Mensagem de pesar

A Liga para a Protecção da Natureza manifesta o seu profundo pesar pelo falecimento do seu associado José de Almeida Fernandes que, durante três décadas, foi dirigente da associação que ajudou a fazer crescer.

 

Ao longo da sua vida profissional mostrou sempre uma grande dedicação aos valores ambientais, pelos quais pugnou com grande visão, tanto na LPN como nas várias instituições públicas que liderou.

 

A nossa associação perdeu um amigo e líder histórico, que deixou marcas importantes na Sociedade e na Conservação da Natureza.

 

As mais sinceras condolências e sentimentos à família e amigos.

 

Partilhamos o texto baseado numa entrevista a José de Almeida Fernandes, realizada por ocasião da celebração dos 60 anos da LPN, em 2008:

 

ANOS 70 - UMA DÉCADA DE MUDANÇA

Nos finais dos anos 60 iniciava-se na Liga para a Protecção da Natureza (LPN) um movimento no sentido de tentar abrir a sua actividade a uma população mais alargada, abandonando a sua ligação ao mundo universitário e abrindo-se a outras áreas populacionais.

 

A mais importante iniciativa foi a de promover campanhas de angariação de sócios diversificados tentando reuniões e acções centradas na sua sede no Instituto Botânico da Faculdade de Ciências de Lisboa. Os corpos directivos passaram a ser mais abertos e a englobar membros, quer das áreas científicas, quer fora delas. O aumento do número de sócios foi um facto muito positivo.

 

Esta evolução permitiu o alargamento dos temas de acção e discussão e iniciativas mais alargadas. A projecção exterior, que resultou desta mudança de perspectiva, foi muito dinamizada pela colaboração que a LPN teve na preparação das actividades para a comemoração do Ano Europeu da Protecção da Natureza (1970), da iniciativa do Conselho da Europa, e que claramente nesse ano chamou a atenção do país para o problema.

 

Foi notável a colaboração então havida com os serviços florestais, único organismo do Estado que então tinha o dever oficial de tratar dos assuntos da conservação da natureza. É bom não esquecer o trabalho e entusiasmo notável do Eng. João Bugalho na dinamização das actividades que então tiveram lugar e em que a LPN não teve um papel menor, assim como da colaboração da Fundação Calouste Gulbenkian.

 

Foi neste contexto que o Governo decidiu publicar a primeira lei das Áreas Protegidas (Lei n.º 9/70 de 19 de Junho) que permitiu a criação, em 1971, da primeira Área Protegida – o Parque Nacional da Peneda-Gerês e outras reservas da natureza.

 

No âmbito desta nova política, com impacto nacional e internacional, surgiu a criação, em 1971, da convenção de Ramsar, com particular finalidade de protecção das aves selvagens ao que Portugal aderiu e onde se começou a preparar os estatutos da protecção dos estuários do Sado e do Tejo e da ria Formosa que, só bastante mais tarde, foram regulamentadas.

 

Em 1972, foi realizada a Conferência das Nações Unidas para o Ambiente, em Estocolmo. Para a representação de Portugal na conferência foi criada a Comissão Nacional do Ambiente (CNA), presidida pelo Eng.º Correia da Cunha. A introdução da palavra Ambiente nesta comissão em vez de Conservação da Natureza gerou alguma polémica, pois até à referida conferência a palavra Ambiente não era utilizada.

 

Importa ainda salientar que o início dos anos 70 foi muito rico em matéria de ambiente (através da criação de Convenções e de Conferências), tratando-se no entanto de iniciativas demasiado teóricas. A nível internacional, Portugal tinha um papel relativamente apagado; contudo, o Eng.º Correia da Cunha, com o seu entusiasmo, acompanhou os assuntos internacionais: quer a Convenção de Ramsar, quer todo o trabalho para a criação do Dia Mundial do Ambiente, comemorado pela primeira vez em Portugal em 1973.

 

Nesta época, a LPN tinha outras lutas, nomeadamente relacionadas com a criação pelo país dos chamados núcleos regionais ou juvenis. Os núcleos juvenis pouco resultaram, contudo houve um que se salientou: o Núcleo Juvenil de Setúbal, do qual se destacou o Prof. Viriato Soromenho Marques, que chegou a fazer parte do Conselho Científico como representante do núcleo juvenil da LPN, quando foi criado o Parque Natural da Arrábida (1976).

