Expedição ao Penedo do Lexim
A LPN promoveu uma saída de campo no âmbito de uma ação de formação para professores, através de um percurso pedestre na paisagem saloia proporcionando uma experiência de aprendizagem em contexto real ao longo do percurso Cheleiros – Aldeia da Mata Pequena – Penedo do Lexim – Cheleiros. A iniciativa permitiu aos participantes descobrir a riqueza geológica, biológica, histórica e cultural da região através de uma abordagem prática e interdisciplinar. Ao longo da saída de campo foram abordados temas como a evolução da paisagem, o património histórico de Cheleiros, a arquitetura tradicional saloia, a geologia do Penedo do Lexim, a flora mediterrânica, as galerias ripícolas e a importância da conservação da biodiversidade, evidenciando o enorme potencial pedagógico do território como recurso educativo para a Educação Ambiental.

 

 

No passado dia 18 de julho, a geodiversidade, a biodiversidade, o património histórico e a cultura cruzaram-se na ação de formação da LPN ao longo do percurso Cheleiros – Aldeia da Mata Pequena – Penedo do Lexim – Cheleiros. A iniciativa da formação que contou com o apoio da EPAL teve como formadores a participação do professor João Mata do Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, especialista em Geologia e Geoquímica, e do professor em mobilidade estatutária na LPN conduzindo os participantes numa verdadeira viagem pela história geológica e etnográfica da região, interpretando a evolução da paisagem, a biodiversidade e a importância científica do geossítio do Penedo do Lexim.

 

A primeira paragem decorreu em Cheleiros, ponto de partida da “Expedição à Paisagem Saloia”. Após uma breve apresentação da Liga para a Proteção da Natureza (LPN), destacando o seu papel na conservação da natureza e a sua missão formativa e educativa, foi lançado aos participantes o desafio de, ao longo de toda a ação, participarem em atividades de observação, identificação de espécies, interpretação da paisagem e resolução de enigmas do percurso a efetuar. Através desta abordagem, baseada na aprendizagem por investigação, na gamificação e na educação em contexto real, os formandos exploraram metodologias inovadoras e facilmente adaptáveis às suas práticas letivas.

 

Ainda em Cheleiros, os participantes ficaram a conhecer a origem e a evolução histórica da localidade. Foi destacado que a vila recebeu um dos mais antigos forais de Portugal, concedido por D. Sancho I em 1195, tendo sido sede de concelho durante cerca de seis séculos. Salientou-se igualmente a sua importância estratégica na antiga Estrada Real Sintra–Cheleiros–Mafra, integrada na atual Rota Memorial do Convento, percurso por onde foi transportada grande parte do calcário, do mármore e de outras matérias-primas utilizadas na construção do Palácio Nacional de Mafra, incluindo a célebre Pedra Benedictione, imortalizada por José Saramago na obra Memorial do Convento.

 

Seguidamente, o grupo dirigiu-se até à confluência da Ribeira de Cheleiros com a Ribeira da Mata, onde, à sombra de uma oliveira centenária e após a observação de imponentes exemplares de freixo (Fraxinus angustifolia), o Professor João Mata realizou o enquadramento geológico da região, explicando a evolução da paisagem e os principais acontecimentos geológicos que lhe deram origem.

 

O percurso prosseguiu ao longo da Ribeira da Mata, permitindo aos participantes observar uma bem conservada galeria ripícola, dominada por espécies características como o freixo (Fraxinus angustifolia), o choupo (Populus spp.) e os salgueiros (Salix spp.). Este troço constituiu um verdadeiro laboratório natural ao ar livre, onde foram abordadas a importância ecológica das linhas de água, o papel das galerias ripícolas na conservação da biodiversidade, a estabilização das margens e a proteção dos ecossistemas ribeirinhos.

 

Chegado à Aldeia da Mata Pequena, os participantes foram recebidos por Diogo Batalha responsável pelo projeto de recuperação deste núcleo rural, que apresentou a história da aldeia e o processo de reabilitação das antigas habitações saloias. O projeto recuperou as ruínas de uma antiga aldeia tradicional, transformando-as em 14 unidades de alojamento, preservando a arquitetura em pedra e cal e integrando as comodidades atuais. Hoje, a Aldeia da Mata Pequena constitui um verdadeiro museu vivo, contribuindo para a valorização do património arquitetónico e da identidade cultural da região saloia.

