População de abutre-preto cresce timidamente em 2025

O Projeto LIFE Aegypius Return registou também um ligeiro decréscimo no sucesso reprodutor, a nível nacional.

 

 

O projeto LIFE Aegypius Return atingiu já os objetivos iniciais no que respeita ao número de casais nidificantes e de colónias reprodutoras de abutre-preto (Aegypius monachus) em Portugal, mas o sucesso reprodutor, a conectividade e as ameaças à espécie continuam a preocupar.

 

Resultados da reprodução do abutre-preto em Portugal, em 2025.

 

 

 

Consolidar o regresso do abutre-preto

O projeto LIFE Aegypius Return iniciou no final de 2022 com o objetivo de melhorar as condições ecológicas que permitissem consolidar o regresso do abutre-preto a Portugal, quatro décadas após a sua extinção enquanto espécie reprodutora.

 

Em 2022 estimava-se que as quatro colónias então conhecidas – Douro Internacional, Serra da Malcata, Tejo Internacional e Herdade da Contenda – totalizassem apenas cerca de 40 casais reprodutores. O projeto LIFE Aegypius Return definiu como objetivo implementar ações de conservação que permitissem duplicar este número, alcançando pelo menos 80 casais distribuídos por cinco colónias até 2027.

 

Em 2023, foi estabelecido um rigoroso protocolo de monitorização da reprodução da espécie e estabeleceu-se uma nova situação de referência. Nesse ano, foram registados 78 a 81 casais nidificantes, que tiveram um sucesso reprodutor de 0.47 (isto significa que 47% das posturas resultaram em crias recrutadas para a população). O aumento substancial face a 2022, embora reflita algum crescimento populacional, terá resultado sobretudo do intenso esforço de monitorização coordenada em várias regiões do país, incluindo a prospeção regular de novos locais de nidificação.

 

Já em 2024, o aumento em relação a 2023 foi efetivo e real: 108 a 116 casais nidificantes que produziram 48 ou 49 crias recrutadas para a população, com um sucesso reprodutor de 0.51. No mesmo ano foi também descoberta uma quinta colónia reprodutora, a mais ocidental conhecida para a espécie, no concelho da Vidigueira.

 

Na época de reprodução de 2025, o aumento no número de casais nidificantes foi bastante tímido: foram registados 119 a 126 casais, que produziram 56 crias recrutadas para a população. Importa notar que 25 a 26 destes casais e 16 das crias pertencem a ninhos localizados em território espanhol, uma vez que várias das colónias são transfronteiriças.

 

O sucesso reprodutor em 2025 baixou ligeiramente, para 0.50. Este decréscimo poderá estar associado ao mau tempo registado durante o inverno e às vagas de calor do verão, evidenciando a vulnerabilidade do abutre-preto aos eventos meteorológicos extremos – agravados pelas alterações climáticas – e a outros fatores não controláveis.

 

 

Monitorização da reprodução do abutre-preto.

 

 

Os resultados em cada colónia

Douro Internacional, a frágil colónia que recupera de um severo incêndio

O abutre-preto reestabeleceu-se no Parque Natural do Douro Internacional (PNDI) em 2012, com um único casal reprodutor. Foram precisos muitos anos para que a colónia aumentasse para dois, depois três e, finalmente, oito casais, em 2024. Nesse ano, a colónia expandiu-se para a margem oposta do rio Douro, com três casais a instalarem-se no Parque Natural Arribes del Duero, em Espanha. Os mesmos oito casais tentaram reproduzir-se este ano, mas apenas cinco produziram crias.

 

No entanto, e apesar de todos os cuidados com a gestão da vegetação em torno da colónia, um violento incêndio que deflagrou a mais de 30 km, a 15 de agosto de 2025, queimou mais de 10 000 hectares do PNDI e impactou fortemente a colónia de abutres-pretos. Dois ninhos ficaram totalmente carbonizados e outros seis foram afetados em diferentes graus. Confirmou-se a morte de duas das cinco crias nascidas, havendo suspeita da morte de outras duas. A única cria cuja sobrevivência é certa é aquela que nasceu em território espanhol, onde o fogo não chegou.

