
Porque é que o abutre-preto escolheu a árvore da esquerda para nidificar e não a da direita?
Durante a monitorização dos ninhos de abutres-pretos em Portugal, no âmbito do trabalho de campo do projecto LIFE Aegypius Return, os nossos investigadores questionaram-se frequentemente sobre o porquê de os abutres escolherem locais e árvores específicos para nidificar, ignorando outros. Para encontrar a resposta, Linn Lembke, mestranda da Universidade de Coimbra, estudou a seleção de locais de nidificação de abutres-pretos em Portugal e em toda a Europa em duas escalas.

Colónias de reprodução incluídas no estudo. (+ O trabalho de campo da parte do estudo ao nível da árvore foi realizado na Vidigueira, Contenda, Tejo e Malcata.)
Para compreender o panorama geral, Linn analisou 938 ninhos de abutres-pretos de dez colónias reprodutoras de toda a Europa. Para além das colónias portuguesas, os parceiros da VCF em Espanha, França e Grécia partilharam a localização dos ninhos e informação sobre as espécies de árvores utilizadas. Utilizando um software de mapeamento geográfico, os diferentes locais de nidificação foram comparados para identificar padrões comuns e variações regionais.
Surpreendentemente, a altitude não pareceu ser um fator limitante. Os abutres-pretos nidificam a altitudes que variam entre cerca de 100 metros e mais de 1.600 metros acima do nível do mar. No entanto, em todas as regiões, foram escolhidas as encostas íngremes. As montanhas e os montes criam correntes de ar ascendentes que facilitam a descolagem e o ganho de altitude destas grandes aves.
A orientação da encosta também é importante, mas varia de acordo com o clima. Os abutres-pretos tendem a escolher encostas viradas a norte em regiões mais quentes, enquanto em zonas mais frias nidificam com maior frequência em encostas viradas a sul. Isto sugere que os abutres adaptam o seu comportamento de nidificação às condições ambientais locais. A orientação da encosta pode influenciar a temperatura no ninho, o que é importante porque tanto os abutres adultos como as suas crias têm de manter uma temperatura corporal estável durante os nove meses da época de reprodução. Os abutres-pretos começam a reproduzir-se em fevereiro, quando as temperaturas em regiões mais frias, como as colónias francesas, podem descer abaixo dos 0°C. Nidificar em encostas mais quentes e viradas a sul pode, portanto, ajudar os adultos e as crias a lidar com estas condições de frio. Ao mesmo tempo, a época de reprodução é muito longa, com algumas crias a permanecerem no ninho até setembro. Em regiões mais quentes, isto significa que podem sofrer com o calor intenso do verão. Nestes locais, as encostas viradas a norte podem ajudar a reduzir os efeitos das temperaturas extremas.
O estudo mostrou ainda que os abutres evitam perturbações humanas. Em média, os ninhos estavam localizados a mais de três quilómetros de estradas asfaltadas e a mais de quatro quilómetros de aldeias.

Um resumo dos resultados encontrados. Foram utilizados elementos do Flaticon para criar esta figura.

Ninho de abutre-preto em pinheiro-bravo (Pinus pinaster)
O estudo também examinou que espécies de árvores os abutres-pretos usam para nidificar. A maioria dos ninhos foi construída em pinheiros ou carvalhos de folha persistente. Em Portugal e Espanha, o pinheiro-bravo (Pinus pinaster) foi a espécie mais frequentemente utilizada, enquanto o pinheiro-silvestre (Pinus sylvestris) era comum nas colónias francesas. Onde não estavam disponíveis pinheiros adequados, os abutres nidificavam principalmente em azinheiras (Quercus rotundifolia). Foi o caso nas colónias portuguesas do Tejo e do Douro.

Ninho de abutre-preto em azinheira (Quercus rotundifolia)
Para além das espécies de árvores, foram também investigados outros fatores que poderiam influenciar a escolha da árvore. Linn visitou quatro colónias portuguesas juntamente com a equipa de campo do projeto LIFE Aegypius Return. Mediram 76 árvores de nidificação e compararam-nas com 103 árvores próximas que não eram utilizadas pelos abutres. As medições incluíram o tamanho da árvore e a distância até às árvores vizinhas.
Os resultados mostraram que dois fatores foram especialmente importantes. Os abutres-pretos preferiam árvores com copas amplas e mais afastadas das árvores vizinhas. As árvores maiores podem provavelmente suportar os grandes ninhos da espécie com mais segurança, enquanto o espaço aberto em redor da árvore provavelmente facilita a aterragem e a descolagem destas aves, cujas asas podem atingir quase três metros de comprimento (envergadura).
Os resultados deste estudo podem orientar decisões sobre gestão do habitat e conservação das espécies. Ajudam por exemplo a adaptar a gestão do habitat para melhorar as condições de reprodução. Os resultados podem também ajudar a identificar áreas de nidificação promissoras. Ao compreendermos o que torna um local de nidificação adequado, podemos proteger melhor os habitats de que os abutres-pretos necessitam para se reproduzirem com sucesso.
Sobre o projeto LIFE Aegypius Return

O projeto LIFE Aegypius Return é cofinanciado pelo programa LIFE da União Europeia. O seu sucesso depende do envolvimento de todos os stakeholders relevantes, e da colaboração dos parceiros: a Vulture Conservation Foundation (VCF), beneficiário coordenador, e os parceiros locais Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural, Herdade da Contenda, Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, Liga para a Protecção da Natureza, Faia Brava – Associação de Conservação da Natureza, Fundación Naturaleza y Hombre, Guarda Nacional Republicana e Associação Nacional de Proprietários Rurais Gestão Cinegética e Biodiversidade.

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