Roteiro de geodiversidade e biodiversidade na Lagoa de Albufeira

É madrugada na praia da Lagoa de Albufeira, estão 6º C de temperatura e a neblina envolve a Lagoa. Só se avista uma pequena zona onde se situam as plataformas da apanha dos bivalves (mexilhão) mas a atmosfera é de tranquilidade absoluta na harmonia da paisagem.

 

Plataformas de mexilhão na Lagoa de Albufeira – (corpo lagunar da Lagoa Grande).

 

 

Naquele sábado de 23 de outubro, apesar do frio que se fazia sentir, não chegava para afastar quem estava decidido a conhecer com um “outro olhar” um local paradisíaco e importante de habitat, de reprodução e refúgio para inúmeras espécies. Era mais uma ação de formação para professores aberta a cidadãos interessados organizada pela LPN com a dinamização das professoras Conceição Freitas e Anabela Cruces.

 

A 20km de Lisboa, a Lagoa de Albufeira é formada por dois corpos lagunares principais ligados por um canal estreito, sinuoso e pouco profundo, a Lagoa Pequena, mais interior e pouco profunda e a Lagoa Grande.

 

Para além da sua importância geológica e da paisagem que a emoldura, possui uma rica biodiversidade evidenciada nos seus copos lagunares e Espaço Interpretativo da Lagoa Pequena, que enquadrado numa Zona de Proteção Especial para Aves constitui uma das mais importantes zonas de circulação e nidificação de aves da Europa. É um local que serve de sustento de populações de espécies vegetais e de animais importantes para a manutenção da Biodiversidade, como por exemplo de peixes (78 espécies conhecidas).

 

Condicionada a sua evolução pelos processos de assoreamento resultante em especial pela ação antrópica, a lagoa de Albufeira é uma zona bastante sensível do ponto de vista ecológico com vários estatutos de proteção – Zona Húmida de Importância Internacional (Sítio Ramsar desde 1996), faz parte da Rede Natura 2000 como Sítio de Importância Comunitária ao abrigo da Diretiva Habitats e Zona de Proteção Especial (ZPE), para além de constituir uma (IBA) - Zona Importante para as Aves.

 

No estacionamento da praia, estava o professor Mário Cachão do Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências de Lisboa que nos iria também acompanhar, o que valorizava ainda mais a nossa ação.

 

Naquele dia a barra de maré (abertura relativamente estreita que assegura a comunicação entre a barra lagunar e o oceano permitindo as trocas sedimentares de nutrientes e a renovação do prisma de água retido na laguna) da Lagoa estava fechada naturalmente. A barra de lagoa de Albufeira é criada artificialmente para renovação da água e com o intuito de melhorar a qualidade do corpo aquoso e controlar a eutrofização fechando naturalmente algum tempo depois. Segundo Conceição Freitas a barra de maré tem uma tendência efémera, com caráter divagante para sul e com uma tendência futura dominada por processos de assoreamento que se traduzem pela agradação vertical do fundo do corpo lagunar e pela redução da sua superfície molhada.

 

Encimada a praia por dunas presentes ao longo de uma extensão favorável na qual a intensa utilização balnear e a introdução de espécies invasoras como o chorão –Carpobrotus edulis as tem degradado, mesmo assim ia-se observando algumas espécies caraterísticas dos sistemas dunares como por exemplos as espécies pioneiras Feno das Areias - Elymus farctus e o Estorno - Ammophila arenaria que não apresenta uma distribuição contínua devido sobretudo ao grau de pisoteio e à intensidade de ocupação humana.

 

 

Mário Cachão descrevendo a Geologia e paleontologia da região.

 

 

Após uma apresentação da Geologia da região pelos formadores fomos caminhando em direção a sul pela praia, interpretando a Geologia com o auxílio dos mapas, cartas geológicas descrevendo-se os afloramentos das arribas talhadas nos terrenos mio-pliocénicos-quaternários.

 

 

Conchas de Pecten e de Chlamys – As conchas de Chlamys dissolvem.se mais rapidamente pelo que não fossilizam tão facilmente como as dos Pectiníseos.

 

 

Dentes de sargo.

 

 

 

De modo geral a praia exibe largura e sedimentos com textura variável com as modificações induzidas pelas condições naturais, sendo as areias de um modo geral grosseiras, refletindo um nível energético elevado. Enquanto Anabela Cruces e Conceição Freitas faziam um enquadramento e evolução da Lagoa da Albufeira, Mário Cachão pesquisando as areias da praia nos mostrava as suas caraterísticas e das conchas dos géneros Pecten e Chlamys bem como de dentes de alguns peixes, como por exemplo de sargos.

 

 

Anabela Cruces mostrando os tipos de sedimentos e evidenciando a origem de cada uma das areias.

 

 

Ao longo da nossa expedição caminhando pelas areias da praia, observávamos os afloramentos das arribas, até que subitamente, paramos junto de um dos afloramentos e as professoras questionam-nos sobre a presença de calhaus de granito, de sienito e de outras rochas incluídas numa matriz areno-argilosa.

 

Conceição Freitas e Anabela Cruces descrevem-nos então a origem do aparecimento desses calhaus: Esses calhaus são caraterísticos da serra de Sintra a que se misturam outros de basalto e de sílex da região de Lisboa. São testemunhos do pré-Tejo, de materiais detríticos da margem norte do Tejo.  Provam ainda que esta saída é posterior aos terrenos da região central de Península de Setúbal situados num largo corredor rebaixado entre Almada e a linha de alturas Espichel-Arrábida.

