Herdade da LPN em Castro Verde acolhe a libertação de tartaranhões-caçador após programa inédito de conservação ex-situ

Fotografia © Rui Cunha

 

 

Decorreu ontem a libertação de 21 exemplares juvenis de Tartaranhão-caçador, em Castro Verde, no âmbito do Plano de Emergência para a Recuperação do Tartaranhão-caçador (Circus pygargus). Trata-se de uma espécie migradora, que nidifica em Portugal, sendo a região do Alentejo uma das mais importantes para a sua reprodução. A Zona de Proteção Especial (ZPE) para Aves de Castro Verde é a zona do país onde ainda ocorrem alguns casais de Tartaranhão-caçador.

 

No início da primavera começaram os trabalhos de monitorização para identificar as searas escolhidas pelos casais de Tartaranhão-caçador para nidificar.

 

Depois, em Castro Verde, através da colaboração entre LPN e os agricultores locais procedeu-se a uma primeira identificação das áreas previstas para corte de fenos e para semente (ceifa). Após a monitorização para localizar os ninhos, foi feita a recolha dos ovos ou a proteção dos ninhos com crias antes dos trabalhos agrícolas terem início, para evitar a sua destruição ou predação. Na primeira recolha, os ovos foram encaminhados para um centro de criação (Gonçalo George Unipessoal, Lda.) onde foram incubados em instalações especializadas para o efeito.

 

Nesta fase, os ovos foram alvo duma monitorização constante, para que a incubação se realizasse com o adequado nível de temperatura e humidade e se maximizasse o sucesso da eclosão. Após o nascimento, no mesmo centro, iniciou-se o processo de alimentação das crias que se realizou em ciclos de quatro a cinco refeições diárias em ambiente climatizado até poderem ser transferidos para as instalações de aclimatação ao habitat natural (“hacking”). Estas instalações foram construídas especificamente para este fim em meio natural, na Herdade do Vale Gonçalinho, propriedade da LPN no concelho de Castro Verde. As primeiras crias foram transferidas para este local em junho, com aproximadamente 30 dias, para que fossem sendo preparadas para a sua devolução à natureza.

 

Em 2011, na Zona de Proteção Especial de Castro Verde, foi estimada a presença de 214 casais reprodutores (MADRAP 2010, Monitorização da Comunidade das Aves Estepárias na ITI de Castro Verde). Em 2021, na mesma área, foi registada a presença de apenas 50 casais (segundo ICNF/CIBIO 2021). Estes valores indicam um decréscimo do número de casais em Portugal de aproximadamente 75%. Nos últimos 10 anos, e de 85% no Alentejo. Neste período, assistimos à alteração das culturas e práticas agrícolas e pecuárias, aliado também à maior frequência de secas, que estão a provocar um declínio muito acentuado da espécie, que poderá significar o seu desaparecimento em Portugal.

 

Rita Alcazar, coordenadora da delegação da LPN em Castro Verde, refere que “o tartaranhão-caçador era uma das aves mais comuns nas nossas planícies alentejanas. O decréscimo que estão a ter é tão acentuado, que atualmente é difícil serem observados”. Acrescenta ainda que “estas ações de emergência [incubação de ovos e conservação ex-situ] só estão a ser efetuadas porque a situação da espécie é tão dramática, que apenas com uma intervenção de resgate e salvamento será possível assegurar a sobrevivência dos juvenis e conseguir evitar a extinção da espécie em Portugal”.

 

O Plano de Emergência, coordenado pelo Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e implementado a nível nacional pela Liga para a Proteção da Natureza (LPN), Palombar, Sociedade para os Estudo das Aves e pelo Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO), teve início no terreno no passado mês de abril com a deteção dos casais de tartaranhão-caçador em searas.

 

As ações implementadas pela LPN para a proteção e salvamento do Tartaranhão-caçador surgem no contexto do projeto de Promoção da conservação das aves estepárias em Castro Verde (Aves das Estepes), financiado pela Associação VIRIDIA - Conservation in Action e do projeto LIFE Agrosteppes.

 

Todo o trabalho efetuado ao longo desta época de reprodução não teria sido possível sem a colaboração e contributo de diversas entidades, empresas, agricultores e cidadãos que de alguma forma deram contributos imprescindíveis para se alcançar este primeiro resultado de libertação de 21 juvenis, que terá que se repetir nos próximos anos para se salvar esta espécie da extinção em Portugal. Assim, agradecemos a colaboração de:

 

Direção Regional de Agricultura e Pescas do Alentejo, Associação de Agricultores do Campo Branco, Estrutura Local de Apoio do Baixo Alentejo, Infraestruturas de Portugal, Tiago Velez Lda., Altice/MEO, Lar Jacinto Faleiro, Birds & Nature, Instituto Gulbenkian de Ciência, Fundação Champalimaud, Instituto Ricardo Jorge, Lúcia-Lima Nature, Município de Castro Verde, Centro de Recuperação de Animais Silvestres (Município de Lisboa), Centro de Recuperação de Animais Selvagens de St. André (Quercus), AMUS (Acción por el Mundo Salvaje), Alice Ramos, Ana Nobre, Ana Lampreia, Patrícia Guerreiro, Fernando Caeiro, Rita Sousa, Veronica Bogalho e dos Agricultores do Campo Branco, em particular:

 

José da Luz Pereira, Ernesto Fialho, Duarte Fialho, Manuel Augusto, António Tomé, Fernando Rosa, Carlos Sequeira, António Lage, Fernando Pinheiro, Rui Lourenço, Manuel Catarino, António Elias, Vitor Simões, José Ferreira, Rui Saturnino, Idalécia Gomes, Vânia Gomes, António Lopes, Francisco Mata, José António Candeias, Francisco Costa, António Lúcio, José Estevão, Bruno Inácio.

 

Equipas das entidades parceiras: LPN, ICNF, CIBIO, SPEA e Palombar

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