Abutre primogénito
O Pousio é a primeira cria conhecida da mais recente colónia de abutre-preto (Aegypius monachus), descoberta em junho de 2024 na Herdade do Monte da Ribeira (HMR), na Vidigueira.
No dia 19 de julho desse ano foi marcado com anilhas e um emissor GPS/GSM, e recolheram-se amostras biológicas. A análise sanguínea revelou tratar-se de um jovem macho, que viria a ser batizado de Pousio. A monitorização remota permitiu perceber que começou a voar no dia 4 de setembro, tendo-se mantido sempre muito fiel ao território da colónia natal.
Porém, os seus dias de liberdade foram tragicamente interrompidos.
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Marcação do Pousio, a 19/07/2024. ©Eduardo Santos/LPN
Vítima de tiro
A 31 de janeiro de 2025, os funcionários da HRM encontraram o Pousio no solo, com uma postura prostrada e com comportamentos estranhos. De imediato, contactaram o ICNF (Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas), que prontamente recolheu a ave e a entregou no LxCRAS (Centro de Recuperação de Animais Silvestres de Lisboa).
A avaliação veterinária e os exames realizados, incluindo raio-X, não deixaram dúvidas: o Pousio foi vítima de tiro de espingarda, pelas costas, enquanto estava pousado no topo de uma árvore. Uma análise detalhada dos movimentos registados pelo emissor GPS/GSM mostrou que o disparo terá ocorrido na madrugada do domingo, 26 de janeiro.
A quantidade de projéteis encontrados comprova a intencionalidade e a proximidade do disparo: 16 chumbos e fragmentos numa das patas, seis na outra, e ainda um chumbo alojado no músculo peitoral – o que gerou indignação e repúdio pelas autoridades e entidades ligadas à conservação da natureza e à caça. As lesões exigiram várias intervenções médico-veterinárias, incluindo uma cirurgia para remoção definitiva de uma unha.
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O abutre-preto Pousio, vítima de tiro, com postura prostrada, e raio-X mostrando os projéteis nas patas. ©HMR; LxCRAS
Uma recuperação sofrida e longa
Apesar de todos os cuidados prestados pela equipa do LxCRAS, o Pousio continuava a apresentar problemas na articulação da pata mais afetada e necessitava de uma nova intervenção, que exigia meios técnicos adicionais. Foi então acionada a rede de Centros de Recuperação para a Fauna, decidindo-se pela sua transferência para o Hospital Veterinário da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (CRAS HV-UTAD).
Após a nova intervenção e o respetivo período de recuperação, o Pousio foi ainda transferido para o CIARA, onde completou os treinos de voo e uma precoce muda de penas. Finalmente, depois de oito longos meses, o Pousio estava plenamente reabilitado e pronto para regressar à sua colónia natal.
Lesões nas patas do abutre-preto Pousio © LxCRAS
Emotivo regresso à liberdade
A recuperação do Pousio e o intenso esforço dedicado à sua reabilitação foram celebrados num evento de sensibilização realizado na HMR, que contou com cerca de 40 participantes. Durante a sessão foi apresentado o projeto LIFE Aegypius Return e partilhado o corajoso percurso do Pousio. Foi igualmente explicado o processo de descoberta da colónia da Serra do Mendro – que agora se estende pelos concelhos de Vidigueira e Portel – bem como os esforços de monitorização desenvolvidos pela LPN (Liga para a Protecção da Natureza), com apoio do ICNF. O evento destacou ainda as ameaças que esta colónia enfrenta, sobretudo devido à expansão dos projetos de energia renovável.
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Evento de sensibilização na Herdade do Monte da Ribeira. ©Eduardo Santos/LPN
O Pousio foi então libertado. Após alguma hesitação, emocionou os presentes com um belo voo inaugural. No mesmo dia voou por toda a Serra do Mendro, redescobrindo a sua “casa”, por onde se tem mantido, sempre fiel.
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Devolução à natureza do abutre-preto Pousio. ©Eduardo Santos/LPN
Seguiu-se a demonstração da ação de uma patrulha preventiva por parte do Grupo de Intervenção Cinotécnico da Guarda Nacional Republicana (GIC/GNR), no âmbito da deteção de venenos.
Demonstração do Grupo de Intervenção Cinotécnico da GNR ©VCF
O evento terminou com a degustação de produtos regionais – todos produzidos em territórios que albergam colónias de abutre-preto – incluindo os azeites e vinhos da HMR.
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Movimentos do abutre-preto Pousio no primeiro dia de regresso à liberdade.
Agradecimentos
A recuperação do Pousio só foi possível graças ao esforço de muitas pessoas e entidades. Desde a HMR na deteção e alerta, ao ICNF no resgate e transporte, até às equipas dos Centros de Recuperação LxCRAS, CRAS HV-UTAD e CIARA, inexcedíveis nos cuidados prestados ao Pousio.
Os parceiros do projeto LIFE Aegypius Return agradecem à HMR todo o apoio prestado nas ações de monitorização e proteção do abutre-preto na região, bem como a hospitalidade para acolher o evento celebrativo. Juntos, agradecem a todos os presentes, nomeadamente: ICNF; LxCRAS; GNR (GIC e Núcleo de Proteção Ambiental do Destacamento Territorial de Beja); LPN; VCF - Vulture Conservation Foundation; ANPC – Associação Nacional de Proprietários Rurais; Associação de Caça, Tiro e Pesca de Marmelar; Federação Alentejana de Caçadores; Município de Vidigueira; Junta de Freguesia de Pedrógão; Associação BioLiving; Direção-Geral da Alimentação e Veterinária – Núcleo de Alimentação e Veterinária de Reguengos de Monsaraz; e veterinários municipais da região.
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Fotografia de grupo após a libertação do Pousio. ©VCF
Sobre o LIFE Aegypius Return

O projeto LIFE Aegypius Return é cofinanciado pelo programa LIFE da União Europeia. O seu sucesso depende do envolvimento de todos os stakeholders relevantes, e da colaboração dos parceiros, a Vulture Conservation Foundation (VCF), beneficiário coordenador, e os parceiros locais Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural, Herdade da Contenda, Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, Liga para a Protecção da Natureza, Associação Transumância e Natureza, Fundación Naturaleza y Hombre, Guarda Nacional Republicana e Associação Nacional de Proprietários Rurais e Associação Nacional de Proprietários Rurais Gestão Cinegética e Biodiversidade.

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