadas ligeiramente inclinadas para Sul como se fossem os ressaltos dos degraus da "bancada central" de um imenso "anfiteatro".


Foi num dos orifícios onde saía uma forte corrente de ar, que em abril de 2016 numa sessão de prospeção os espeleólogos do CEAE- LPN descobriram um algar com uma localização próxima do conhecido Algar do Ladoeiro. O Algar Improvável resultou da desobstrução de uma aparente toca de rato do campo onde se detetou a emanação de uma corrente de ar e que de repente se estendeu-se a uma profundidade de 155 metros apresentando em profundidade espaços de volumetria considerável. A aventura da sua descoberta pode ser vista num vídeo que o CEAE-LPN disponibiliza no site em https://www.lpn-espeleo.org/ com um enquadramento e descrição detalhada do local.

 

 

Algar improvável. Raul Pedro do CEAE-LPN em ação, explicando o enquadramento do Algar Improvável. Fotografia do CEAE-LPN.

 

 

Algar Improvável. Elementos do CEAE-LPN em demonstração.

 

 

Uma das melhores referências para a sua localização é estar relativamente próximo do conhecidíssimo Algar do Ladoeiro, que é uma das cavidades mais importantes do PNSAC, e considerado um Geossítio, dos 76 Geosítios existentes no PNSAC. Este algar é uma das maiores bocas de cavidade no Maciço Calcário Estremenho (MCE) originando um contraste entre estas duas entradas bastante expressivo. O algar do Ladoeiro tem uma impressionante entrada de mais de 20 metros de diâmetro e onde avista-se o contacto do planalto de santo António com a bacia Terciária do Tejo estando instalado com abundante vegetação junto ao lajedo de calcário cujas bancadas do Jurássico Médio se inclinam para sul.

 

 

Algar Improvável. Elementos do CEAE-LPN em demonstração.

 

 

As referências históricas deste algar reportam a sua importância espeleológica desde as primeiras décadas do século XX. Depois da visita ao Algar do Ladoeiro e de atravessarmos a zona do planalto iniciámos a descida do Patelo pelo Vale do Canada. Ao fundo, a imponente silhueta do Castelejo, uma das mais impressionantes escarpas de falha do MCE.

 

 

Vales do Patelo e da Canada. Fotografia do CEAE-LPN.

 

 

Já com o sol a ficar mais quente na primavera do PNSAC os múltiplos odores espelham-se pelos campos, de asas abertas para capitalizarem a energia as borboletas ainda meio entorpecidas iam sendo “capturadas e libertadas” pelo Eduardo Marabuto que as ia identificando, descrevendo-as aos participantes. Só na caminhada identificaram-se cerca de 22 espécies de lepidópteros que “dançam” naquele “salão” que constituiu os sete quilómetros da nossa caminhada.

 

 

“Quem vem à rede neste caso são borboletas”. Identificação e enquadramento de lepidópteros  efetuada por Eduardo Marabuto.

 

 

 

Identificação e enquadramento de lepidópteros efetuada por Eduardo Marabuto. Algumas rochas faziam percursos a direito, outras curvavam, retorcidas e desgastadas no qual  o controlo tectónico e a erosão eram por de mais evidentes. Chegados ao Vale da Canada (vale de origem flúvio-cársica) fizemos uma paragem para almoço e recuperarmos as energias a caminho do orçário.

 

 

Caminho para o Orçário. Fotografia de Eduardo Marabuto.

 

 

Na descida para Alvados após uma explicação da Geologia pelo Rui Baptista e Raul Pedro prosseguimos a caminhada até de repente surgir uma paisagem completamente distinta da anterior, um núcleo importante de carvalhal constituído essencialmente por Carvalho-português (Quercus faginea). Parecia que tínhamos passado do reino da geodiversidade para o da biodiversidade através de uma alfândega natural.

 

 

Carvalhal do Orçário. Fotografia do CEAE-LPN.

