A Liga para a Protecção da Natureza (LPN) e a Sociedade Portuguesa de Botânica (SPBotânica) manifestam a sua profunda consternação perante o incêndio que voltou a consumir praticamente a totalidade da Zona Especial de Conservação (ZEC) Cambarinho, no concelho de Vouzela, integrada no Parque Natural Local Vouga-Caramulo.
Trata-se da segunda vez, em menos de uma década, que esta área protegida da Rede Natura 2000 é devastada por um grande incêndio, depois de já ter ardido por completo em 2017. A repetição deste cenário representa um sério revés para a conservação de um dos mais singulares núcleos de vegetação mediterrânica de Portugal e evidencia a insuficiência das medidas de prevenção implementadas desde o incêndio anterior. Após o incêndio de 2017, o Plano de Gestão da ZEC definiu como prioridades a recuperação dos habitats afetados e a adaptação do Plano Municipal de Defesa da Floresta Contra Incêndios de Vouzela às próprias necessidades desta área protegida.
A ZEC Cambarinho alberga um património natural de importância nacional e europeia, de excecional interesse científico, educativo, paisagístico e turístico. A área é conhecida pelo seu loendral, um notável núcleo de loendro (Rhododendron ponticum subsp. baeticum), planta endémica da Península Ibérica, integrando ainda galerias ripícolas e carvalhais galaico-portugueses – protegidos pela Diretiva Habitats.
Embora muitas espécies mediterrânicas possuam capacidade de regeneração após o fogo, a repetição de incêndios em intervalos temporais tão curtos compromete essa recuperação. A recorrência do fogo favorece a expansão de espécies exóticas invasoras, degrada os solos, interrompe os processos naturais de sucessão ecológica e aumenta significativamente o risco de perda dos valores naturais que justificaram a classificação desta área ao abrigo da Rede Natura 2000. O facto desta valiosa área protegida voltar a arder praticamente na sua totalidade, em 2026, demonstra que Portugal continua incapaz de garantir uma proteção eficaz de alguns dos seus mais importantes locais para a conservação da biodiversidade e a incumprir os objetivos e compromissos assumidos perante a Comissão Europeia.
Perante esta situação, a LPN e a SPBotânica apelam ao Governo, ao Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), ao Município de Vouzela e às restantes entidades competentes para que:
Quando uma área protegida há quase noventa anos pelos seus valores botânicos arde duas vezes em menos de uma década, não estamos apenas perante uma catástrofe natural: trata-se de um alerta para uma revisão séria das estratégias de prevenção e gestão do território, sob pena de perdermos, de forma irreversível, este (e outros) refúgios vitais da flora autóctone portuguesa.
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