PowerLines4Birds: como estamos a tornar as linhas elétricas mais seguras para as aves?

Fireflies

 

O projeto LIFE PowerLines4Birds é uma parceria ibérica entre a SPEA, Quercus, LPN, SEO e a E-REDES com o objetivo de mitigar o risco de mortalidade em linhas elétricas para sete espécies de aves ameaçadas. Nesse sentido, estão a ser implementadas medidas mitigadoras do risco de eletrocussão e colisão. Pretende-se ainda avaliar a eficácia de medidas inovadoras de mitigação simultânea destes dois riscos. Nesta série de notícias, queremos apresentar as várias medidas de mitigação que estão a ser aplicadas no projeto LIFE PowerLines4Birds para salvaguardar a avifauna. Entre elas, medidas como a Solução Combinada para reduzir o risco de eletrocussão, os sinalizadores (Firefly Bird Flappers - FBF) para reduzir o risco de colisão, a eco-travessa e o enterramento de linhas elétricas aéreas para reduzir ambos os riscos simultaneamente.

 

Muitas vezes as aves beneficiam das estruturas de transporte de energia, nomeadamente dos apoios, para nidificar, repousar ou como poleiros de caça, bem como dos cabos eléctricos também para descanso e poleiro. No entanto, estas estruturas representam um risco substancial de eletrocussão e colisão para as aves. Esta problemática levanta preocupações relevantes de conservação, sobretudo num contexto em que a rede elétrica está em rápida expansão a nível global. Para além do impacto direto na avifauna, estas ocorrências podem representar constrangimentos para as companhias de distribuição de energia, devido à interrupção do serviço e ao risco acrescido de incêndios.

 

Mortalidade de aves em linhas elétricas: Eletrocussão e Colisão

A eletrocussão ocorre quando as aves utilizam os apoios e tocam simultaneamente em duas fases da linha elétrica ou numa fase da linha elétrica e num elemento ligado à terra, sendo mais comum acontecer em espécies de grande porte e com maior envergadura de asas, como é o caso das cegonhas (Ciconia ciconia), grifos (Gyps fulvus), o abutre-preto (Aegypius monachus) ou a águia-imperial-ibérica (Aquila adalberti). A colisão, por sua vez, acontece quando uma ave não consegue perceber o cabo aéreo como um obstáculo e, ao aproximar-se, embate na linha. A abetarda (Otis tarda), a ave voadora mais pesada da Europa, é um exemplo bastante conhecido de uma espécie vulnerável a colisões com linhas elétricas. A sua velocidade combinada com a sua  dificuldade em manobrar o voo, e uma visão frontal limitada, torna-a particularmente propensa a colisões fatais com linhas elétricas.  Tanto o risco de colisão como de eletrocussão são influenciados por vários fatores, incluindo as características próprias da espécie (p.ex.: visão, morfologia, fenologia, comportamento, ciclos circadianos, idade, sexo e estado de saúde), condições do local (p.ex.: topografia, condições meteorológicas, habitat e perturbação humana) e fatores específicos da linha elétrica (p.ex.: disposição dos cabos elétricos nos apoios).

 

Mitigação de colisão

A medida mais utilizada para mitigar o risco de colisões de aves com linhas elétricas é a aplicação de dispositivos que aumentam a visibilidade das linhas para as aves em voo.

 

Os primeiros dispositivos começaram a ser instalados na rede de distribuição elétrica em Portugal Continental desde muito cedo, e têm evoluído de forma contínua até aos dias de hoje. Ao longo dos anos, foram desenvolvidos muitos modelos diferentes de sinalizadores que podem ter diferentes tamanhos, cores, materiais e funções, podem ser fixos ou móveis, e variam também nos métodos de instalação e nas especificações técnicas. São alguns exemplos as espirais simples, espirais duplas, os Firefly Bird Flappers (FBF), mais conhecidos por Fireflies, entre outros (Figura 1).

