Neste inverno destruidor, os abutres-pretos ganharam mais plataformas-ninho e ninhos mais seguros

Os impactos dos episódios catastróficos que assolaram o país nas últimas semanas sobre os ninhos de abutre-preto ainda estão a ser avaliados nalgumas colónias. No entanto, este outono e inverno, as equipas LIFE Aegypius Return construíram 26 novas plataformas-ninho artificiais e reforçaram 18 ninhos existentes, em Portugal e em Espanha.

 

Azinheira caída no Tejo Internacional durante a tempestade Kristin, em janeiro de 2026. ©SPEA/Paulo Monteiro

 

 

 

Três meses de pausa na reprodução

O abutre-preto (Aegypius monachus), a maior ave de rapina da Europa, apresenta também uma das épocas de reprodução mais alargadas, entre a nossa fauna. Os primeiros comportamentos de procura por local de nidificação começam geralmente em janeiro, havendo, por vezes, alguns registos ainda em dezembro. Os meses vão passando entre as cortes, cópulas, posturas, incubação, eclosão e cuidados parentais, e só aproximadamente em setembro é que as crias se tornam (relativamente) autónomas. São nove meses dedicados à reprodução, em cada ano. Durante esse período, qualquer perturbação junto ao ninho pode ter impactos negativos na reprodução, ou mesmo causar a sua falha.

 

Assim, os escassos três meses de intervalo entre épocas de reprodução são o único período em que as equipas LIFE Aegypius Return e o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) podem vistoriar os ninhos de abutre-preto e reforçar as estruturas que necessitam de manutenção, sem perturbar as aves.

 

Inverno tempestuoso

Este inverno não tem dado tréguas, com sucessivas tempestades com ventos ciclónicos, chuva intensa e cheias que têm afetado principalmente as zonas oeste e centro do país.

 

O interior do país, e a faixa raiana em particular, tem sido menos impactado, no entanto, os danos sobre as regiões de nidificação do abutre-preto ainda estão a ser avaliados. As tempestades em áreas de reprodução causam a queda ou colapso de árvores com ninhos, e muitas vezes estes podem ser destruídos em plena época de reprodução, esmagando o ovo, a cria, ou mesmo os adultos. Ainda que o ninho se mantenha íntegro, um episódio intenso de chuva, vento e baixas temperaturas podem causar falhas na reprodução (por exemplo, por morte da cria), com consequências no efetivo populacional e no sucesso reprodutor desse ano. A título de exemplo, os dados da reprodução do abutre-preto na Serra da Malcata e em Sierra de Gata y Valle de las Pilas, Espanha, em 2025, foram severamente impactados pelo mau tempo registado no início desse ano.

 

 

 

Imagens de abutres-pretos mortos por queda ou colapso do ninho. À esquerda: dois adultos; à direita: uma cria. ©LPN/Eduardo Santos

 

 

 

Novas plataformas e ninhos mais seguros

Desde o início do projeto LIFE Aegypius Return, os parceiros já construíram 89 novas plataformas-ninho e fizeram a reconstrução ou manutenção de 73 ninhos existentes, em Portugal e em Espanha. Estes números representam um pouco mais de 70% dos objetivos para esta tarefa, que será executada consoante as necessidades de cada ano, até 2027.

 

Nas últimas semanas, as equipas LIFE Aegypius Return têm estado no terreno a verificar todos os ninhos conhecidos e concluíram diversas intervenções nas áreas do projeto.

 

Douro Internacional

Depois do trágico incêndio de agosto passado, a Palombar (em colaboração com o Grupo de Intervención en Altura (GIAM) dos Agentes Forestales da Comunidad de Madrid) reconstruiu quatro plataformas-ninho afetadas pelo fogo, fez a manutenção em mais três e construiu três novas plataformas-ninho. Estes trabalhos, a par do restauro do habitat e do reforço alimentar – entre outras medidas já implementadas no âmbito do plano de recuperação pós-incendio – pretendem repor alguma normalidade na paisagem, incentivando os abutres-pretos a manter a reprodução nesta frágil e isolada colónia.

 

 

Ninho artificial de abutre-preto construído na área da colónia do Douro Internacional ©Palombar

 

 

 

Vale do Coa

O Vale do Coa recebeu pela primeira vez seis novas plataformas-ninho, como forma de encorajar a reprodução do abutre-preto nesta região, expandindo a colónia do Douro e promovendo a conetividade entre a colónia do Douro e a da Serra da Malcata. Estes trabalhos estiveram a cargo do parceiro Faia Brava - Associação de Conservação da Natureza, e contaram com o apoio de Samuel Infante (técnico devidamente habilitado e experiente em trabalhos em altura). A instalação destas plataformas foi autorizada pelo ICNF, cujos Vigilantes da Natureza auxiliarão na monitorização da eventual ocupação por abutres-pretos.

