Os segredos da Tapada das Necessidades

Todos nós gostamos de visitar um jardim ou um parque. A simples vista de uma planta transmite calma e relaxamento. A calma que nos invade na sua companhia é o eco da nossa percepção ancestral de que, sem as plantas, a vida para os animais, incluindo a nossa espécie, não seria possível.


Muitas das memórias de infância das populações urbanas aconteceram nos espaços verdes das cidades para além dos inúmeros benefícios têm para o incremento da qualidade de vida das populações. Torna-se assim crucial que exista a manutenção adequada dos espaços verdes urbanos e se amplie mesmo as suas áreas não se “ferindo a sensibilidade e a inteligência das plantas” resultante das pressões humanas.


 O Jardim da Tapada das Necessidades apresenta um grande património natural cultural e natura. É um verdadeiro laboratório natural para as escolas e público em geral, porém apesar da sua riqueza ambiental continua praticamente desconhecido pelos lisboetas. Foi esse um dos objetivos de mais uma ação da LPN em ambiente urbano – o de aproximar os cidadãos e incrementar a educação ambiental nos espaços verdes das cidades salientando a importância da conservação da biodiversidade urbana.

 

 

Apresentação pelo Eng.º Rui Queirós

 

 

Numa tarde luminosa, a LPN organizou uma das ações inseridas no plano de formação de professores e de sensibilização para os associados e cidadãos em geral. O local escolhido foi a Tapada das Necessidades inserido num conjunto de atividades da LPN que tem como finalidade a divulgação da biodiversidade urbana. Situada na freguesia dos Prazeres, entre Alcântara e a Lapa, este local é um tesouro de história e de biodiversidade num espaço de inegável valor arquitetónico.


No local de encontro situado nas imediações da Tapada das Necessidades, no miradouro, “ainda” se obtém uma excelente vista sobre a zona ocidental de Lisboa, a ponte sobre o Tejo e a outra margem. Diga-se “ainda” porque a vista agora tem uma diferente perspetiva sobre o estuário. Outrora a vista era magnífica pois encontra-se parcialmente tapada como resultado de uma intervenção arquitetónica recente resultante da construção de um hospital.


Embora o ambiente tranquilo e agradável usual no miradouro estivesse a ter alguma perturbação pelo ruído da poda das árvores na Tapada, isso não impediu a breve apresentação do professor destacado na LPN que efetuou uma breve introdução à Geologia de Lisboa. Por momentos sentíamo-nos a “passear por um antigo Mar em lisboa” como testemunham os fósseis de rudistas na rocha no Chafariz das Necessidades. No local existia uma antiga pedreira que serviu de matéria-prima de cantaria Lioz para o valioso património construído, como seja o chafariz das Necessidades e o todo o conjunto do Palácio das Necessidades (que foi a única residência real que sobreviveu ao terramoto de 1755) classificado como Imóvel de Interesse Público.

 

Introdução e Descrição Geológica do local. Fotografia de Inês Nunes.

 

 

Seguidamente, o Eng.º Rui Queirós “transportou-nos” historicamente para o local, mencionando, entre outras descrições, que a construção da Tapada das Necessidades remonta a 1742, tendo-se erguido na sequência de um voto prestado a Nossa Senhora das Necessidades, em 1742, por D. João V.

 

Eng.º Rui Queirós a descrever a história do local. Fotografia de Inês Nunes.

 

 

Caminhando para oeste, desvendando o segredo desconhecido por muitos dos participantes encontrava-se a Tapada das Necessidades. Ao entrarmos felizmente o ruído proveniente da serra para podar as árvores estava a acabar pelo que nos permitiu desfrutar do ambiente aprazível outrora frequentado pelos monarcas, mas agora aberta ao público em geral.

 

 

 

De imediato a calma invadiu-nos na companhia das árvores e plantas, algumas raras (vindas das Américas, Ásia e África). Embora um pouco mais de 90% das espécies da coleção botânica de porte arbórea se tivessem perdido do jardim da Tapada das Necessidades do ano de 1841, foram substituídas por outras tantas espécies ao longo dos anos até à atualidade, sendo que do levantamento arbóreo da Tapada efetuado em 2012 foram inventariadas cerca de 3348 exemplares, correspondendo a 102 espécies arbóreas (Rosa, M. 2013).

