Entre grutas e nascentes: descobrir e interpretar a paisagem cársica

Uma viagem pelo património geológico, hidrogeológico e natural das serras de Aire e Candeeiros

 

Entre nascentes, vales cársicos, grutas e cursos de água que desaparecem no subsolo e que voltam a surgir à superfície, o Maciço Calcário Estremenho revelou-se como um verdadeiro laboratório natural para compreender a relação entre a geologia, a água e a biodiversidade. Ao longo de um dia de descoberta e aprendizagem no território, os participantes percorreram diferentes paisagens cársicas, observaram a flora e a fauna características desta região e contactaram com alguns dos seus mais importantes valores geológicos e hidrogeológicos. Uma viagem de campo que juntou ciência, interpretação da paisagem e educação ambiental, valorizando o conhecimento como ponto de partida para a conservação do património natural.

 

No dia 26 de setembro, o Centro de Formação da LPN realizou a ação de formação “Entre Grutas e Nascentes Cársicas: viagem pelo património cársico e etnobotânico”, proporcionando aos participantes uma jornada de descoberta e interpretação de um dos territórios mais emblemáticos do património geológico português.

 

Ao longo do dia, geologia, água, biodiversidade e paisagem foram os fios condutores de uma experiência de aprendizagem no Maciço Calcário Estremenho, (MCE) território marcado pela presença de extensos afloramentos de calcários e por uma extraordinária diversidade de formas cársicas. Foi disponibilizado um guião de apoio à saída que destaca a presença de lapiás, dolinas, uvalas, poljes e canhões cársicos, bem como de uma extensa rede subterrânea de grutas. como uma extensa rede subterrânea de grutas. No “Reino da Pedra”, no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, que conta com 76 geossítios, encontram-se algumas das mais significativas grutas que atravessam o interior do maciço, incluindo algumas das mais extensas e importantes formações cársicas do país revestidas por plantas crescendo espontaneamente no Parque envolvendo-nos num mundo de aromas. Calculamos que para os espeleólogos do CEAE – LPN, descer ao mundo subterrâneo de algares e grutas seja uma aventura entusiasmante de descoberta única ao apreciar-se de uma profusão de espeleotemas onde se abrigam uma infinidade de seres vivos, de que se destacam dez espécies de morcegos.

 

Da nascente do Almonda à Pincha de Minde

A saída começou na Nascente do Rio Almonda, onde os participantes foram convidados a compreender a relação entre a natureza calcária do maciço e a circulação subterrânea da água, através do enquadramento proporcionado por Rui Baptista e Fernando Pires, membros colaboradores do Centro de Estudos e Atividades Especiais da LPN. A nascente do Rio Almonda constitui uma importante exsurgência cársica, associada ao sistema subterrâneo desenvolvido nos calcários do MCE. O sistema possui um extraordinário interesse arqueológico e paleoantropológico, com vestígios que documentam cerca de 500 000 anos de ocupação humana. Destaca-se a gruta da Aroeira, onde foi descoberto, em 2014 o crânio Aroeira 3, com cerca de 400 000 anos, considerado o fóssil humano mais antigo descoberto em Portugal.

 

Orientados pelos colaboradores do CEAE e por Óscar Pires, o percurso prosseguiu até à Pincha de Minde, um importante geossítio situado no Polje de Minde, no concelho de Alcanena. Aqui, a atenção centrou-se numa das particularidades geológicas mais interessantes desta depressão cársica. O Polje de Minde constitui uma grande depressão de fundo relativamente plano, condicionada pela estrutura tectónica e pela dissolução dos calcários, onde a circulação subterrânea da água desempenha um papel fundamental.

 

A Pincha corresponde a um depósito sedimentar quaternário associado à evolução do polje. Os sedimentos, constituídos por fragmentos de calcário e matriz fina, registam condições ambientais muito diferentes das atuais e permitem compreender a evolução da paisagem durante períodos de clima mais frio.

 

A visita permitiu, assim, relacionar tectónica, carsificação, processos periglaciares, sedimentação e dinâmica da água, mostrando como diferentes processos geológicos se conjugam na construção da paisagem atual. A passagem por este local foi particularmente importante para a formação, uma vez que permitiu aos participantes ler a paisagem a partir das evidências geológicas presentes no terreno.