 

Ainda em 1972, o Eng.º João Bugalho e o Prof. Baeta Neves trouxeram para Portugal a comemoração do Dia Mundial da Floresta, que continua ainda hoje a comemorar-se sob a égide do sector florestal e do governo.

 

Entre 1972 e 1973 houve um conflito entre a LPN e o Presidente da República de então, o Almirante Américo Tomás, devido à intenção de construção da estrada “Galápagos – Portinho”, na Serra da Arrábida. A LPN opôs-se determinantemente à construção dessa estrada, tendo com essa atitude criado alguns problemas políticos.

 

Até 1973 a LPN foi a única associação de protecção do ambiente, sendo nesse ano criada a Comissão de Luta Anti-Poluição do Alviela (CLAPA), que ainda hoje existe.

 

Em 1974, dá-se a revolução do 25 de Abril, e com toda a confusão que então se estabeleceu, a LPN reduz bastante a sua actividade. No entanto, o ano de 1974 não foi um ano morto. Foi um ano em que se deu a explosão das associações de defesa do ambiente ou, na altura chamadas, associações ecologistas. No período de indefinição política até 1975 a LPN teve, de certo modo, um recuo porque muitos dos seus sócios integraram outras organizações. O ambiente sócio-político não facilitava as iniciativas.

 

É a partir desta data que a actividade da LPN assumiu um caracter mais vasto e encontrou um ambiente, quer a nível nacional, com a criação do Ministério do Ambiente, quer a nível internacional com a estrita colaboração nas iniciativas do Conselho da Europa e da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) de que a Liga se tornou membro efectivo.

 

Até o fim da década de 70 houve uma movimentação no quadro nacional que proporcionou o desenvolvimento da preocupação da população portuguesa pelos problemas ambientais e de conservação da natureza sendo muito rica a iniciativa da LPN, quer a nível nacional e internacional, tornando-se, em determinado momento, membro do Comité de Informação para a Conservação da Natureza e do Conselho da Europa, onde continua integrada. O relato de todas as actividades dos anos 70 alargaria demasiado este texto.

 

Foi nessa altura em que eu era presidente da LPN, em 1975, fiz uma acrobacia: deixei a investigação científica e passei para o Ambiente a convite do Eng.º Correia da Cunha e do Prof. João Evangelista. Agarrei com ambas as mãos a passagem para a CNA (Comissão Nacional do Ambiente). Comecei então a minha experiência internacional e a minha relação com os diferentes acontecimentos na Europa e no mundo, relação essa de que veio a beneficiar a Liga.

 

Contudo, ainda como funcionário da Faculdade de Ciências de Lisboa, fui convidado pela CNA para representar, em 1974, Portugal no Comité Europeu para a Conservação da Natureza do Conselho da Europa. Foi a primeira vez que um português esteve no Conselho da Europa, tratando de problemas ambientais.

 

No que respeita à minha actividade pessoal foi sobretudo a nível internacional, especialmente na época em que se desenvolveram Convenções e Estratégias, como a Convenção de Berna e a Convenção de Genebra. A nível nacional fui membro da CNA e depois, mais tarde, presidente do Instituto Nacional do Ambiente (INAMB), ainda na década de 70.

 

Para terminar, e por mera curiosidade, vem a propósito relatar um facto significativo da curiosidade e atenção do público:

Em finais dos anos 70 a Liga liderou uma acção que teve grande impacto em Portugal: a campanha do lince-ibérico - “Salvemos o lince e a serra da Malcata”. O lançamento da campanha foi realizado no Palácio da Independência. Teve tanto sucesso, que até no Rádio Clube Português, no programa cómico “Parodiantes de Lisboa”, falaram do lince e da campanha: “[...] estão preocupados com o lince? Nós resolvemos! Vamos aí aos bairros da cidade, pegamos nas gatas todas e mandamo-las para a Malcata, e assim salva-se o lince...”. O simples facto da campanha ter sido falada num programa popular mostra o êxito desta acção, que ainda hoje é lembrada, sendo por isso um exemplo da necessidade do “propaganda populus” para surtir efeito.

 

in 60 anos pela Natureza em Portugal

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