Naufrágios ao largo da costa Oeste

Fotografia cedida pelo munícipio de Óbidos.

 

 

O Centro Social e Recreativo da Foz do Arelho, nas Caldas da Rainha, acolheu o encontro “No fundo do nosso mar – Naufrágios ao largo da costa Oeste”, uma iniciativa do Centro de Interpretação da Lagoa de Óbidos.


A curiosidade despertada pelo tema, numa região tão rica em episódios históricos, factos, histórias e estórias em torno dos naufrágios, lotou a sala num momento de partilha entre investigadores, comunidade local e cidadãos de concelhos vizinhos, num debate que se prolongaria pela noite dentro.

 

 

 

Os primeiros registos de naufrágios na costa Oeste no troço entre Nazaré-Peniche remontam ao ano de 1764, quando o “Reine de Anges”, um bergantim francês, naufragou na foz da Lagoa de Óbidos. Entre esse episódio e o do naufrágio de um vapor italiano em 1923, no lado de Óbidos, há já registo de mais de três centenas de outros naufrágios.

 

O que os terá causado?
Haverá um denominador comum entre estes naufrágios?

 

A oradora convidada Maria da Conceição Freitas, professora do Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, ajudou-nos a dar um passo atrás no tempo e na história, para compreendermos como a dinâmica costeira, designadamente as ondas, correntes e o transporte de sedimentos, pode ter contribuído para um tão elevado número de acidentes.

 

Fatores que, juntamente com o desconhecimento da carta dos fundos, muito rochosos, da sinuosa linha de costa e eventos atmosféricos adversos à navegação, terão conduzido à perda de controlo pelos capitães destes navios, e levando-os ao afundamento.


Sabe-se que muitos destes naufrágios aconteceram junto à linha de costa, não só pelos destroços encontrados, alguns muito recentemente, como também pelos registos escritos da altura.


Dos vários naufrágios conhecidos, como o Nuestra Señora de Begoña em 1787, o SS Mesopotâmia em 1878, o SS Lottie em 1883, entre muitos outros, o SS Roumania foi aquele que mais se destacou pela tragédia que se sucedeu ao seu encalhamento. A bordo estima-se que seguiam entre 115 a 122 pessoas, entre passageiros e tripulantes, das quais apenas sobreviveram dois passageiros e sete tripulantes.

 

 

 

 

 

O tema dos naufrágios é um assunto em desenvolvimento e alvo de investigação por diversas entidades e individuais, com os mais distintos percursos académicos, profissionais e pessoais. Neste encontro, o Centro de Interpretação da Lagoa de Óbidos reuniu alguns dos que mais têm contribuído para o levantamento de informação e, como tal, para a investigação e conhecimento dos naufrágios ao largo da nossa costa Oeste.

 

 

Oradores convidados: Maria da Conceição Freitas; Dina Matias; Sérgio Pinheiro; Jean-Yves Blot e Miguel de Azevedo e Castro (da esquerda para a direita).

 

 

Dina Matias e Sérgio Pinheiro, do Serviço de Arqueologia do município de Óbidos, partilharam com a plateia o trabalho que têm em construção sobre os naufrágios decorridos entre a Lagoa de Óbidos e o limite sul do concelho de Óbidos. Uma investigação para a qual tem contribuído, entre outra, informação reunida junto de fontes como a Direção Geral do Património Cultural e Diários do Governo que, pelo menos desde 1823, passaram a incluir, por obrigatoriedade legal, registo dos naufrágios ocorridos.


Pensando nos que não puderam participar neste encontro, a informação reunida e partilhada por estes arqueológos foi entretanto disponibilizada pelo município de Óbidos em www.cm-obidos.pt/cilonaufragios2020 para consulta por todos os interessados.

 

 

 

 

Num segundo momento de informação e debate, Jean-Yves Blot, arqueólogo marinho que se tem dedicado ao estudo dos naufrágios costeiros, explicou-nos diferenças e deu-nos pistas deixadas pela ‘explosão’ de variações nos materiais dos navios afundados, desde a madeira, ao aço que, mesmo sendo mais duro, desaparece rapidamente, ao ferro fundido, mais resistente à corrosão marinha.


Jean-Yves Blot exaltou o trabalho feito por investigadores de outras áreas profissionais, como é o caso de Luís Fonseca, médico, e da sua esposa Susana Maia, ambos promotores do património cultural do litoral, e cujo trabalho de décadas de investigação considera ser comparável ao dos inventários nacionais.


