Um dia no jardim da LPN

“To a great extent we are a deplaced people for whom our immediate places are no lounger sources of food, water, livehood, energy, materials, friends, recreation, or sacred inspiration” – David Orr

 

Ao promovermos as hortas biológicas nas escolas utilizamos os espaços exteriores escolares como um laboratório de aprendizagem contribuindo para a obtenção de produtos mais nutritivos, mais saudáveis e uma cultura de proteção do ambiente. A experiência de trabalho nas hortas biológicas são momentos como menciona David Orr de nos reconectarmos ao mundo natural.
 


Quando era pequeno o meu contacto com a ruralidade era experienciado durante as estadias de férias no campo. Ia para a terra da minha avó na Beira Alta ou para a zona de Torres Vedras, pegávamos nas batatas e nos tomates do terreno e iam logo diretamente para o nosso almoço. A agricultura era tradicional e não se adicionavam pesticidas e fertilizantes sintéticos. No entanto, na altura não apreciava muito aquele trabalho duro e não percebia os benefícios de se cultivarem os alimentos, agora quando penso, sinto o “cheiro da terra”, a textura e o sabor desses alimentos frescos e fico com saudades trazendo-me a vontade de ter um espaço para semear e plantar uma horta biológica.


Mais tarde, quando era aluno na Escola Preparatória Francisco Arruda, no espaço exterior da escola, o professor de Educação Física decidiu criar o projeto de horta biológica. Começámos a semear milho e à medida que o víamos crescer nos solos férteis do Complexo Vulcânico de Lisboa íamos trabalhando esse projeto nas diversas disciplinas. Mas eis que tivemos uma experiência marcante ao encontrarmos uma salamandra de pintas amarelas (Salamandra salamandra) no terreno. O animal estava um pouco fraco e não resistiu tendo morrido. Embora tristes com esse acontecimento ele valeu pela emoção e peripécia de vermos pela primeira vez um animal que para nós - Homo sapiens urbanus era considerado exótico.


Posteriormente, houve um trabalho interdisciplinar que envolveu as diversas disciplinas. Em Ciências Naturais começámos por investigar as caraterísticas do animal, e nas Ciências Físico Químicas com uma abordagem integrada entre as disciplinas abordou-se a noção de Sistema, as caraterísticas dos subsistemas terrestres e estudou-se as caraterísticas físicas e químicas do solo. Em Educação Visual desenhou-se a Salamandra e conceberam-se maquetes de planeamento do espaço verde escolar; a professora de francês ajudou-nos a escrever um pequeno texto em francês sobre a horta;  na disciplina de História estudámos a ocupação humana da freguesia desde o tempo do Paleolítico até aos nossos dias e soubemos que a origem do nome da salamandra, de ser um elemento do fogo deriva da mitologia grega; na aula de Português realizou-se uma reportagem para o jornal da escola sobre a horta biológica, enfatizando-se o facto de descobrirmos uma salamandra e de praticarmos uma agricultura desenvolvida no espaço escolar sem a utilização de adubos sintéticos e pesticidas.


 A disciplina de Educação Física obviamente estava envolvida não só porque tinha sido iniciativa do professor coordenador mas também porque necessariamente tínhamos um trabalho do campo fisicamente duro... por fim  fizemos uma exposição na escola com os registos fotográficos e notícias ao longo do processo de construção da horta biológica da escola. A experiência de sentir, ver e cuidar das plantas responsabilizou-nos para com o mundo natural criando um sentimento de respeito e ligação.


Agora na LPN quando se propôs com a professora destacada na SPEA - Teresa Oliveira organizar esta ação de Formação para professores - Biodiversidade – Horta na Escola senti-me a refletir e a reconstituir a experiência interior vivida de aprendizagem interior no campo e na Horta Pedagógica dos meus tempos de criança e jovem. A proposta para a partilha de conhecimento entre professores visando o fomento de uma agricultura biológica e de promoção da biodiversidade nos espaços escolares com fins pedagógicos tornava-se fundamental por forma a se estimular a Educação Ambiental fomentando práticas mais sustentáveis e de respeito com o ambiente.


