Pequenas joias da ribeira

Ao longo dos últimos meses o Centro de Interpretação para a Lagoa de Óbidos tem vindo a dar a conhecer a biodiversidade da Lagoa de Óbidos. Com a chegada do verão, surge assim uma das melhores épocas para nos dedicarmos aos insetos!
Há muitas plantas floridas, a ausência de chuva permite-lhes outra liberdade de deslocação e o intenso calor que se faz sentir acelera-lhes o metabolismo, despoletando um grande frenesim pelos campos!

 

Mal conhecidos pelo público, que muitas vezes os vê como frágeis e agressivos, num passeio guiado pelo naturalista Paulo J. Lemos, tentámos mostrar que o fantástico mundo dos insetos vai muito além da leveza e das bonitas cores das borboletas e do doce mel das abelhas.

 

O percurso, que decorreu a 17 de agosto, teve início num pequeno vale sobranceiro à povoação do Nadadouro, no concelho de Caldas da Rainha, estendendo-se ao longo das margens de uma pequena ribeira que mal serpenteia por parcelas cultivadas, pousios, juncais e sapal.

 

 

 

O curso de água é permanente, nasce em plena povoação rural coincidindo com uma fonte emblemática, e culmina a cerca de um quilómetro na Lagoa de Óbidos, juntando-se a água bastante salobra.

 

Há um belo reduto de ameal a abrigar a nascente dos ventos dominantes, o solo é arenoso, permanentemente húmido, e de cor escura. Dele brotam sucessões de vegetação abundante, extremamente florífera, que abriga e nutre uma vasta lista de invertebrados e os seus predadores. À hora marcada, eram quase omnipresentes pequenas borboletas da família Lycaenidae ativas nas pequenas flores de pousios e valas, acompanhadas pelos zumbidos de dípteros, um grupo que inclui as moscas e os mosquitos, e de himenópteros, em que se incluem as abelhas e as vespas.

 

Nos recantos mais esquecidos pelas atividades humanas, tais como orlas, bermas, pântanos, taludes e núcleos arborizados, ocorrem plantas raras no panorama regional tais como o Milefólio, o Cardo-palustre, o Trevo-cervino, o Sêlo-de-salomão, a Samambaia-do-pântano, estando já desaparecida a Lisimáquia-efémera. Na vegetação à beira de água, pousam insetos vistosos e regionalmente raros como o Gaiteiro-negro, a borboleta-coma, e a Milesia craboniformis, uma grande mosca que imita o Vespão-europeu.

 

Um dos grandes destaques deste passeio foi a observação de um casal e algumas ninfas de Grilo-dos-caniçais (Natula averni), uma das espécies mais secretivas da fauna entomológica local. O Grilo-dos-caniçais foi redescoberto em anos recentes pela ciência, depois descrito para Portugal em 2016, e finalmente classificado como Vulnerável e em declínio pela União Internacional para a Conservação da Natureza, tal como o seu habitat o é. Também aqui, junto à Lagoa de Óbidos, o número de exemplares desta espécie parece refletir esta tendência.

 

Grilo-dos-caniçais (Natula averni).

 

 

A caminho da nascente, o grupo passou por jovens salgueiros, ‘berço’ de uma grande lagarta de Smerinthus ocellata, uma espécie cuja borboleta possui um voo muito rápido e grandes ‘olhos’ nas asas posteriores.
Mais adiante, chegava o momento de conhecer a espécie anunciada no cartaz do evento, a Esfinge-do-epilóbio - uma borboleta de hábitos crepusculares e que voa numa única geração anual. É um dos poucos insetos protegidos da fauna portuguesa (Diretiva Habitats), estando em regressão populacional na região. A lagarta ali encontrada, acabada de mudar para o último instar (de coloração castanha, mas fresca de tons verdes nos flancos), encontrava-se escondida entre caules de um grupo de Epilobium parviflorum, planta de que se alimenta com alguma preferência.

 


Lagarta de Esfinge-do-epilóbio (Proserpinus proserpina) e Epilobium parviflorum, planta da qual se alimenta.

 

 

A agricultura tradicional, no tipo de solo em questão, favorece o Epilóbio e, consequentemente, o inseto. Contudo, o envelhecimento da população rural e o progressivo abandono das hortas, fazem com que se venha a perder também esse excelente habitat alternativo. Antes, o povo mantinha pequenas valas e nichos de solo húmido descoberto, onde germinavam muitos Epilóbios, mas nos últimos anos quer Epilóbio, quer borboleta, passaram inevitavelmente de muito abundantes a relativamente escassos.

 

 

 

 

A morfologia da lagarta foi um sucesso para os participantes. O seu padrão recorda-nos uma pequena cobra-d'água, com um olho simulado na cauda (defesas eficazes contra predadores).

O passeio deixou para trás um dos remanescentes e vulneráveis ameais do concelho, rumando ao longo do vale ripícola no sentido jusante. Percorrendo antigos acessos rurais, prados húmidos, juncais e grupos de salgueiros, pisou zonas arborizadas diversificadas em terras mais secas, algumas ainda livres de espécies de produção florestal como o pinheiro e o eucalipto.