 

 

Figura 1 - Exemplos de sinalizadores de linhas elétricas aplicados em redes de distribuição elétrica: a) Sinalizadores Raptor Clamp; b) Espirais Simples; c) Espirais duplas; d) Fireflies tipo fita (à esquerda) e tipo rotativo (direita)

 

 

 

De forma geral, para assinalar eficazmente uma linha elétrica, os sinalizadores devem ser detetáveis por uma ave a uma distância que lhe permita evitar a colisão alterando a sua trajetória. Por isso, é essencial que o sinalizador seja visível em diversas condições meteorológicas e de luminosidade, e que seja desenhado considerando a visão das aves. Por esse motivo, são frequentemente recomendadas combinações de preto e branco ou sinalizadores refletores e fotoluminescentes, e com movimento rotativo ou oscilante causado pelo vento. As dimensões dos dispositivos devem também ter em conta a capacidade visual das aves, no entanto, regra geral, quanto maior for o sinalizador, maior a probabilidade de ser detetado. De qualquer forma, devem também ser consideradas as condicionantes técnicas para que possam ser aplicados com segurança na linha elétrica. Outro fator a considerar é a durabilidade dos materiais, principalmente em condições adversas, para que os equipamentos tenham elevada longevidade com pouca manutenção. Por fim, o espaçamento entre sinalizadores é um fator importante, pois quanto menor for o intervalo maior é a probabilidade de tornar a linha visível para uma ave em aproximação. Por isso, é frequentemente recomendado um espaçamento de 5 metros em linhas elétricas de média tensão, em áreas de maior risco.

 

Dispositivos instalados no Projeto: Firefly Bird Flappers (FBF)

Com o objetivo de mitigar o risco de colisão de aves com linhas elétricas, estão a ser instalados nas linhas de média e alta tensão os Firefly Bird Flappers (FBF) de duas tipologias com elevada eficácia, as de tipo fita (Figura 2) e os rotativos (Figura 3). A instalação destes dispositivos abrangerá 91 kms de linhas elétricas identificadas como prioritárias em 14 Zonas de Proteção Especial (ZPE) em Portugal.

 

 

 

Figura 2 - Esquerda: Firefly tipo fita (1) Pinça de elastómero para fixação no cabo elétrico; (2) Fitas de neopreno; (3) Chapas de alumínio; (4) Placas fotoluminescentes e retrorrefletoras; (5) Parafusos de aço inox; Direita: Fireflies tipo fita instalados numa linha elétrica.

 

 

Ambos os sinalizadores apresentam maior sucesso na redução do risco de colisão de aves, quando comparados com as espirais simples e duplas, e embora ambos apostem na importância do movimento, os fireflies rotativos distinguem-se por rodarem sobre si próprios com o vento, o que aumenta a sua visibilidade e eficácia. Adicionalmente, os FBF tipo fita e rotativos possuem placas refletoras e fotoluminescentes que, no caso dos rotativos, podem produzir um efeito cintilante perceptível pelas aves até 450 metros.

 

 

 

Figura 3 - Esquerda: Firefly tipo rotativo; Direita: Fireflies rotativos instalados numa linha elétrica

 

 

 

Projetos anteriores demonstraram que os fireflies rotativos são mais eficazes para espécies de aves estepárias como a abetarda e o sisão. Esta informação é relevante quando a equipa do LIFE PowerLines4Birds identifica e propõe linhas elétricas para correção com medidas mitigadoras da colisão em regiões de pseudo estepe cerealífera.

 

Entre 2023 e 2025, dos 91km de linha propostos, já foram sinalizados, com ambas as tipologias, cerca de 50 km de linhas elétricas de média e alta tensão.

 

Da próxima vez que passar por linhas elétricas, fique atento. Talvez consiga identificar alguns destes dispositivos.

 

 

Saiba mais sobre o projeto LIFE PowerLines4Birds

 

 

 

O projeto LIFE PowerLines4Birds é cofinanciado pelo Programa LIFE da União Europeia e tem como objetivo reduzir o impacto das linhas elétricas por electrocussão e colisão na Península Ibérica, para 7 espécies prioritárias de aves altamente vulneráveis a estas ameaças.

 

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