 

O protocolo de monitorização da reprodução do abutre-preto estabelece que se consideram “crias recrutadas para a população” (ou “crias voadoras”) todas as que sobrevivam pelo menos 100 dias após a eclosão. As crias do Douro foram consideradas “recrutadas” por terem morrido após esse limite etário, no entanto, em termos de sobrevivência das aves e viabilidade da colónia, o incêndio deixou marcas profundas, cujos impactos continuarão a ser monitorizados nos próximos anos.

 

Após o incêndio, os parceiros Palombar, com atuação direta no território, em articulação com a Direção Regional do Norte do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF-N), definiram um plano de emergência para a recuperação da colónia de abutre-preto, que incluiu, entre outras ações, a busca de apoio financeiro, o restabelecimento do programa de aclimatação de abutres-pretos, a recuperação de habitat e o fornecimento de alimento suplementar para as aves necrófagas.

 

Para o acompanhamento desta colónia e nos esforços de recuperação pós-incêndio, são devidos especiais agradecimentos ao ICNF-N, ao Centro de Recuperação de Animais Selvagens do Hospital Veterinário da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (CRAS-HVUTAD), ao CIARA - Centro de Interpretação Ambiental e Recuperação Animal e às equipas do Parque Natural Arribes del Duero, para além da comunidade local, bombeiros e município de Freixo de Espada à Cinta.

 

 

 

Antes e depois: Ninho de abutre-preto totalmente carbonizado após o incêndio no Parque Natural do Douro Internacional. ©Palombar

 

 

Serra da Malcata, colónia estratégica para a conectividade

A colónia da Reserva Natural da Serra da Malcata foi confirmada em 2021, pela Rewilding Portugal, com quatro casais nidificantes. Desde então, aquela ONG tem continuado a monitorização detalhada da colónia, com apoio do ICNF – DR Centro. O parceiro local Faia Brava tem feito a prospeção de ninhos noutras regiões relativamente próximas e potencialmente adequadas à espécie, como, por exemplo, em Almeida e nos vales dos rios Coa e Águeda.

 

Esta colónia mostrou um crescimento notório até 2024, ano em que foram registados 18 casais nidificantes que produziram 12 crias recrutadas para a população. Em 2025, apesar da expansão geográfica da colónia, parece ter havido um menor número de casais ativos. Os dados finais contabilizam 15 casais nidificantes e a produção de 8 crias voadoras. Todavia, o mau tempo dos primeiros meses do ano não permitiu um seguimento detalhado, pelo que os resultados poderão estar ligeiramente subestimados.

 

A colónia da Serra da Malcata, localizada entre o Douro e o Tejo e muito próxima da Serra de Gata, em Espanha, desempenha um papel crucial na conectividade de todas estas colónias de abutre-preto e suspeita-se que poderá expandir consideravelmente nos próximos anos.

 

 

Monitorização do abutre-preto na Serra da Malcata. Foto do ninho ©Eduardo Santos/LPN

 

 

Tejo Internacional, a colónia fundadora

Após a sua extinção como reprodutor em Portugal na década de 1970, o abutre-preto recolonizou naturalmente Portugal em 2010, com o estabelecimento de dois casais reprodutores no Parque Natural do Tejo Internacional. Esta colónia fundadora é hoje a maior e mais extensa das colónias portuguesas, albergando mais de metade do efetivo populacional.

 

Em 2023 conheciam-se 44 a 46 casais nidificantes (cinco dos quais em território espanhol) e, em 2024, registou-se um aumento para 61-64 casais (com 15 a 16 do lado espanhol), que produziram 24 a 25 crias voadoras (4 ou 5 em Espanha). Já em 2025, o aumento foi considerável: 68 a 72 casais (dos quais, 18 em Espanha) e 36 crias recrutadas para a população, 14 das quais de ninhos localizados em território espanhol.