Após o almoço no Penedo do Lexim, os participantes aprofundaram os conhecimentos sobre a evolução geológica da região. O Professor João mata explicou a origem desta antiga chaminé vulcânica, integrada no Complexo Vulcânico de Lisboa, destacando a origem do vulcanismo, os processos de magmatismo alcalino, a erosão diferencial e a espetacular disjunção prismática observável no basalto, estruturas que fazem do Penedo do Lexim um dos mais importantes geossítios nacionais. A componente geológica despertou particular interesse entre os participantes, que colocaram inúmeras questões ao longo da visita. Entre elas, destacou-se a curiosidade em compreender a relação cronológica entre o Complexo Vulcânico de Lisboa (CVL) e o Maciço Eruptivo de Sintra reforçando a interpretação da evolução geológica da região com base em dados diferenciados dos diferentes métodos de datação isotópica

 

Ao longo de milhões de anos, a erosão desgastou as rochas sedimentares circundantes, mas preservou o núcleo basáltico, originando um relevo elevado e isolado, com vertentes escarpadas e de difícil acesso constituindo um local privilegiado para a instalação de um povoado fortificado no período Calcolítico c. 3000–2200 a.C. A localização estratégica do penedo do lexim, associada às excelentes condições naturais de defesa proporcionadas pela antiga chaminé vulcânica, permitiu o estabelecimento de uma comunidade que controlava visualmente uma vasta área da paisagem envolvente e explorava os recursos naturais disponíveis. Assim para além do seu excecional interesse geológico, o Penedo do Lexim possui também um elevado valor arqueológico sendo classificado como Imóvel de Interesse Público pelo Decreto n.º 28/82, de 26 de fevereiro de 1982, testemunhando a estreita relação entre a geologia, a ocupação humana e a evolução da paisagem ao longo de mais de cinco mil anos.

 

No Penedo do Lexim, o professor em mobilidade estatutária na LPN destacou igualmente a importância dos líquenes, dos briófitos e das pteridófitas na colonização das superfícies rochosas. Através da observação direta, os participantes compreenderam como os processos de meteorização promovem o desgaste das rochas e criam condições para a instalação destes organismos pioneiros. Foi explicado que os líquenes desempenham um papel fundamental na alteração do substrato, na formação dos primeiros solos, e os seus processos peculiares de reprodução, permitindo posteriormente o estabelecimento de briófitos e pteridófitas, num excelente exemplo de sucessão ecológica em ambiente natural.

 

Após a visita ao Penedo do Lexim o percurso efetuou-se com uma caminhada através de um bem conservado bosque dominado pelo carvalho português, onde foi possível identificar diversas espécies características da flora autóctone, entre as quais o loureiro (Laurus nobilis), a gilbardeira (Ruscus aculeatus), o aderno-bastardo (Rhamnus alaternus) que constituem testemunhos da antiga floresta subtropical de tipo laurissilva que existia na Península Ibérica durante o Terciário.

 

O percurso prosseguiu por entre os campos agrícolas da paisagem saloia, evidenciando a estreita relação entre a atividade humana, a agricultura tradicional e a conservação dos valores naturais e culturais do território.

 

O regresso a Cheleiros realizou-se pela aldeia, passando perto da emblemática ponte medieval sobre a Ribeira de Cheleiros e do cruzeiro manuelino, dois importantes testemunhos do património histórico local, culminando na Igreja Matriz de Cheleiros, ponto de partida e de chegada desta expedição.

 

Esta iniciativa através de uma visão interdisciplinar constituiu uma oportunidade privilegiada para demonstrar que o território é um recurso educativo de excelência, promovendo a integração entre Geologia, Biologia, Geografia, História e Educação Ambiental, reforçando o papel das saídas de campo na promoção da literacia científica, da valorização do património e da formação de cidadãos mais conscientes e comprometidos com a conservação da Natureza.

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