 

 

 

Instalação de novas plataformas-ninho no Vale do Coa. ©Faia Brava

 

 

Tejo Internacional

Também o Parque Natural do Tejo Internacional beneficia agora de duas novas plataformas-ninho que substituem ninhos naturais recentemente ocupados e que caíram no início de2025, as quais foram instaladas em terrenos da Quercus - Associação Nacional de Conservação da Natureza e da Herdade da Cubeira. Estas plataformas mimetizam os ninhos naturais, estando construídas no topo de azinheiras e assentes sobre um reforçado apoio metálico. Os trabalhos estiveram a cargo do parceiro Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves - SPEA, tendo contado com o apoio de Samuel Infante e dos Vigilantes da Natureza do ICNF – Direção Regional do Centro.

 

 

Nova plataforma-ninho construída no Tejo Internacional. Junto ao solo é possível observar o anterior ninho natural, colapsado. ©Paulo Monteiro/SPEA

 

 

 

Herdade da Contenda

A vistoria outonal aos ninhos da Herdade da Contenda revelou a necessidade de reconstrução de quatro ninhos: um do lado português e três na Contienda espanhola. Os trabalhos estiveram a cargo do parceiro LPN, tendo contado com o apoio do biólogo Carlos Pacheco (devidamente acreditado e experiente em trabalhos em altura). O trabalho de campo, feito antes das tempestades, rendeu ainda uma importante descoberta: um novo ninho identificado do lado espanhol!

 

A colónia da Herdade da Contenda, a par com a da Vidigueira/Portel, poderá ter sido mais severamente fustigada pelas tempestades, mas as condições meteorológicas ainda não permitiram concluir a aferição de danos.

 

Esta colónia transfronteiriça beneficia de uma cooperação entre entidades portuguesas (Herdade da Contenda. E.M., Liga para a Protecção da Natureza – LPN e ICNF – DR Alentejo) e espanholas (vários organismos da Junta de Andaluzia) na sua monitorização e proteção.

 

 

Trabalhos em altura, para manutenção de ninhos de abutre-preto, na Herdade da Contenda. ©LPN

 

 

 

Sierra de Gata y Valle de las Pilas

Em Espanha, este inverno os trabalhos foram concentrados na Zona de Proteção Especial ‘Sierra de Gata y Vale de Pilas’, onde muitas das árvores que arderam no incêndio de 2023 acabaram por cair, recentemente, devido aos ventos fortes. Os trabalhos estiveram a cargo do parceiro Fundación Naturaleza y Hombre, com apoio de Samuel Infante, e foram construídas quinze novas plataformas-ninho e reforçada a estrutura em sete. Todos estes trabalhos requerem autorização das autoridades espanholas, neste caso, da Junta de Extremadura.

 

 

Trabalhos em altura, para construção de plataformas-ninho na Sierra de Gata. ©FNYH

 

 

Todos estes trabalhos são de crucial importância para aumentar a segurança dos ninhos, e assim contribuir para o sucesso reprodutor, manter ou expandir as áreas de reprodução do abutre-preto e promover a conetividade entre colónias. Os trabalhos prosseguem agora com a monitorização da nova época de reprodução, que já se iniciou.

 

Os parceiros LIFE Aegypius Return agradecem a todas as pessoas e entidades que colaboram nos trabalhos de construção e manutenção de plataformas-ninhos, desde o trabalho legal e administrativo ao trabalho de campo.

 

Os parceiros expressam ainda as suas condolências por todas as vítimas mortais, e solidarizam-se com todas as pessoas e instituições afetadas pelos eventos meteorológicos extremos deste inverno, em Portugal e Espanha.

 

 

Sobre o projeto LIFE Aegypius Return

 

 

O projeto LIFE Aegypius Return é cofinanciado pelo programa LIFE da União Europeia. O seu sucesso depende do envolvimento de todos os stakeholders relevantes, e da colaboração dos parceiros, a Vulture Conservation Foundation (VCF), beneficiário coordenador, e os parceiros locais Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural, Herdade da Contenda, Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, Liga para a Protecção da Natureza, Associação Transumância e Natureza, Fundación Naturaleza y Hombre, Guarda Nacional Republicana e Associação Nacional de Proprietários Rurais e Associação Nacional de Proprietários Rurais Gestão Cinegética e Biodiversidade.

 

 

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