 

A monitorização desta colónia é muito desafiante, com o número de ninhos em expansão, em ambas as margens do rio (e, portanto, em Portugal e em Espanha), uma vasta área de habitat adequado ocupada, dificuldades de acesso e de visibilidade, propriedades privadas e um enorme número de ninhos. Entre ninhos antigos e recentes, ocupados e abandonados, conhecem-se cerca de 220 ninhos de abutre-preto!

 

Os trabalhos de monitorização estão a cargo da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) e contam com o apoio dos vigilantes do ICNF – DR do Centro, dos Agentes del Medio Natural da Junta de Extremadura, da equipa do Parque Natural del Tajo Internacional, em Espanha, e da Quercus.

 

Esta importante colónia poderá ser negativamente impactada pela instalação de grandes projetos de energia renovável, como as centrais fotovoltaicas da Beira e de Sophia, pelo que a sua monitorização detalhada se reveste de particular importância.

 

 

Habitat de reprodução do abutre-preto no Tejo Internacional ©VCF

 

 

Herdade da Contenda, a segunda maior colónia

A Herdade da Contenda (HC) é uma propriedade detida pelo Município de Moura e localizada na Zona de Proteção Especial (ZPE) de Mourão/Moura/Barrancos. Alberga uma colónia de abutres-pretos que se restabeleceu em 2015, com um casal reprodutor, na sequência do projeto LIFE Habitat Lince Abutre, coordenado pela Liga para a Protecção da Natureza (LPN). Desde então, a colónia tem vindo a crescer e é atualmente a segunda maior do país.

 

Em 2023, registaram-se 17 a 18 casais nidificantes, que produziram cinco crias voadoras. Nesse ano, a colónia tornou-se também transfronteiriça, com dois casais estabelecidos na Contienda espanhola. No ano seguinte, a população aumentou para 20 a 21 casais, cinco dos quais em Espanha. No total, em 2024, a colónia produziu sete crias, incluindo uma nascida em Espanha.

 

Em 2025, observou-se um decréscimo para 16 a 18 casais nidificantes (4 a 5 na Contienda espanhola), que produziram cinco crias voadoras, uma delas em território espanhol.

 

Esta redução do efetivo foi acompanhada por uma quebra no sucesso reprodutor, que desceu de 0.58 em 2024 para 0.38 em 2025. Também nesta colónia são evidentes os efeitos nefastos dos eventos meteorológicos extremos, que têm provocado falhas na reprodução.

 

O seguimento desta colónia é feito pela LPN e pela HC, com apoio dos vigilantes do ICNF Alentejo e dos Agentes del Medio Natural da Junta de Andaluzia.

 

 

A monitorização da colónia da Herdade da Contenda goza de colaboração transfronteiriça ©VCF

 

 

 

Vidigueira/Portel, a jovem colónia

A colónia mais recente do país é também a mais afastada da fronteira com Espanha, e desempenha um papel estratégico para a conservação do abutre-preto no Alentejo. Foi descoberta em 2024, na Herdade do Monte da Ribeira (Vidigueira), com cinco ninhos confirmados e a produção de uma cria, o Pousio.

 

Em 2025 foi possível acompanhar a época de reprodução com mais detalhe, tendo-se confirmado a expansão para o concelho de Portel. Foram confirmados 10 ninhos adicionais (15 no total), 12 a 13 com casais nidificantes. As observações de campo permitiram registar posturas em sete casais e o nascimento de quatro crias, das quais sobreviveram apenas duas. O sucesso reprodutor é bastante reduzido, cifrando-se nos 0.29. Estes dados são compatíveis com o estabelecimento de casais muito jovens e inexperientes, esperando-se que obtenham maior êxito nos anos vindouros. Todavia, a viabilidade desta colónia poderá estar seriamente condicionada pelo elevado número de projetos de energia renovável planeados para a região.

