Estuário do Tejo

Fotografia de Inês Nunes

 

 

No sentindo de se conhecer para valorizar, num diálogo entre as atividades humanas e a natureza, a LPN através do seu Centro de Formação Ambiental contando com o apoio da Câmara Municipal do Seixal organizou mais uma ação de formação no estuário do Tejo.


Desta vez, a ação “abraçava” as águas do Tejo a bordo da embarcação tradicional - fragata Baía do Seixal, contornando os sapais junto à frente ribeirinha do Seixal. Revivendo as memórias do Tejo que testemunham a ocupação humana ancestral, navegámos pelas marés da sustentabilidade testemunhando uma rota de trabalho e de vivências humanas ao longo dos tempos.


A ação fluvial e as ações marinhas iam-se diluindo, oferecendo-nos uma paisagem privilegiada evidenciando a riqueza ornitológica e a fauna aquática do estuário do Tejo. A reconstituição da história geológica pela ciência definida pelas alterações climáticas e tectónica evidenciavam o diferente aspeto que o contorno do rio Tejo teve ao longo da História Geológica.


A tranquilidade das águas da baía do Seixal abrigadas pela restinga do Alfeite ia-nos acompanhando em estrofes de poesia sobre o Tejo, rompendo as fronteiras disciplinares numa união entre os sentidos, a ciência, a história, a literatura e a poesia.


A satisfação generalizada por parte dos participantes nesta ação de formação inspira-nos e traz-nos à memória a beleza, a riqueza e a importância que o estuário do Tejo reúne e que urge preservar.

 

 

 

 

Cheguei de manhã bem cedo à baía do Seixal, o nevoeiro afagava as suas águas, a maré vazia colocava a descoberto o horizonte. Por breves instantes, não se ouvia qualquer som, com excepção do ténue sussurro da brisa soprando sobre as pequenas praias de areia em volta dos rasos de maré e dos sapais. A visão do resto de uma carcaça enegrecida de uma embarcação tradicional a desaparecer nas águas da Baía dissolvendo-se no nevoeiro, junto ao núcleo naval em Arrentela, deixava um rasto fantasmagórico evocando a navegação do tráfego dessas embarcações que outrora navegavam pelo Tejo adentro. Há 50 anos essas embarcações ainda desfraldavam as suas velas, transportavam pessoas entre as duas margens do tejo e as carregavam de mercadorias como sal, cortiça, vinho, etc.


Caminho pela margem do esteiro do rio Judeu, gradualmente, começo a ver algum movimento. Inclinados e equipados com galochas e fatos de mergulho, vários mariscadores dedicavam-se à apanha da ameijoa e outros bivalves, enquanto outros buscavam as minhocas de pesca comuns – Hediste diversicolor que se escondiam na vasa de limo-lodo-argilosa.

 

O cenário lembrava uma jornada de trabalho agrícola, mas aqui tratava-se essencialmente da captura da espécie invasora Ruditapes phillipinarum (ameijoa-japonesa) que apesar de ser muito apreciada pelos mariscadores da região, devido ao rápido crescimento e abundância que apresenta, os impactos ecológicos potenciais que acarreta devem ser monitorizados com muita atenção, devido à competição com outras espécies de bivalves, nomeadamente a Ruditapes decussatus (ameijoa-boa) e ao revolvimento dos fundos locais.  

 

O rio Judeu, braço de mar que entra terra dentro, expressa a identidade ribeirinha de povoações tão distintas como Corroios e Amora na margem direita, ou Torre da Marinha, Arrentela e Seixal na margem esquerda, evidenciando a construção naval, a pesca, as memórias dos moinhos de maré e de indústrias outrora florescentes.

 

À medida que o tempo se aproximava do início da ação de formação dirigi-me para uma esplanada observando e perscrutando a rotina e vivência da vila do Seixal. Parei contemplando a beleza do barco tradicional – Fragata Baía do Seixal que nos iria proporcionar o passeio ao longo da Baía do Seixal e observava a rotina efetuada pela tripulação de limpeza e desinfeção no barco, necessária face a este tempo de pandemia resultante do Covid 19.

 

A metodologia da ação de formação tinha sido subitamente alterada derivada a novas restrições resultantes do Covid 19 e à ausência do formador Manuel Lima por motivos de saúde. Essas alterações induziram a uma reformulação logística e diferente calendarização.


Com quatro horas de duração tinha-se inicialmente previsto uma caminhada orientada de cerca de meia hora e depois uma atividade de peddy-paper com a mesma duração, recorrendo-se ao smarthphone ou tablet, por forma a conjugar-se no sentido de se promover a literacia digital nas saídas de campo e no contacto com a natureza. Após a realização da caminhada orientada junto ao Tejo e da atividade prática, embarcávamos para iniciarmos a nossa navegação pelo Tejo observando e caraterizando a flora e fauna existentes, ao mesmo tempo em que se efetuava um enquadramento natural, geológico e cultural.