 

Fotografia de Inês Nunes.

 

 

Segundo parece Edouard Manet visitou esta Tapada em 1859, e diz-se que foi ali que se inspirou para pintar a sua famosa obra “Le déjeuner sur l`herbe”, agora exposta no musée d`Órsay em Paris.

 

 

 

Subindo pelo jardim, guiados pelo Eng.º Rui Queirós ia-se descrevendo as diferentes espécies de árvores e arbustos, observando os lagos com patos e estátuas. Por entre medronheiros, alfarrobeiras e zambujeiros parámos a observar uma planta que se torna uma verdadeira curiosidade pois embora apresente um porte arbóreo e um tronco grosso, ele é esponjoso e sem lenho. Trata-se da Phitollaca dioica ou bela-sombra que julgávamos ser uma árvore mas que se trata de uma planta herbácea. De repente, quando o Eng.º Rui Queirós descrevia as caraterísticas da planta, símbolo da cultura riograndense, uruguaia e argentina, surgiram diversas crianças e que escutavam a explicação ao mesmo tempo que brincavam escondendo-se no seu tronco.

 

Bela – Sombra (Phytolacca dioica) – espécie de planta herbácea de grande porte.

 

 

Fotografias de Inês Nunes.

 

 

Guiados pelo Rui Queirós  neste jardim romântico que pertencia ao Convento da Congregação do Oratório avistámos a Estufa Circular mandada construir por D. Pedro V especialmente para a sua esposa. No tempo de D. Carlos I construiu-se o campo de ténis (o 1º no país) e a Casa do Regalo situada no topo no meio da frondosa mata, hoje algo desordenada, cerca do antigo Picadeiro destinado a estúdio de pintura da rainha D. Amélia.


Depois da República a Casa do Regalo foi cedida a vários artistas plásticos para nela instalarem os seus estúdios tendo sido mais recentemente o local do gabinete do ex-Presidente da República Jorge Sampaio.

 

 

 

 

Mais acima, de repente somos surpreendidos com a existência de um espaço apreciável constituído por imensos catos e que segundo consta se trata de um jardim de catos dos mais antigos da Europa. No entanto a nossa consciência colectiva é de repente perturbada… observavam-se alguns catos murchos e doentes. Até os catos estavam a murchar… será que este conjunto de plantas que embora reúne um excelente conjunto de adaptações de resistência a ambientes áridos e secos desenvolvidas ao longo da sua evolução, seja mais um provável testemunho das alterações climatéricas e da diminuição de pluviosidade nos últimos anos em Lisboa?

 

 

 

 

Mas no meio de tanta rica vegetação as surpresas não acabavam, as alfarrobeiras ali tinham um porte elevado e apresentavam catos trepadores. Serão estes uns catos mandriões que se agarraram ao tronco das alfarrobeiras e tomaram o atalho para chegar à luz com menos dispêndio de energia?

 

Saímos com a sensação que embora a grande relevância histórica e ambiental que o jardim tem, são evidentes sinais de degradação do património edificado bem como de sinais de “stress hídrico” por parte da vegetação.


Lançamos o desafio de uma maior manutenção e requalificação deste espaço, no qual todos nós temos uma responsabilidade ética indo ao encontro dos objetivos pelo qual a Câmara Municipal de Lisboa se comprometeu na conservação dos espaços verdes urbanos, aumentando a Biodiversidade urbana em 20% até 2020.


Para além de desempenhar uma importante função cultural, este espaço verde urbano apresenta um elevado valor  didático. Para além do desempenho de funções de lazer, recreio e de interesse estético torna-se crucial o desenvolvimento de ações que liguem este espaço aos cidadãos, como por exemplo o incremento de visitas guiadas, e de ações de educação ambiental que consideramos serem de fundamental importância para o bem estar e melhoria da qualidade de vida da população urbana.


E após esta saída neste espaço verde alguns professores puderam constatar as potencialidades que este local possui para algumas das suas potenciais ações educativas com os seus alunos. Saímos deste local desejando vistá-lo novamente noutro dia. Essa é a finalidade que desejamos, dar a conhecer os espaços verdes urbanos, não só pelas funções ambientais que desempenham, mas também pelo seu valor educativo de utilização que contribuiem para que as ações da LPN sejam sequenciais.

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