 

A colónia está a ser monitorizada pela LPN, com apoio do ICNF Alentejo e de consultores ambientais envolvidos nos Estudos de Impacto Ambiental em curso. A Herdade do Monte da Ribeira tem também prestado um apoio imprescindível na proteção e vigilância da colónia.

 

 

Marcação do abutre-preto Pousio, em 2024. ©LPN

 

 

Monitorização em Espanha

O projeto LIFE Aegypius Return inclui também a monitorização do abutre-preto nas ZPE Sierra de Gata y Valle de las Pilas (SGVP) e Canchos de Ramiro y Ladronera (CRL), em Espanha. A ZPE Campo de Azaba é também prospetada, mas até ao momento não regista nidificação de abutres-pretos. As ações nesta região, que incluem a gestão e o fornecimento de campos de alimentação para o abutre-preto, são conduzidas pelo parceiro local, a Fundación Naturaleza y Hombre (FNYH).

 

Em 2023, nas duas ZPE ocupadas por abutre-preto foram registados 157 casais nidificantes, que produziram 103 crias recrutadas para a população. Em 2024, o número de casais manteve-se relativamente estável (153), mas o número de crias voadoras diminuiu para 90.

 

Em 2025, o número total de casais nidificantes voltou a ser de 153, mas reflete um aumento em CRL e uma diminuição em SGVP. No inverno e início da primavera, com a época de reprodução já em curso, esta última ZPE foi severamente fustigada com tempestades e ventos fortes que fizeram cair ou colapsar vários ninhos, o que inevitavelmente levou a falhas na reprodução.

 

 

Prospeção de ninhos de abutre-preto na ZPE Campo de Azaba ©VCF

 

 

Assegurar o futuro do abutre-preto

A recuperação do abutre-preto em Portugal e no oeste de Espanha tem seguido uma trajetória genericamente positiva, mas os parceiros do LIFE Aegypius Return mantêm-se apreensivos. A época reprodutora de 2025 mostrou que diversos fatores incontroláveis e imprevisíveis – como incêndios e eventos meteorológicos extremos – podem limitar significativamente a capacidade reprodutiva da espécie e ameaçar a própria existência das colónias. O abutre-preto continua também exposto a ameaças bem conhecidas, como o envenenamento, o tiro e a perturbação.

 

A forte expansão de projetos de energia renovável, com a instalação de novos aerogeradores e linhas elétricas nas proximidades das colónias, aumenta o risco de mortalidade por colisão e eletrocussão. Por sua vez, os parques solares inutilizam vastas áreas de alimentação ou de potencial expansão da espécie. Todos estes empreendimentos implicam ainda elevados níveis de perturbação, tanto durante a construção como na fase de exploração, comprometendo a tranquilidade essencial ao sucesso reprodutor do abutre-preto.

 

Com mais dois anos de trabalho pela frente no âmbito do LIFE Aegypius Return, os parceiros permanecem firmemente empenhados em alcançar os melhores resultados possíveis para assegurar um futuro sustentável para a espécie.

 

 

Sobre o projeto LIFE Aegypius Return

 

 

O projeto LIFE Aegypius Return é cofinanciado pelo programa LIFE da União Europeia. O seu sucesso depende do envolvimento de todos os stakeholders relevantes, e da colaboração dos parceiros, a Vulture Conservation Foundation (VCF), beneficiário coordenador, e os parceiros locais Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural, Herdade da Contenda, Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, Liga para a Protecção da Natureza, Associação Transumância e Natureza, Fundación Naturaleza y Hombre, Guarda Nacional Republicana e Associação Nacional de Proprietários Rurais e Associação Nacional de Proprietários Rurais Gestão Cinegética e Biodiversidade.

 

 

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