A viagem pelo Tejo seria na embarcação típica, o “Varino Amoroso”, uma embarcação a vela que era usada para transporte de carga pelo rio Tejo antes da ponte 25 de abril existir, com 24,25m (a maior embarcação tradicional do Tejo que ainda navega) pertencente à Câmara Municipal do Seixal. Contudo, na véspera, numa saída efetuada pelo Varino Amoroso, houve um acidente e o seu mastro partiu-se inviabilizando a sua navegação.


Mas esses contratempos não foram suficientes para desistirmos. Viajando e dando a conhecer o “Império do tejo” era importante, não só por se usufruir do passeio, mas essencialmente, para se poder disponibilizar ferramentas e recursos pedagógicos de modo vivencial aos participantes (uma das finalidades do Centro de Formação Ambiental da LPN).


Quando na véspera de tarde nos ligaram a comunicar da impossibilidade da viagem no barco Varino Amoroso, muito gentilmente o departamento de turismo da Câmara do Seixal sugeriu a utilização do outro barco tradicional – a fragata Baía do Seixal. Este barco, no entanto embora muito bonito e igualmente emblemático é mais pequeno e por isso só poderia transportar no máximo dez participantes o que tornava impossível a realização de uma só viagem. Contudo rapidamente se resolveu o assunto dividindo-se em dois turnos com o consentimento dos participantes com a duração de duas horas cada sendo que as outras duas horas que faltavam, se adiavam para a semana seguinte em regime online para apresentação geral do estuário do tejo, com questões e conclusão da ação.


Antigamente o estuário do Tejo foi uma encruzilhada de fragatas, varinos, faluas e outras tipologias de embarcações. Em 1552, por exemplo circulavam cerca de 830 barcos e até 1950 ainda havia diversos estaleiros de reparação naval mas com a evolução dos transportes terrestres e a construção das pontes sobre o Tejo, estas embarcações aos poucos foram deixando de existir. A fragata Baía do Seixal, a Sissi - nome conhecido pela população foi construída em 1895 e servia para o transporte de cortiça pois no Seixal havia uma antiga fábrica corticeira, a Mundet, que foi durante décadas o maior empregador da zona e agora transformada em núcleo do ecomuseu municipal do Seixal. Apesar dessa substituição da embarcação não ter tido influência na ação derivado de ser bastante acolhedora e muito bonita, o facto do outro barco (Varino Amoroso) se encontrar danificado deixava alguma apreensão pois atualmente só existe um único estaleiro de reparação dessas embarcações.


As embarcações do Tejo com a sua configuração própria, de fundo chato, popa cortada e leme de levantar permitiam circular pelos esteiros baixos caraterísticos do Tejo. A prova do significado identitário destes barcos (tipo Muleta) é que figuram no brasão dos municípios do Seixal e Barreiro. Para além da sua beleza, são um património que urge preservar, bem como as profissões necessárias à sua reparação e construção.


Sento-me na esplanada em frente à embarcação que nos ia levar pelo Tejo adentro. Aos poucos, a maré ia enchendo mais parecendo a frente ribeirinha uma jangada flutuante onde ao ritmo da maré o movimento circulante das pessoas aumentava, grande parte praticando desporto a correr. Algumas sentavam-se a tomar o pequeno-almoço ou a beber um café, um grupo de ciclistas acabado de chegar ia cumprimentando os conhecidos e os amigos que se encontravam junto à estação náutica da Baía do Seixal. No cais de acostagem alguns encontravam-se a reparar os seus barcos de recreio, e outros já iam de partida em mais uma aventura e passeio pelo rio onde um pequeno iate afasta-se na distância. A neblina que aos poucos se tinha levantado punha a descoberto uma alma quente e comunicante da main street junto ao Tejo, onde  a possibilidade de se tropeçar em velhos conhecidos quando se sai de casa era previsível. As crianças brincavam num jardim perto e uma professora aparecia e sentava-se ma mesa do lado da esplanada a corrigir testes aproveitando o sol que aos poucos aparecia deslumbrante.


O tempo passava tranquilo, tal como a baía do Seixal que protegida pela restinga do Alfeite lhe permite constituir um porto de abrigo natural. A luz do sol brilhava radiante, até que começaram a chegar os participantes do primeiro grupo para a nossa saída da ação de formação. Dirigi-me ao posto de turismo para obter as necessárias indicações e lá fomos todos ansiosos para o cais de acostagem para partirmos.


A viagem prevista para os dois grupos era determinada pela maré, no primeiro grupo a maré ainda não se encontrava suficientemente cheia pelo que o trajeto em vez de contornar o sapal de Corroios se fez inicialmente um pouco pela Baía do Seixal, junto á restinga do Alfeite até onde a maré permitia e depois virou para sotavento saindo pela embocadura da Baía, passando pelo esteiro e sapal de Coina, pelo Barreiro, e  com a vista sempre para a margem norte observava-se o 2º bairro mais antigo da Europa, a medina de Lisboa (Alfama). O segundo grupo que partiu duas horas depois penetrou mais pelo sapal de Corroios até ao moinho de maré de Corroios, local de observação de aves.