Nas pastagens lamacentas a estação avançada não proporcionou vislumbrar a floração do raro Oenanthe fistulosa, que na primavera atrai à margem imensos insetos polinizadores. Conseguiu-se contudo observar as formas adultas de dois ortópteros ripícolas: o herbívoro Paracinema tricolor bisignata (um gafanhoto), e o granívoro Conocephalus fuscus (um saltão), que terá nesta fase do ano devorado boa parte das sementes dos juncais onde ocorre em abundância. Observara-se também espécies de grilos, destacando-se os ripícolas Svercus palmetorum e o Pteronemobius heydenii, tendo sido este ultimo descrito pela primeira vez para Portugal em 2016, exatamente nas margens desta ribeira.

 

 


Gafanhoto Paracinema tricolor bisignata, uma espécie herbívora.

 

 

Saltão Conocephalus fuscus, uma espécie granívora.

 

 

 
Exemplares de Svercus palmetorum (à esquerda) e Pteronemobius heydenii (à direita), duas espécies de grilos típicos de zonas ripícolas.

 

 

Durante a maior parte do percurso, cada um dos participantes foi guia da sua própria capacidade de descoberta, e cada um partilhou os seus achados. A diversidade de invertebrados está dependente de todo o intrincado de troncos, caules, folhas, substratos, de combinações de humidade, de luz e de temperatura a micro-escala. Muitas das espécies estão também dependentes de ecologia a vasta escala, de mais do que um habitat, incluindo zonas de transição.

 

Ao atravessarem-se pequenas manchas de pinhal, cimeiras à várzea visitada, notam-se certas plantas espinhosas da família Asteraceae à beira trilho (Carlina spp.), que atingindo o fim do seu ciclo anual em pleno Verão, florescem em superfícies secas. Assim se diversificam recursos aos insetos nectarívoros, para além das terras húmidas.


Curiosamente, nesse mesmo ambiente o grupo fora surpreendido com a presença de um pequeno lagarto-de-água. Um bom exemplo da importância da existência de áreas de terreno seco e soalheiro na envolvência de ambientes ripícolas, onde uma fêmea desta espécie terá então enterrado os seus ovos.

 

 


Lagarto-de-água (Lacerta schreiberi).

 

 

Bastante próximo, o grupo depara-se com uma confluência de uma escorrência para a várzea. Parece confusa a origem da água neste troço do percurso, mas seguramente vem do subsolo, surgindo visível no sopé de um talude florestal. É admirável a diversidade de espécies vegetais em tão curto espaço de lameiro, engrossando a lista de plantas raras observadas. Também por isso, ali se encontraram alguns dos insetos mais característicos de zonas húmidas, ou a sua maior abundância. Foi o caso do ortóptero Ruspolia nitidula, um saltão muito comum em relvados de gramíneas perenes (sobretudo húmidos), e apreciado por hordas de predadores locais. Decerto bem conhecido pelo canto noturno fortemente "ressoante", lembrando o zumbido de um poste de alta tensão, som facilmente ouvido pela janela do carro em viagens noturnas de verão/outono.

 

 


Typha latifolia (à esquerda) e Hypericum undulatum (à direita) numa zona de escorrência para a várzea, no Braço da Barrosa.

 

 


Saltão Ruspolia nitidula.

 


Já de regresso, o grupo rumou a outro pequeno afluente, um dos poucos que ainda corre mantendo ativas fontes emblemáticas no Nadadouro, nascentes acompanhadas de terras encharcadas e cultivadas, onde crescem Epilóbios para a nossa Esfinge. Nesse trajeto, ao passar numa mancha de floresta mista o grupo observou um dos grilos mais comuns do solo florestal, o Nemobius sylvestris, uma grande fêmea de Louva-a-Deus e uma Vespa velutina, neste caso já morta. A presença desta espécie exótica invasora na Lagoa de Óbidos pode a longo prazo ameaçar muitas espécies de invertebrados, peças de toda uma ecologia funcional que inclui o Homem e as suas atividades locais.

 

O Nadadouro é uma povoação pacata e acolhedora, rica em hábitos e memórias em torno do seu ambiente ribeirinho. Está hoje menos próximo da influência da Lagoa de Óbidos, menos representado por ambientes ripícolas, mas ainda vai conservando marcas de cultivo tradicional e de pastoreio, entre algum espaço deixado à natureza.

 

Aqui ainda estão presentes redutos de habitat, que testemunham a história natural e rural da região por vezes ligadas, com flora e fauna que vão resistindo à pressão da monocultura agrícola ou florestal. Para além dos vários ambientes ribeirinhos, torna-se bastante agradável por encontrar sobreiros dispersos em grande número, alguns de grande porte em quintais no centro da povoação e arredores.

 

O Centro de Interpretação para a Lagoa de Óbidos agradece ao guia Paulo J. Lemos pela orientação deste percurso, bem como a todos os participantes pela presença neste encontro.

 

 

 

Para mais informações sobre o Centro de Interpretação para a Lagoa de Óbidos, clique aqui.

 

 

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