Em Moura, num esforço pela recuperação do coelho-bravo

Decorreu em maio a primeira etapa de uma série de capturas e translocações de coelho-bravo desde a Central Fotovoltaica de Amareleja até à herdade da Contenda, no município de Moura.

 

A viagem foi curta, de cerca de 30 km, mas planeada durante vários meses e envolvendo diversas entidades. A captura e translocação na natureza de exemplares de uma espécie que está hoje Em Perigo de extinção, assim o exige.

 

A área ocupada pela Central Fotovoltaica de Amareleja, a maior central fotovoltaica do mundo à data da sua construção (2008), correspondia outrora a terrenos de pastagens, alguns com árvores dispersas, olivais e culturas de sequeiro.

 

A instalação de comunidades de herbáceas e a presença de outras condições adequadas ao coelho-bravo, favoreceu a colonização do espaço por esta espécie herbívora que, por sua vez, vai auxiliando no controlo da vegetação em redor dos painéis.

 

Por se tratar de um meio artificializado, ao longo dos anos a população local de coelho-bravo foi aumentando, atingindo números bastante acima da média para a região que, à semelhança do panorama ibérico, viu esta espécie-chave declinar, até quase desaparecer, devido a doenças virais.

 

Aliando uma necessidade de gestão a um fim de conservação da natureza, a empresa AMPER Central Solar, S.A., responsável pela Central Solar de Amareleja, e a Herdade da Contenda, E.M., com a autorização do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e o apoio local da Liga para a Protecção da Natureza, uniram esforços e promoveram uma ação de captura e translocação de coelhos-bravos para a herdade da Contenda, uma propriedade pública com mais de 5 mil hectares, gerida pelo município de Moura, e um exemplo nacional de conservação da natureza.

 

 

 

O coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus) é uma espécie-chave do ecossistema Mediterrânico, nomeadamente na Península Ibérica. Para além de modelador da paisagem, ao influenciar as comunidades vegetais, tem um papel essencial no fluxo de energia do ecossistema, sendo uma importante presa de pelo menos 39 espécies de predadores. Entre eles estão algumas espécies ameaçadas de extinção, como é o caso do lince-ibérico (Lynx pardinus), da águia-imperial-ibérica (Aquila adalberti), do abutre-preto (Aegypius monachus) ou da águia-de-Bonelli (Hieraaetus fasciatus).

 

Nesta primeira etapa foram capturados e depois libertados na herdade da Contenda mais de três dezenas de coelhos-bravos que, a médio prazo, se esperam assim vir a reforçar as populações locais. “A expectativa é bastante elevada, não só pela boa condição física dos animais capturados, como por se apresentarem perfeitamente adaptados ao clima deste território e à predação natural. Esperamos, por isso, uma percentagem de sobrevivência acima da média e, assim, um impacto importante nas populações locais de coelho-bravo da herdade da Contenda, hoje de densidade ainda muito reduzida.” Afirmou Pedro Rocha, diretor-executivo da Herdade da Contenda, E.M., e responsável pela coordenação desta ação.

 

Nos últimos 15 anos a herdade da Contenda, que é também Zona de Caça Nacional e um modelo na conciliação da atividade cinegética com a conservação e recuperação de espécies ameaçadas, reforçou o seu investimento na implementação de medidas dirigidas à promoção do coelho-bravo, com recursos próprios e ao abrigo de diferentes projetos e colaborações.

 

Entre estes, estão os projetos LIFE Lince Moura/Barrancos e LIFE Habitat Lince Abutre, ambos coordenados pela Liga para a Protecção da Natureza. Integrados na estratégia de conservação do lince-ibérico do Programa Lince da LPN, estes projetos permitiram a criação de cercados de proteção, moroiços, pastagens de leguminosas, comedouros e bebedouros para o coelho-bravo. Foi junto destes cercados que os animais translocados foram agora libertados.

 

Ao mesmo tempo que os trabalhadores da herdade da Contenda libertavam, um a um, os coelhos-bravos, decorriam um pouco mais a sul, em Almodôvar, as últimas libertações de linces-ibéricos desta época. “Posso dizer que o sentimento vivido num e no outro local, não foi certamente muito diferente. São trabalhos paralelos, ambos de grande importância. O esforço pela preservação e recuperação do lince-ibérico nestes territórios, onde outrora existiu, passa obrigatoriamente por este trabalho de bastidores, de gestão do habitat e da sua principal presa. Se tivermos sucesso, será uma questão de tempo até que de forma natural o lince-ibérico, que por aqui tem vagueado, se estabeleça novamente.” Comentou Rita Martins, do Programa Lince da LPN, que também acompanhou as capturas dos coelhos-bravos na central fotovoltaica e a sua libertação na herdade da Contenda.

 

A captura e translocação dos coelhos-bravos, articulada e autorizada pela Divisão de Recursos Cinegéticos e Aquícolas do Departamento de Gestão e Valorização da Floresta do ICNF, decorreu com recurso a furões devidamente registados para o efeito e a armadilhas, sempre sob acompanhamento e supervisão veterinária.

 

© David Delgado

 

 

 

A LPN convida-o a conhecer mais sobre a herdade da Contenda aqui e a visitar a sua exposição “Memórias sobre o Lince na Herdade da Contenda”, em exibição na escola primária de Santo Aleixo da Restauração, no município de Moura.

 

 

O declínio das populações de coelho-bravo

A introdução, por parte do Homem, de duas doenças infeciosas graves (mixomatose e doença hemorrágica viral) e o abandono das atividades agrícolas tradicionais, que proporcionavam alimento e abrigo a muitas espécies cinegéticas, levaram nas últimas décadas a um decréscimo de 90% das populações de coelho-bravo ibéricas. 

 

Por ser uma presa ‘base’ no ecossistema Mediterrânico, essa diminuição enfraqueceu a rede trófica de uma forma geral, ameaçando alterações profundas no ecossistema nativo. Apesar dos esforços desenvolvidos por entidades públicas e privadas, anualmente, tem-se assistido a uma diminuição média de 20% nas populações de coelho-bravo.

 

Outrora classificado como espécie Quase Ameaçada em Portugal (2005), em 2019 a União Internacional para a Conservação da Natureza reviu o estatuto do coelho-bravo, considerando-o Em Perigo de extinção nas suas áreas nativas, onde se inclui Portugal continental.

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