Nos últimos meses, vivi intensamente aquilo que foi a primeira campanha de resgate e proteção do tartaranhão-caçador no âmbito do projeto LIFE SOS Pygargus. Foram semanas de longos dias no campo, de decisões difíceis e de preocupações constantes. Trabalhar com uma espécie numa situação tão frágil é carregar diariamente o peso da incerteza e a sensação de que, por mais que façamos, a natureza pode escapar-nos das mãos.
O tartaranhão-caçador é uma ave extraordinária. Ao nidificar no solo, ficam vulneráveis a predadores que chegam não só pela terra, mas também pelo ar, e os progenitores revelam uma resiliência notável. Cada ninho é uma prova de dedicação absoluta a uma nova geração que carrega em si a esperança da espécie. Mas não são apenas os predadores que ameaçam a sua sobrevivência: a perda de habitat provocada pela intensificação agrícola e a exposição dos ninhos durante a ceifa, precisamente no período reprodutor, estão entre as principais causas do seu declínio. Na última década, a população diminuiu cerca de 80% em Portugal. É por isso que cada gesto de proteção, por mais pequeno que pareça, se torna decisivo.
E a campanha não foi fácil. Houve momentos de cansaço e frustração, dentro e fora do campo. Mas, ao olhar para trás, percebo que ainda há esperança, pois em cada visita às colónias, em cada conversa, recebi o apoio genuíno dos agricultores desta região.
É sempre um desafio chegar pela primeira vez a um território onde ninguém nos conhece e pedir algo tão exigente como parar ou atrasar a ceifa ou deixar um hectare por ceifar à volta de cada ninho. Tudo isto em troca de uma compensação económica que não é suficiente para o esforço que representa. Nesta campanha, cada agricultor que colaborou fê-lo sobretudo por boa vontade, por sentido de responsabilidade e não pelo retorno económico. No início, pensei que seria quase impossível convencer os agricultores a aceitarem estas medidas. Mas pouco sabia eu, nessa altura, da generosidade dos agricultores do Campo Branco.
São eles quem partilham connosco a responsabilidade de proteger, não apenas o tartaranhão-caçador, mas também todo o equilíbrio do ecossistema que aqui, nas planícies do sul do Alentejo, se mantém vivo. Este projeto não se faz de estatísticas nem de relatórios. Faz-se de pessoas e de relações. Faz-se de confiança mútua entre quem trabalha a terra e quem nela tenta salvar uma espécie à beira do desaparecimento. Faz-se de gestos concretos que significam a diferença entre a perda e a sobrevivência.
Hoje, quero deixar um agradecimento profundo a todos os agricultores que acreditaram em nós e que, dia após dia, mostraram que a conservação da natureza pode andar de mãos dadas com a agricultura. É verdade que o caminho ainda é longo e que há muito por fazer, mas este compromisso é a prova viva de que a coexistência é possível.
Agora que os nossos tartaranhões seguem caminho para África e esta primeira campanha chegou ao fim, o nosso trabalho continua. Continuamos juntos pela possibilidade de que o tartaranhão-caçador volte a ser uma presença segura nesta paisagem.
Porque proteger uma espécie é, no fundo, proteger o património natural e humano que nos une.
Com gratidão e esperança,
Alba V. Cifuentes
Coordenadora do projeto LIFE SOS Pygargus
Liga para a Protecção da Natureza


O LIFE SOS Pygargus é um projeto com a duração de seis anos (2024-2030) e um orçamento total de quase 11 milhões de euros, 75% dos quais (oito milhões de euros) financiados pelo Programa LIFE da União Europeia (UE). O seu objetivo principal é travar a extinção do tartaranhão-caçador (Circus pygargus) em Portugal e no oeste de Espanha, melhorando os habitats, aumentando o sucesso reprodutivo e mitigando as ameaças para a espécie.
Coordenado pela Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural, o projeto envolve mais 17 parceiros, incluindo 13 entidades portuguesas e quatro espanholas.
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