Os desafios para a biodiversidade são nossos

Todos contamos, tanto nas obrigações como no direito ao bem-estar e acesso a qualidade ambiental, recursos alimentares e matérias-primas.

 

 

A expressão “desafios para a biodiversidade” é curiosa. Promove uma sensação de distanciamento, dando à biodiversidade o estatuto de entidade que tem desafios, quando na verdade os desafios são nossos, da humanidade. A biodiversidade, que difere de ecossistema para ecossistema, mantém constante o seu papel vital na manutenção das dinâmicas naturais, para que os ciclos se façam e para que a nossa própria vida se mantenha como a conhecemos.


Perdemos todos sempre que um rio é impedido de percorrer o seu caminho, e nós com ele, numa adaptação secular às alterações de paisagem natural da nascente até ao mar. Perdemos sempre que lançamos resíduos poluentes para o mar. Mas não basta removê-los. Não basta limpar. É preciso saber o que fazer com os plásticos que, respeitando as expectativas da sociedade atual quanto à sua resistência e durabilidade, aliadas a baixos custos, acabam por gerar uma fatura para o planeta tão elevada que ainda hoje não sabemos como pagar a fatura.


Perdemos sempre que exploramos recursos de forma insustentável para alimentar um sistema económico virtual. Pescamos o que comemos, ou comemos o que pescamos? Quando falamos de sobrepesca, não basta que os planos de gestão sejam construídos na base de compromisso, permitindo depois que se mantenham frotas e práticas que continuam a rumar para a insustentabilidade e que todos sabemos que têm de mudar.


Perdemos sempre que protegemos áreas para proteger agendas. As áreas protegidas – marinhas ou não – têm de ser desenhadas com o objetivo de proteger o património natural. Têm de ser construídas com uma perceção clara de objetivos de conservação. Não podem ser desenhadas numa perspetiva de gestão de atividades humanas, pois estas têm sempre de ser geridas e regulamentadas a priori. Dentro dos limites da proteção, a regra deve ser a exclusão de atividades impactantes.


Embora este discurso pareça negativista e derrotista, rima na perfeição com o facto de ser realista. É uma chamada de atenção enquanto estamos a tempo.


Porque não manter e até melhorar a contribuição essencial e benéfica da Natureza para assegurarmos uma boa qualidade de vida para todos? Não é aliás na contribuição da natureza que devemos mexer, mas sim na nossa responsabilidade, individual e coletiva de reduzir os nossos impactos de forma coerente. O lixo que produzimos, não desaparece se o mandarmos para países menos ricos sob a forma de mercado de carbono. Não foi esse o objetivo inicial desse mercado. Não basta melhorarmos a qualidade dos nossos ecossistemas se continuarmos a ter um impacto destrutivo noutros locais. Longe da vista, longe do coração? É este o sentimento que deve imperar? Não. Os objetivos de redução de impactos são globais, mas o seu sucesso depende de ações locais. É esse o balanço do qual todos devemos fazer parte. Todos contamos, tanto nas obrigações como no direito ao bem-estar e acesso a qualidade ambiental, recursos alimentares e matérias-primas. Os desafios são de todos.


O que falta afinal? Como fazemos este click? Já são públicos e mediáticos os problemas como os plásticos e microplásticos por todo o meio marinho, nas cadeias alimentares e como causa direta de morte de baleias, golfinhos e tartarugas, entre tanto outros organismos. São públicos os pareceres científicos que pedem o fecho de pescarias que põem em risco a sustentabilidade e integridade de stocks marinhos. São também conhecidos os argumentos que tentam excluir atividades económicas com impactos incompatíveis com a conservação de ecossistemas.


O problema parece estar na aplicação efetiva do que se advoga. À falta de vontade política alia-se uma alienação e quase desresponsabilização do cidadão no que é, ou que devia ser o seu papel na conservação do planeta. Muitas vezes não por opção ou responsabilidade própria, mas porque não lhe é dado a perceber a importância das suas ações e atitudes. Não lhe é dado a perceber que a perda de biodiversidade é o maior problema que enfrentamos e que a solução começa em si mesmo. Não lhe é dado a perceber que ser menos insustentável não chega. Não lhe é dado a perceber que muitas vezes se tapa o sol com a peneira em matéria de ambiente. Estamos aquém da “revolução” social necessária à saúde do planeta e das gerações futuras.


É preciso resistir às fatalidades economicistas de que não nos resta outro destino que não o da exploração cega do nosso património natural, sendo que nunca é clarificado em que medida as gerações futuras serão beneficiadas por um sistema que destrói, delapida e loteia o nosso legado ecossistémico. É preciso saber que podemos mudar, podemos contribuir coletivamente para formas de vida sustentáveis, com menos impacto, com menos desperdício. É preciso de uma vez por todas uma responsabilização individual sobre o bem-estar coletivo.


Parafraseando Luís Cancela da Fonseca, “a biodiversidade, juntamente com os elementos notáveis da geologia, geomorfologia, paleontologia e paisagem devem ser considerados valores patrimoniais. O reconhecimento e a consciencialização de que, tal como o nosso património histórico e cultural, este património constitui também uma riqueza nacional, com valor não só em termos científicos, éticos e ecológicos, mas também sob o ponto de vista socioeconómico, estético, recreativo e cultural, torna-se na primeira atitude que importa adotar coletivamente rumo à almejada sustentabilidade”.

 

 

Lisboa, 29 de junho de 2020

 

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