 

 

 

 

Uma embarcação de passageiros que une o Barreiro a Lisboa.


Lá vai no Mar da Palha o Cacilheiro,
comboio de Lisboa sobre a água:
Cacilhas e Seixal, Montijo mais Barreiro.
Pouco Tejo, pouco Tejo e muita mágoa.


Na Ponte passam carros e turistas
iguais a todos que há no mundo inteiro,
mas, embora mais caras, a Ponte não tem vistas
como as dos peitoris do Cacilheiro.


Se um dia o Cacilheiro for embora,
fica mais triste o coração da água,
e o povo de Lisboa dirá, como quem chora,
pouco Tejo, pouco Tejo e muita mágoa.


Ary dos Santos

 

Estava encantado, tal como os participantes pela paisagem envolvente e pela quantidade de aves que abundavam, algumas a alimentarem-se e outras que em bandos voavam. Ao mesmo tempo (o professor destacado na LPN) explicava a vida entre marés do estuário do tejo, a geologia e o património cultural ao passar pelas margens dos sapais e das pequenas praias de areia da Baía do Seixal. Realçava-se o elevado numero de espécies refletindo a melhoria da qualidade ambiental e um contributo na biodiversidade resultante do encerramento de algumas indústrias e da melhoria registada no saneamento e tratamento das águas. Mesmo ao nosso lado observávamos uma quantidade de espécies de aves limícolas que atestavam naturalmente a maior densidade no outono das minhocas oligoquetas, de bivalves, crustáceos e de algumas espécies de fauna piscícola. Colhereiros, Garça Real e maçaricos Para além das limícolas eram frequentes as gaivotas de asa escura, os guinchos e ainda algumas aves aquáticas de grande porte como a garça real, a garça branca pequena e o corvo marinho de faces brancas.

 

 

Colhereiros (Plalatalea leucorodia). Fotografia de Henrique Martins.

 

 

Contacto entre um corvo marinho de faces brancas (Phalacrocrax carbo) e uma garça-real (Ardea cinerea). Fotografia de Henrique Martins.

 

 

Alguns bandos de flamingos também voavam dando um colorido especial em movimentos de harmonia, de súbito, ao longe, um flamingo solitário voava já muito distante do grupo que muitos minutos antes já tinham passado rumo a sotavento, provavelmente a caminho da reserva natural do estuário do Tejo, ou para junto da ponte Vasco da Gama no concelho de Alcochete. Seria uma manifestação de individualidade numa espécie gregária?

 

 

Leitura de poesia pela professora Helena Farias.

 


Mas esta ação de formação não era só um percorrer de aspetos naturais ligado ao património natural, da geodiversidade e biodiversidade do Tejo. Era uma viagem que se caraterizava por ser multidisciplinar, onde as palavras rimavam nas águas do Tejo, em leitura de textos de poesia de autores como Fernando Pessoa, Manuel da Fonseca, Alexandre O`Neill, de Eufrásio Filipe (antigo presidente da Câmara do Seixal) efetuadas sublimemente pela professora de Português Helena Farias.

 

 

Zona ribeirinha da vila do Seixal.

 

 

Pelos lemes das palavras navegámos nesta ação, num “caudal” de diálogos científicos e literários ficando com a sensação de estar na proa de um navio imenso que nos impele para mais descobertas com partida na embocadura do “Império do Tejo”. Volto a olhar para trás, revivendo momentos de glória, mas também de uma ocupação humana que nem sempre foi a mais equilibrada e a melhor com este sistema estuarino de condições únicas. Vivenciando este rio, penso que é impossível não se amá-lo. Quem o usufrui pelos sentidos deverá ser conquistado por ele. E é essa a mensagem que no fundo se pretende transmitir e que virtualmente é intransmissível. Em momentos de Covid as correntes de maré do Tejo transportaram-nos momentos de promessas de felicidade, de vida com saúde pelas quais ansiamos. Abriram-se “asas” que levantam voos, para que os professores conhecendo o Tejo possam agir, através de projetos e aulas de Educação Ambiental sobre o Estuário do Tejo.

 

 

2º Grupo da ação de formação.

 


Tejo desta canção, que o teu correr
não seja o meu pretexto de saudade.
Saudade tenho sim, mas de perder,
sem as poder deter,
as águas vivas da realidade!

.....Não, Tejo,
.....não és tu que em mim te vês,
.....– sou eu que em ti me vejo!
.
..
in "Feira Cabisbaixa" de Alexandre O'Neill
 

 


Disse  Alexandre O'Neill:  Imaginar, primeiro, é ver. Imaginar é conhecer,portanto,agir. !
 

 

 

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