Por onde andam os abutres-pretos aclimatizados no Douro Internacional?

Fotografia de capa: Abutres-pretos em aclimatação no Douro Internacional. ©LIFE Aegypius Return

 

 

O programa de soft release (libertação branda) do projeto LIFE Aegypius Return já concluiu a aclimatação de dez abutres-pretos (Aegypius monachus) no Douro Internacional. A poucas semanas da receção de mais um grupo, vamos saber por onde andam estas aves.

 

A - O grupo fundador

A estação de aclimatação do Douro Internacional foi inaugurada em maio de 2024, com quatro abutres-pretos juvenis resgatados em vários pontos do país, e recuperados em diversos Centros de Recuperação para a Fauna. Meio ano depois, em novembro, a estação foi aberta e os abutres estavam livres. No entanto, só saíram após um episódio caricato, encorajados por um grifo (Gyps fulvus) e um abutre-preto do exterior.

 

Todos os abutres-pretos deste grupo fundador do programa de soft release receberam nomes começados pela letra A, para facilitar a referência. Arçã, Alfavaca, Azedinha e Almeirão, três fêmeas e um macho, são diariamente monitorizados através dos movimentos transmitidos pelo emissor GPS/GSM com que estão equipados. Todos estão vivos, e, aparentemente, saudáveis.

 

Desde a sua libertação, a Azedinha fez um grande movimento em direção aos Pirinéus ocidentais, deslocando-se depois para o centro de Espanha (a norte de Madrid), onde permanece desde junho de 2025. A Alfavaca também se afastou da área do Douro Internacional, tendo passado o último ano na Reserva Natural Hoces del Río Riaza, na província de Segóvia. A Arçã realizou um movimento assinalável para norte, até Somiedo, mas, tal como o Almeirão, manteve-se geralmente na região do Douro Internacional, explorando, por vezes, as paisagens espanholas até Zamora.

 

 

Movimentos dos quatro abutres-pretos aclimatizados em 2024, desde a sua libertação (04/11/2024) até 15/12/2025.

 

 

 

A Arçã e o Almeirão têm sido inseparáveis; alimentam-se e pousam muitas vezes em movimentos síncronos e, recentemente, começaram a exibir comportamentos que podem indicar o início de atividade de construção de ninho. Oxalá que sim, e que singrem como casal reprodutor, contribuindo para o reforço da frágil população do Douro.

 

B – A turma de 2025

Em 2025, o programa de aclimatação LIFE Aegypius Return contou com seis abutres-pretos: quatro-machos e duas fêmeas, igualmente juvenis resgatados e recuperados em diversos pontos e Centros de Recuperação do país. Iniciaram a aclimatação em março e, quando foram libertados em outubro, já tinham sido batizados com nomes começados com a letra B: Baga, Bétula, Bolacha, Branco, Brisa e Bruçó.

 

 

Os seis abutres-pretos aclimatizados em 2025. ©Palombar

 

 

Em agosto, este grupo teve momentaneamente de ser transferido para as instalações do Centro de Interpretação Ambiental e Recuperação Animal - CIARA, em Felgar, como prevenção devido ao incêndio que lavrou no Parque Natural do Douro Internacional e que causou danos avultados na estação de aclimatação. Felizmente, em setembro, a aclimatação pôde ser retomada, sem consequências para os seis abutres-pretos.

 

Desde a sua libertação, permaneceram relativamente próximos da colónia do Douro Internacional, tendo realizado algumas viagens em território espanhol. Um indivíduo, o Branco, aventurou-se mais para sul, em direção à colónia reprodutora do Tejo Internacional. O Bétula voou até a Andaluzia, de onde não regressou.

 

 

Movimentos dos seis abutres-pretos aclimatizados em 2025, desde a sua libertação (24/10/2025) até 15/12/2025.

 

 

 

Duas mortes

Infelizmente, os machos Brisa e Bétula morreram.

 

O Brisa morreu a 15/11/2025, por colisão contra uma linha elétrica de alta tensão, perto do alimentador suplementar (muladar) de Aldeadávila, em Espanha. O cadáver, resgatado pelos Agentes de Medio Ambiente da Junta de Castilla y León, foi transferido para o Centro de Recuperación de Valladolid (CRAS Valladolid) para realização da necrópsia, que confirmou a causa de morte. Esta linha elétrica já tinha sido anteriormente identificada como perigosa, pela sua proximidade com o campo de alimentação suplementar. Apesar dos contactos anteriores com as autoridades espanholas e com a empresa elétrica, que resultaram em medidas de sinalização corretivas, continuam a ocorrer mortes. Consequentemente, as autoridades estão atualmente no processo de desativar este campo de alimentação suplementar localizada perto da linha elétrica, de forma a prevenir mais casos de mortalidade.