 

 

Sedimentos do pré-tejo com a presença de calhaus rolados de quartzo e de basalto numa matriz areno-argilosa.

 

 

 

Depois de termos aberto o livro da história geológica inscrito nos afloramentos e areias da praia dirigimo-nos para o Centro de Interpretação da Lagoa Pequena para almoçarmos para mais uma jornada de geodiversidade e biodiversidade na parte da tarde.

 

O Espaço Interpretativo da Lagoa Pequena compreende a Lagoa Pequena e a Lagoa da Estacada. É uma área de visitação da responsabilidade da Câmara Municipal de Sesimbra e da SPEA – Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves para a dinamização de visitas e promoção do espaço. O espaço está concebido para observação de aves integrando também percursos sinalizados e quatro observatórios com infraestruturas de apoio.

 

A responsável do Espaço Interpretativo, Paula Lopes tinha deixado o local durante a hora do almoço só para a ação de formação o que constituiu uma excelente oportunidade para o professor destacado Jorge Fernandes para a observação das aves e tirar fotos. Nessa altura teve-se a possibilidade de se observar o voo notável de uma soberana da zona, a águia sapeira – Circus aeruginosus, uma residente pouco comum que cria ocasionalmente nos caniçais da ribeira da Apostiça.

 

Apesar dos muitos problemas causados pela forte pressão humana existente, especialmente, durante a época balnear, a Lagoa de Albufeira é uma das mais importantes zonas húmidas de Portugal, mantendo ainda um considerável interesse ornitológico, com mais de 190 espécies aí observadas, destacando-se as do meio aquático.

 

Após o almoço, Paula Lopes da SPEA explicou-nos os objetivos do Espaço Interpretativo, descrevendo a sua história e a sua importância que tem como finalidade dinamizar as visitas e a promoção do espaço, nomeadamente a possibilidade de marcação por parte de Escolas.

 

Após a introdução sobre as finalidades do Espaço, Anabela Cruces e Conceição Freitas divulgaram alguns dados obtidos de caraterísticas físico-químicas do sistema aquoso da Lagoa, dos sedimentos do fundo lagunar, e mostraram-nos os equipamentos utilizados na pesquisa das caraterísticas da Lagoa, explicando os modos de procedimento para determinação dos dados sedimentológicos. Com os materiais em riste nas mãos, exemplificando o trabalho dos investigadores no campo, as professoras trouxeram os equipamentos para a recolha e análise de amostras de sedimentos do fundo.

 

Este é um trabalho que para além da Geologia envolve uma abordagem multidisplinar em áreas, entre outras como a Física, Química, Microbiologia, a Biologia, Botânica, Mineralogia, Engenharia Geográfica e a Paleoclimatologia.

 

 

Apresentação dos objetivos e história do Centro de Interpretação da Lagoa Pequena por Paula Lopes da SPEA.

 

 

 

Anabela Cruces explicando o modo de procedimento e os equipamentos utilizados na recolha de amostras de campo e de análise das caraterísticas sedimentológicas na Lagoa de Albufeira.

 

 

Conceição Freitas evidenciando o método de recolha de sedimentos de fundo na Lagoa Pequena.   

 

 

Após a descrição de como se faz o trabalho de campo para análise das caraterísticas de um espaço lagunar, o professor destacado – Jorge Fernandes orientou um percurso até aos observatórios das aves descrevendo-se algumas espécies de vegetação da Lagoa, a importância dos caniçais como locais de refúgio e de reprodução para as aves.

 

Pelo caminho entre os caniçais e salgueiros passavam alguns pequenos bandos de passeriformes e ouvia-se oculto nos caniçais o cantar do Caimão – Porphirio porphyrio, uma das aves mais cobiçadas pelos observadores de aves e que em tempos esteve em perigo de desaparecer em Portugal, mas que a partir da década de 90 tem recuperado.

 

Chegados junto aos observatórios, em silêncio, observámos diferentes espécies de aves aquáticas, algumas oriundas do norte e centro da europa e que escolheram este local para passar o Inverno. Era uma “reunião” de várias espécies de aves como por exemplo casais de  Pato- Real, Pato Trombeteiros, Garças Real, Garça Branca, Frisada, Corvo-Marinho de Faces Brancas e um casal de Flamingos que não sendo tão comuns na Lagoa se encontravam para nos presentar com todo seu esplendor,  acrescentando ainda mais beleza a este local que constitui um verdadeiro laboratório natural de investigação e de educação.

 

No fim, fica um convite para que os professores e os alunos utilizem este espaço como um recurso excelente de Educação Ambiental. Mais uma vez a LPN cumpriu os seus objetivos: o de fomentar a Educação Ambiental ao ar livre em contacto com espaços mais naturais, levando a conhecer esses espaços por forma a que os professores desenvolvam iniciativas de saídas de campo com os seus alunos.

 

Resta a acrescentar que a ação teve um nível de satisfação por parte dos participantes elevadíssimo, evidenciada pelos resultados da avaliação resultante da administração dos inquéritos de avaliação, com 100% dos participantes a consideraram-na como muito satisfeitos desejando futuras ações presenciais.

 

 

Reunião de Colhereiros (Platalea leucorodia), Corvos marinhos de faces brancas (Phalacrocorax carbo) e Pato Real (Anas platyrhyncos)

 

 

Pato trombeteiro (Anas clypeata)

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