PowerLines4Birds: como estamos a tornar as linhas elétricas mais seguras para as aves? Enterramento de linhas elétricas

Nesta série de notícias sobre o projeto LIFE PowerLines4Birds queremos dar a conhecer as medidas de mitigação que estão a ser aplicadas na rede elétrica de média tensão para salvaguardar a avifauna. Desta vez, queremos apresentar uma solução que permite mitigar simultaneamente os dois riscos para as aves por interação com as linhas elétricas: a eletrocussão e colisão.

 

Para algumas espécies de aves, ou em algumas regiões, existe tanto o risco de mortalidade por colisão como por eletrocussão quando interagem com as linhas elétricas. Por exemplo, o abutre-preto (Aegypius monachus), espécie-alvo do projeto, é vulnerável à colisão com as linhas elétricas, mas também devido à sua grande envergadura e utilização dos apoios para repousar, está exposto a um maior risco de eletrocussão. Por outro lado, em regiões onde há uma grande sobreposição da distribuição de diferentes espécies, com diferentes vulnerabilidades a estes dois riscos, a correção das linhas elétricas deve contemplar tanto medidas anti-colisão como anti-eletrocussão. É o caso do Baixo Alentejo, em particular na ZPE de Castro Verde, onde ocorrem espécies emblemáticas como a abetarda (Otis tarda) e o sisão (Tetrax tetrax), cuja mortalidade por colisão com as linhas elétricas é uma das principais ameaças, mas também a águia-imperial-Ibérica (Aquila adalberti) que devido à sua grande envergadura e utilização dos apoios elétricos a torna mais vulnerável à eletrocussão.

 

Para dar uma resposta mais eficiente a estas situações, o projeto PowerLines4Birds está a implementar medidas inovadoras que permitem reduzir simultaneamente o risco de colisão e eletrocussão nas linhas elétricas de média tensão . Dado o seu caráter inovador, estas medidas estão a ser cuidadosamente avaliadas não só em termos da sua eficácia para proteger a avifauna, assim como em termos dos desafios e oportunidades para a sua aplicação técnica na rede elétrica. Em Portugal este trabalho só tem sido possível devido à estreita colaboração entre as ONGA (LPN, Quercus, SPEA) e a E-REDES, parceiros neste projeto. Entre as medidas inovadoras incluem-se a ecotravessa e o enterramento de linhas elétricas.

 

Em termos de eficácia para proteger a avifauna, o enterramento de linhas elétricas é 100% eficaz! No entanto, existem vários constrangimentos técnicos e financeiros, principalmente no tempo que demora a fase de licenciamento, nos custos que esta solução exige e na definição do novo traçado.

Apesar do enterramento de linhas eléctricas ser uma prática cada vez mais comum na Europa, em Portugal a atual experiência encontra-se muito circunscrita aos centros urbanos. Na Holanda, a maioria das linhas elétricas de baixa e média tensão encontram-se enterradas, enquanto na Alemanha cerca de 77% da rede elétrica se encontra enterrada. No projeto PowerLines4Birds queremos expandir esta visão em Portugal e não só compreender como fazer o enterramento em zonas rurais, como aplicá-lo.

 

Em 2026, está previsto o enterramento de 3 troços de linhas elétricas na ZPE de Castro Verde, perfazendo 10 km de extensão de linha aérea que serão removidos. Estas linhas foram selecionadas porque representam um elevado risco de mortalidade para aves prioritárias do projeto, principalmente a abetarda. São linhas elétricas que já foram intervencionadas no passado com outro tipo de soluções, como os sinalizadores, mas o risco persiste tendo-se encontrado mortalidade mais recentemente. Uma vez que as soluções aplicadas até ao momento não foram eficazes, resta-nos apenas o enterramento, criando áreas seguras de alimentação e reprodução para várias espécies estepárias ameaçadas. A remoção destes obstáculos não só reduz o risco de mortalidade como a fragmentação do habitat. Para além dos claros benefícios para a avifauna, o enterramento das linhas elétricas reduz o risco de dano a estas estruturas, quer devido à própria interação das aves com estas, como devido a fenómenos climáticos (e.g., tempestades). São conhecidos vários casos onde um incêndio decorreu da eletrocussão de uma ave na linha elétrica, assim como a exposição a tempestades e ventos fortes causam cortes de energia com impacto nas populações locais. Basta recordar as tempestades no início de 2026 que atingiram drasticamente várias regiões do País, incluindo Leiria.

 

No entanto, devemos também considerar os constrangimentos e potenciais impactos decorrentes do desmantelamento e conversão a subterrâneo (enterramento) de uma linha elétrica aérea existente. Por um lado, existem questões financeiras (como o significativo incremento de custos quando comparada com linhas aéreas), técnicas (como a criação de condições para uma transição a subterrâneo) e burocráticas (como o licenciamento mais complexo e demorado e autorização dos proprietários, quando não há alternativa de utilização de espaço público) que colocam vários desafios à implementação a uma larga escala.

 

Por fim, existem impactos no solo, vegetação e animais (e.g. invertebrados), principalmente durante a fase de construção. Desconhecem-se ainda os impactos da presença do campo magnético gerado pela linha elétrica no solo, mas existem formas de atenuar estes efeitos. De forma geral, os dados sobre estes impactos são ainda escassos, mas é certamente algo que deve ser avaliado, principalmente à medida que o enterramento de linhas elétricas se torna mais comum.

 

Enquanto medida inovadora em Portugal, os parceiros do projeto PowerLines4Birds estão entusiasmados quer com o processo de aprendizagem como a implementação desta medida com tantos benefícios para a avifauna. O objetivo é que os 10 km de linhas elétricas enterradas durante o projeto sejam apenas o início, e que esta solução para mitigar o impacto na avifauna se torne frequente.

 

 

Saiba mais sobre o projeto LIFE PowerLines4Birds

 

 

O projeto LIFE PowerLines4Birds é cofinanciado pelo Programa LIFE da União Europeia e tem como objetivo reduzir o impacto das linhas elétricas por eletrocussão e colisão na Península Ibérica, para 7 espécies prioritárias de aves altamente vulneráveis a estas ameaças. São parceiros neste projeto a Liga para a Protecção da Natureza (LPN), a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), a QUERCUS - Associação Nacional de Conservação da Natureza, a Sociedad Española de Ornitología (SEO/Birdlife) e a E-Redes. 

 

 

Subscreva a
nossa Newsletter

Se deseja receber informação atualizada sobre a LPN, por favor insira o seu email:

© 2018 Liga para a Protecção da Natureza.

Powered by bluesoft.pt