Futuro do lince-ibérico depende cada vez mais da coexistência com as comunidades

Parecer da LPN ao novo plano de ação alerta para a necessidade de colocar a dimensão social da conservação no centro da estratégia.

 

A recuperação do lince-ibérico é um dos maiores sucessos da conservação da natureza a nível mundial. Depois de décadas de investimento, cooperação ibérica e trabalho no terreno que permitiram salvar da extinção aquele que chegou a ser o felino mais ameaçado do mundo, surge agora uma nova etapa: garantir uma coexistência duradoura entre a espécie e as comunidades dos territórios onde já está presente e dos que poderá vir a recolonizar.

 

Esta é uma das principais mensagens do parecer submetido pela LPN à consulta pública do novo Plano de Ação para a Conservação do Lince-Ibérico em Portugal (PACLIP 2026-2030). É fundamental compreender de que forma as populações percecionam o regresso do lince-ibérico, após várias décadas de ausência da espécie e, com isso, da perda da experiência de coexistência. A monitorização da evolução dessas perceções e a antecipação de potenciais conflitos, que são normais nestas histórias de sucesso, deve constituir uma prioridade para garantir o sucesso da sua conservação a longo prazo.

 

 

Compreender as expectativas, preocupações e experiências das comunidades locais é hoje tão importante como monitorizar a população de linces, garantir a qualidade do habitat ou recuperar as populações de coelho-bravo. A coexistência constrói-se através do diálogo, da confiança e da capacidade de antecipar desafios antes que se transformem em conflitos.

Rúben Sousa de Oliveira, Membro da Direção Nacional da LPN

 

 

O parecer alerta também para a importância de preparar os territórios para os quais o lince-ibérico irá, previsivelmente, expandir-se nos próximos anos, criando condições para uma coexistência positiva antes da chegada de novos indivíduos. A experiência acumulada demonstra que esta preocupação é hoje tão importante quanto assegurar habitat adequado ou populações saudáveis da sua principal presa – o coelho-bravo. Além dos impactos económicos, importa reconhecer os efeitos sociais e emocionais associados à perda de animais de companhia ou de aves domésticas devido ao comportamento territorial e predatório do lince-ibérico.

 

 

Existem desafios emergentes e subsistem linhas de trabalho com fraca execução, como a articulação das medidas de política. Precisamos de condições para operacionalizar este novo Plano de Ação com sucesso, envolvendo todas as partes interessadas e considerando, de forma efetiva, os seus contributos relevantes.

Rita Martins, Coordenadora do Departamento de Intervenção e Políticas Ambientais da LPN e representante da organização na Comissão Executiva do Plano de Ação para a Conservação do Lince-ibérico em Portugal

 

 

No que respeita ao combate às ameaças, o parecer alerta para a necessidade de elevar a ambição na redução da mortalidade da espécie, aproximando Portugal das metas definidas à escala ibérica. Entre outros aspetos que ainda precisam ser trabalhados, estão o de uma melhor articulação entre políticas públicas que influenciam a conservação do lince-ibérico e o da inclusão de uma estimativa clara dos recursos financeiros necessários para transformar os objetivos do plano em ações concretas.

 

A recuperação do lince-ibérico entra agora num novo capítulo, tão determinante quanto os anteriores, para assegurar que esta notável história de recuperação se possa ver concluída na próxima década.

 

 

 

 

 

Fotografia de capa: ©Carlos Nunes

 

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