 

 

Caminhando pela sua exuberância de vida proporcionada por estas árvores num percurso cheio de líquenes e briófitas chegávamos ao nosso destino final na povoação de Alvados onde o autocarro nos esperava para mais uma odisseia pelo PNSAC. A paragem seguinte era a visita ao Carsoscópio – Centro de Ciência Viva do Alviela junto à nascente dos Olhos d'Água do Alviela um espaço de divulgação científica e tecnológico integrado na Rede de Centros de Ciência Viva desenvolvido com o objetivo de valorizar o imenso património natural da nascente do rio Alviela e zona envolvente. Apesar da ausência de cursos de água superficiais organizados no PNSAC, eles existem em abundância no subsolo constituindo por exemplo o complexo da nascente do Alviela. A nascente do Alviela é um dos mais importantes fenómenos da hidrogeologia, emitindo caudais anuais que rondam os 120 milhões de metros cúbicos, chegando a debitar um milhão e meio num só dia e que fornecia água a Lisboa desde 1880.


Na visita tivemos ainda a possibilidade de assistirmos à Inauguração da exposição de ilustração, Naturia Secreta, de Luísa Ferreira Nunes, que reúne 22 ilustrações de coleópteros, conhecidos por insetos-jóia, oriundos de diversos locais do mundo. Pela estética das suas formas, texturas e cores, estes insetos exóticos são muito procurados por colecionadores, estando alguns quase extintos. Nessa exposição celebrava-se um dos mais diversos grupos de organismos do planeta - os insetos, falando da sua ecologia e estatuto de conservação. A exposição pretendia chamar a atenção do público para o tráfico de espécies ameaçadas, o 3º maior negócio ilegal a seguir ao tráfico de armas e droga.

 

 

Centro de Ciência Viva do Alviela. Carsoscópio– exposição de coleópteros de Luísa Ferreira Nunes. Fotografia de Elsa Florêncio.

 

 

Após a visita ao Carsoscópio fomos à descoberta de vestígios de atividade dos dinossauros na Jazida de pegadas de Vale dos Meios localizada a sudeste do planalto de Santo António. No caminho abundavam pedreiras até encontrarmos a Jazida do Jurássico Médio posta em evidência durante os trabalhos de exploração de 3 pedreiras de pedra de calçada. Ali deparamo-nos com centenas de pegadas de terópodes com um excelente estado de preservação e duas pistas de saurópodes. O professor Octávio Mateus da FCT/UNL através da sua apresentação/explicação pôs-nos a imaginar de como seria o ambiente da altura, um ambiente inundado e lamacento de laguna confinada, durante a maré baixa bem como o comportamento social dos grandes carnívoros que sugere haver um grupo a dirigir-se em direção à água com algum propósito e outros no sentido contrário. Os contornos nítidos das pegadas permitem conhecer a morfologia dos pés dos animais e aspetos da sua anatomia. Trata-se da maior e mais significativa jazida de pegadas de terópodes do Jurássico Médio da Península Ibérica e uma das maiores a nível mundial não obstante da sua relevância, este Geossítio não apresenta qualquer painel informativo e está sujeito à delapidação. É um dos inúmeros exemplos da incúria e da falta de valorização do património geológico ao nível da administração pública apesar do inventário estar efetuado e estar sublinhado a importância da sua conservação e valorização na Estratégia Nacional da Conservação da Natureza e da Biodiversidade 2030.

 

 

Jazida de Vale dos Meios. Orientação pelo professor Octávio Mateus do departamento de Ciências da Terra da FCT-Universidade Nova de Lisboa. Fotografiade Elsa Florêncio.

 

 

Jazida de Vale dos Meios. Ftografia de Cristina Girão.

 

 


E já o sol se tinha posto quando chegámos ao nosso ponto de partida junto à sede da LPN na certeza que não esqueceremos esta saída que teve uma intensidade de temas e ao mesmo tempo de contemplação na natureza que decerto a relembraremos e que no caso dos professores poderá constituir uma fonte de enriquecimento para potenciais s saídas de campo a realizar com os seus alunos.

 

 

 

 

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