Lembrou ainda a importância da partilha desse conhecimento junto do público, destacando a relevância do saber local, mantido pelas famílias ao longo das gerações.


Este arqueólogo, para quem a Foz do Arelho é um “cemitério de navios”, tem, por isso, dedicado algum do seu tempo a reunir informações junto das populações locais e levou para o encontro uma das histórias que lhe fora contada por um habitante da Foz do Arelho no final dos anos 70:


Já com 78 anos de idade, e desconhecendo o nome do navio, este homem contou que a sua mãe aos 12 anos de idade presenciou um grande naufrágio, com a praia cheia de fardos e (na água) a cabeça de um preto com um anel de ouro. No meio da rebentação agarrou um fardo, feliz por se salvar, mas numa última onda deu um grito de terror porque sabia que ia morrer.


Falava assim de um episódio de assassinato para roubo daquele pertence. Temas sensíveis, aos quais se juntam histórias de profanação de cadáveres e episódios de pirataria ao largo da costa. Histórias também elas partilhadas por vários elementos na plateia.


A última intervenção deste encontro foi dinamizada por Miguel Azevedo e Castro da Intertidal - Natureza e Aventura. Natural da Foz do Arelho, Miguel sempre se dedicou à recolha de objetos e histórias junto dos seus conterrâneos. Praticante de mergulho, desde criança que sempre demonstrou um especial fascínio pelo “barco da Aberta” – a embarcação que se encontra naufragada na aberta da Lagoa de Óbidos, forma como é conhecida a zona de ligação desta lagoa costeira ao mar.


Durante muito tempo, Miguel acreditou poder tratar-se do SS Roumania. Motivo que o levou a procurar e reunir mais informações sobre este navio, as quais partilhou com os presentes.

 

 


O barco da Aberta da Lagoa de Óbidos. Fotografia: Intertidal.

 

 

Com a informação científica disponível, com a descoberta de novas informações e também com a partilha do conhecimento das pessoas locais, vai-se estando cada vez mais próximo de saber o que realmente aconteceu com esta e com outras embarcações naufragadas ao longo da costa Oeste.


O juntar das “peças” tem permitido a estes investigadores e curiosos identificar com maior precisão os vários destroços que jazem no fundo do mar e concluir sobre a sua origem e história. Esta partilha de informação e constante atualização é de tamanha importância que as informações trocadas entre os oradores e as 60 pessoas da plateia na noite deste encontro, permitiu a alguns destes convidados avançar nas suas investigações.

 

Como resultado, o Centro de Interpretação da Lagoa de Óbidos e a Intertidal juntam-se agora para a promoção de um novo encontro sobre o tema, com novos dados e com o objetivo de continuar a recolher elementos que permitam seguir este caminho do conhecimento e da informação.


Com data inicialmente prevista para o passado dia 15 de março, na povoação do Vau, no concelho de Óbidos, esta segunda edição do evento “No fundo do nosso mar” precisou ser agora adiada para data ainda incerta, devido ao flagelo global que atravessamos.
A organização reforça, contudo, que o evento se manterá, proporcionando a todos um bom momento de partilha e convívio assim que as condições o permitirem novamente.

 

Até lá, a equipa da LPN no Centro de Interpretação da Lagoa de Óbidos agradece a todos os que já se haviam inscrito nesta iniciativa pela sua compreensão, e apela para que sigam as recomendações das entidades e autoridades nacionais, mantendo-se em segurança.


O Centro de Interpretação da Lagoa de Óbidos manifesta ainda o seu agradecimento a todos os palestrantes pela participação nesta atividade e a todos aqueles que neste fim de dia se juntaram a nós. Um especial agradecimento ao Centro Social e Recreativo da Foz do Arelho, na pessoa do José Quaresma, pela cedência de um espaço para este encontro.

 

 

Notas:
A pedido da participante Margarida Bom, partilhamos a referência da pertinente publicação por si mencionada neste evento: “A costa dos tesouros”, de Mónica Bello | Temas e Debates, Círculo de Leitores.


Dina Matias, arqueóloga convidada, pediu que fizéssemos uma correção relativamente a uma informação que passou no dia do evento, quando se falava do carácter das pessoas que viviam à custa dos naufrágios. Na altura, disse que o posto fiscal de Vale de Janelas fora criado em 1843, mas na verdade foi criado muito depois em 1887; ali próximo, o posto fiscal da Foz do Arelho é que foi criado em 1843. Fica pois esclarecida a confusão de datas.

 

 

 

Para mais informações sobre o Centro de Interpretação para a Lagoa de Óbidos, clique aqui.

 

 

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