Navegando a bordo do Bote Leão pelo Estuário do Tejo

Fotografia de Luís Cardoso

 

Navegar pelo Tejo transporta-nos para um diálogo entre as atividades humanas e a natureza. Um diálogo que por vezes não tem sido o melhor mas que também realça a capacidade de depuração e resiliência da natureza. O seu enquadramento geográfico, a sua diversidade de paisagens, a sua produtividade biológica, fauna e solos férteis possibilitaram uma ocupação humana desde o Paleolítico tornando-se na região mais povoada do País e ao mesmo tempo um paraíso para as aves aquáticas. Observar o voo de uma garça real e os bandos dos flamingos junto aos sapais ao largo das margens da reserva natural do estuário do Tejo à espera de serem fotografados nesta viagem, transporta-nos para um cenário de vida sempre renovada captando um olhar cada vez mais consciente e determinado para a sua conservação. Em cada viagem no estuário do Tejo e em cada época, uma percepção diferente, uma vivência que urge repetir e que nos traz à memória a sua beleza.

 

Era o dia da saída no estuário do tejo e uma clara luz matutina entrava pela janela esconsa do automóvel prenunciando um dia de sol radioso e quente. Quando se planeou esta saída, Portugal vinha a ter um Verão frio e ventoso, todavia aquele dia prometia uma saída tranquilizadora para a navegação possibilitando uma viagem na grandiosidade e bela paisagem pelo Estuário do Tejo.

 


A vila de Alcochete porta de entrada da reserva Natural do Estuário do Tejo dava-nos as boas vindas para mais uma saída organizada pela LPN integrada também numa ação de formação de professor do Centro de Formação prof. João Soares a bordo de um barco típico do Tejo - a fragata Bote Leão pertencente ao município de Alcochete.

 


Moldados de curiosidade e movidos por um apelo de conhecer esse belo repositório dinâmico de belas paisagens, recheado de valores culturais e naturais, lá partimos navegando pelo Tejo pela sua suave ondulação. O trajeto efetuado desde o cais de Alcochete para montante seria pelas margens da vila junto ao largo da Misericórdia, pela margem esquerda até à Ribeira das Enguias e depois para jusante passando junto às Salinas do samouco, ponte Vasco da Gama até ao nosso destino de volta ao cais.

 


Observando a paisagem multifacetada que decorria da viagem junto ao rio Tejo e a assimetria geomorfológica das duas margens do estuário possibilitava conhecer a sua história. Por essa razão, coube ao professor destacado na LPN efetuar uma breve introdução de natureza geológica, geomorfológica e descrição de ameaças ao seu equilíbrio dinâmico. Destacou-se os fatores tectónicos que condicionaram a evolução do seu traçado atual mas também se salientou a elevada produtividade biológica do estuário que possibilita ser uma zona extremamente rica em seres vivos em especial de avifauna aquática o que a torna uma das zonas húmidas mais importantes da Europa. No entanto, a bacia hidrográfica do Tejo está sujeita a grandes pressões ambientais e socioeconómicas humanas e é preciso proteger todas as regiões que a água do Tejo atravessa. A esse respeito foram enumeradas algumas das ameaças ambientais mencionadas no relatório de acompanhamento sobre poluição no rio Tejo da Agência Portuguesa do Ambiente e do Plano de Ordenamento do Estuário do Tejo realçando-se a necessidade de uma mobilização consciente em Associações, nomeadamente na LPN que é aliás membro do Movimento Pró-Tejo – um movimento de cidadania em defesa do Tejo.

 

Fotografia de Luís Cardoso

 

Enriquecendo a conversa que se ia processando destacavam-se as intervenções do professor Eugénio Sequeira através da experiência de investigação efetuada com os solos dos sapais, salientando a sua grande importância ecológica para além do conhecimento que tinha sobre as pressões resultantes no estuário e a luta que a LPN tem tido nas suas múltiplas intervenções de defesa e conservação da Natureza. Entretanto, a todo o momento e mesmo antes de avistarmos as aves aquáticas do Estuário, já o dinamizador Carlos Pacheco, biólogo especialista em ornitologia nos alertava para a observação das garças ou dos flamingos e outras espécies expressando toda a riqueza em aves com que nos íamos deparando. Note-se que tivemos o privilégio na saída de observarmos uma garça vermelha - Ardea purpurea de mais difícil observação com o estatuto de conservação em perigo, para além das outras duas espécies de garças.

 

 

Fotografia de Luís Cardoso

 

Embora não fosse a época de Inverno onde se ultrapassa largamente as 20000 aves aquáticas o que a determina como zona húmida de importância internacional critério da Convenção de Berna de 19 de julho de 1979, transportado para a legislação nacional a 23 de julho de 1981.

 

E lá íamos num “caudal” de diálogos científicos, culturais e experienciais sobre o Estuário que os vários participantes expressavam em entradas de maré transportando-nos para a complexidade que o estuário reúne. Destacavam-se a esse respeito, as intervenções da Cristina Girão Vieira e do Miguel Geraldes.

 

 

Passando a ponte Vasco da Gama e alertados para o impacte ambiental causado no solo resultante da apanha de bivalves no estuário do tejo, realçou-se nesse âmbito o projeto EcoEcofilm_Shellfishing da LPN, observando-se os mergulhadores na apanha da ameijoa japonesa (espécie invasora bivalve oriunda do Indo-Pacífico). O professor José Lino Costa do MARE – FCUL nessa altura interveio reforçando a importância ecológica do estuário do tejo no cruzamento de duas áreas biogeográficas, dos sapais mencionando a importância das espécies de vegetais que retêm os metais pesados constituindo zonas de nursery para muitras espécies da fauna e a sua importância como zona de passagem para as espécies migradoras fundamentando a necessidade da sua conservação.

 

 

Fotografia de Andreia Monteiro

 

E quando as velas do Barco bote Leão desfraldaram ao sabor do vento fomos transportados para a dimensão da tranquilidade observando as aves a descansarem, enquanto outras iam voando á medida que a maré enchia com destino às Salinas do Samouco onde depois da parte da tarde alguns participantes iriam efetuar um percurso pedestre.

 


Até que o nosso barco atracou novamente no cais de Alcochete mas com a certeza porém que a nossa viagem não acabou nas nossas memórias, pois esta saída constituiu uma verdadeira tertúlia agradável de conhecimento desfrutado num cenário de inegável beleza.

 

 

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