 

O Bétula morreu a 10/12/2025 perto de Belalcázar (Andaluzia, Espanha), por razões que permanecem sob investigação. Os dados de GPS indicaram um provável evento de mortalidade após a ave ter permanecido ativa na mesma área durante 18 dias consecutivos. As autoridades locais e a Junta de Andaluzia foram contactadas, o cadáver foi recuperado e enviado para o Centro de Análisis y Diagnóstico de la Fauna Silvestre (CAD), em Málaga, para necrópsia e análises toxicológicas.

 

 

Recuperação do cadáver do abutre-preto Bétula, que morreu a 10/12/2025 perto de Belalcázar. ©Junta de Andalucía

 

 

 

Para que serve a aclimatação?

A aclimatação corresponde a um período de habituação das aves a uma determinada região, neste caso, o Douro Internacional, e faz parte de um processo genericamente designado de soft release (libertação branda).

 

Os programas de soft release têm sido aplicados em diversas regiões da Europa, estando devidamente descritos e testados com várias espécies de abutres. Comparativamente a outras técnicas usadas em programas de conservação, o soft release permite a fidelização das aves à área de libertação e é um procedimento recomendado para aumentar a sobrevivência das aves libertadas, acelerar o assentamento e aumentar a viabilidade de uma população.

 

No LIFE Aegypius Return, os abutres-pretos que ingressam na aclimatação são juvenis exclusivamente provenientes de Centros de Recuperação para a Fauna localizados em Portugal. Isto é, são aves que nasceram e se desenvolveram em meio selvagem, mas que por lesão ou debilidade tiveram de ser recuperados, ainda sem terem território de reprodução estabelecido (o que nos abutres-pretos só acontece aos cinco ou seis anos de vida). Após a sua reabilitação, em vez de serem diretamente devolvidos à natureza, são encaminhados para uma aclimatação que dura entre cinco a nove meses. Após esse período, são libertados por abertura da jaula e sem contacto com humanos, esperando-se que permaneçam na região da libertação e aí venham a estabelecer o seu território de nidificação. O Parque Natural do Douro Internacional detém a colónia mais pequena, isolada e vulnerável do país, e sofreu um severo revés com os incêndios de agosto passado, sendo o soft release um importante contributo para o seu reforço populacional.

 

Os progressos do programa de soft release são anualmente publicados em relatórios disponibilizados na página do projeto LIFE Aegypius Return. O relatório de 2025 está disponível aqui.

 

 

 

Os quatro abutres-pretos aclimatizados em 2024. No exterior são visíveis um grifo e outro abutre-preto, selvagens, a interagir com os abutres do interior. ©LIFE Aegypius Return

 

 

 

Agradecimentos

Em fevereiro, um novo grupo de abutres-pretos, atualmente em recuperação, ingressará no programa de aclimatação. Os parceiros LIFE Aegypius Return agradecem desde já a todas as pessoas e entidades que tornam esta ação de conservação possível, em particular ao Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas – ICNF e a todos os Centros de Recuperação para Fauna.

 

São ainda devidos agradecimentos às autoridades espanholas, laboratórios, e aos técnicos e agentes de medio ambiente das Juntas de Castilla y León, Extremadura e Andaluzia, pela constante cooperação com o projeto, desde o resgate de abutres em campo à investigação clínica e forense.

 

 

Sobre o projeto LIFE Aegypius Return

 

 

O projeto LIFE Aegypius Return é cofinanciado pelo programa LIFE da União Europeia. O seu sucesso depende do envolvimento de todos os stakeholders relevantes, e da colaboração dos parceiros, a Vulture Conservation Foundation (VCF), beneficiário coordenador, e os parceiros locais Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural, Herdade da Contenda, Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, Liga para a Protecção da Natureza, Associação Transumância e Natureza, Fundación Naturaleza y Hombre, Guarda Nacional Republicana e Associação Nacional de Proprietários Rurais e Associação Nacional de Proprietários Rurais Gestão Cinegética e Biodiversidade.

 

 

 

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