 

Alviela: onde a água subterrânea volta à superfície

Depois da visita à Pincha de Minde, o grupo dirigiu-se ao Complexo das Nascentes do Alviela, onde teve lugar o almoço, no parque de merendas. Após o almoço, realizou-se uma visita ao Centro Ciência Viva do Alviela – Carsoscópio, onde o grupo foi recebido pela professora em mobilidade Maria João Silva. O Carsoscópio é um espaço de divulgação científico e tecnológico integrado na Rede de Centros de Ciência Viva desenvolvido com o objetivo de valorizar o imenso património natural da nascente do Alviela e zona envolvente. A nascente do Alviela é um dos mais importantes fenómenos da hidrogeologia, emitindo caudais anuais que rondam os 120 milhões de metros cúbicos, chegando a debitar um milhão e meio num só dia e que fornecia água a Lisboa desde 1880.

 

A visita permitiu conhecer melhor o trabalho desenvolvido pelo Centro Ciência Viva do Alviela e explorar, através das exposições e das atividades propostas, os processos relacionados com o carso, a circulação subterrânea da água, a biodiversidade — em particular, as características dos morcegos e a sua importância — e a relação entre os sistemas naturais e as comunidades humanas.

 

A componente prática e interativa do Centro proporcionou aos participantes diferentes formas de abordar conceitos científicos que, posteriormente, podem ser adaptados e utilizados em contextos educativos.

 

A Ribeira dos Amiais: seguir o caminho da água
Após a visita ao Carsoscópio, durante a tarde, a formação passou para o terreno, com a realização do PR1 – Ribeira dos Amiais – Olhos d'Água do Alviela, um percurso interpretativo que acompanha a relação entre a água superficial e subterrânea num dos mais interessantes sistemas cársicos do Maciço Calcário Estremenho.


Ao longo do percurso, os participantes puderam observar algumas plantas caraterísticas do MCE e alguns dos elementos mais significativos deste sistema, nomeadamente a Nascente do Alviela, o Poço Escuro, o canhão flúvio-cársico da Ribeira dos Amiais, a Janela Cársica, o sumidouro e a ressurgência da Ribeira dos Amiais. 


A Janela Cársica constituiu um dos momentos particularmente relevantes do percurso, permitindo observar a circulação da água em profundidade e compreender a relação entre as formas superficiais e subterrâneas do relevo cársico.


A Ribeira dos Amiais constitui um dos raros cursos de água superficiais do Maciço Calcário Estremenho e, ao atravessar os calcários do Jurássico Médio, criou formas de elevado interesse geomorfológico. Ao longo do percurso são ainda visíveis cavidades e galerias que constituem importantes habitats para morcegos. 


O percurso permitiu, assim, seguir o percurso da água desde a nascente até ao contacto com o sistema subterrâneo, tornando visível um processo que normalmente permanece escondido sob os nossos pés.

 

Uma paisagem onde tudo se relaciona
A formação procurou, assim, estabelecer pontes entre geodiversidade, biodiversidade, água, património e etnobotânica, mostrando como estes elementos se encontram profundamente interligados.


No Maciço Calcário Estremenho, a natureza da rocha condiciona a circulação da água; a água modela o relevo e cria diferentes habitats; e as características do território condicionam, por sua vez, a biodiversidade e a ocupação humana. Ao longo do percurso, foi também possível conhecer a relação tradicional das comunidades com a flora da região, através de uma abordagem à etnobotânica, com a caracterização de algumas das plantas observadas e a exploração dos seus usos e importância no contexto local.
A ação contou com a colaboração do Centro de Ciência Viva do Alviela, do Centro de Atividades Especiais da LPN, de Óscar Pires e de Cristina Vieira, do ICNF, reunindo diferentes conhecimentos e experiências na interpretação deste território. Contou ainda com o apoio da EPAL, que contribuiu para a concretização da iniciativa.


Mais do que uma visita, foi uma oportunidade para aprender a observar, questionar e interpretar a paisagem, compreendendo as relações entre os seus componentes naturais e culturais — competências essenciais para uma educação ambiental que parte do contacto direto com o território. Constituiu também uma oportunidade para os professores adquirirem conhecimentos, estratégias e recursos passíveis de serem posteriormente replicados e adaptados aos seus próprios contextos educativos, transformando a experiência vivida no território em novas oportunidades de aprendizagem com os seus alunos. 

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