Foi assim que “metemos mãos ao trabalho” e resolvemos organizar uma ação de Formação para dar a conhecer um conjunto de práticas e metodologias para a instalação de um charco e de construção e manutenção de uma horta. Seria uma forma de fomentar a biodiversidade e a conservação do solo para professores a realizar no espaço exterior da LPN.


De início estávamos apreensivos pois tínhamos poucos dias para a divulgação da ação de formação, mas logo nos deparámos com uma excelente participação por parte dos professores, na verdade, atingiu-se rapidamente o limite máximo que tínhamos previsto excedendo as nossas expectativas, talvez derivado do tema ser aliciante e porque a ação apresentava uma apreciável componente prática que envolvia imensos recursos materiais.


E no dia 25 de janeiro, num dia bonito com o sol a colaborar, lá estávamos todos na sede da LPN cheios de energia e motivação. Inicialmente os professores destacados da LPN e da SPEA efetuaram uma breve apresentação teórica sobre a escolha do local, utilidade e benefícios de uma horta biológica na Escola mencionando-se a necessidade de quando se planeia de se introduzir elementos que possam aumentar a biodiversidade autóctone.


Tendo em vista a entrada de novas criaturas benéficas para o equilíbrio de uma horta – aquelas que vivem permanentemente na água e outras tais como sapos, rãs e salamandras que precisam dos charcos para procriar e de plantas aquáticas fez-se uma breve apresentação teórica de um anteprojeto de construção de charcos de biodiversidade autóctone nos espaços exteriores das escolas. Por se tratar de um planeamento que deverá ser efetuado de forma cuidada e que envolve algum tempo de planeamento e implementação ficou o desafio para a sua implementação futura nos espaços escolares.


 Efetuou-se uma breve descrição geológica da cidade de Lisboa para se terem algumas ilações teóricas de que tipo de solos se têm não descurando obviamente uma análise das suas caraterísticas, estrutura e qualidade para se saber quais as espécies de plantas mais apropriadas para se semearem ou plantarem. Seguidamente descreveram-se alguns condições e “passos” necessários para a construção de um canteiro mencionando-se algumas associações de plantas favoráveis, a aplicação e técnicas de rega gota-a-gota e de coberturas biodegradáveis num canteiro ou área da horta - mulching. Lá fora, no jardim da LPN, estava a cobertura de palha reservada para a componente prática da ação. Essa aplicação de cobertura orgânica é benéfica pois permite a conservação do solo, retendo a humidade e reduzindo as ervas daninhas.


As hortas urbanas são lugares particularmente bons (para os insetos polinizadores) dentro das cidades” diz a investigadora Katherine Baldock, da Universidade de Bristol. “Esses pequenos espaços oferecem uma boa mistura de flores, de frutos e de vegetais”. Para fomentar a vinda de insetos polinizadores e de seres vivos combatentes de pragas evidenciaram-se exemplos de hóteis e refúgios para insectos, como por exemplo, entre outros, o papel importante desempenhado no controlo de pragas desempenhados pelas reconhecidas joaninhas e insetos Crisopídeos. Os Crisopídeos são uma família de insectos que se reconhecem pela sua cor verde, asas grandes, transparentes de finas nervuras e reticuladas, são delicados mas grandes predadores de pragas de afídeos, ácaros, mosca branca, cochonilas e outros. A Crisopa verde (Chrysoperlea carnea) tem sido utilizada em muitos programas de luta biológica.


Após a introdução teórica os formandos puseram “mãos á obra” e foram para o jardim da LPN sob orientação dos professores destacados na SPEA - Teresa Oliveira e Jorge Fernandes da LPN. Dividindo-se em dois grupos os formandos alternaram e rodando pelas atividades sendo que num grupo com a orientação do professor Jorge Fernandes se analisou a qualidade do solo da LPN, nomeadamente as suas caraterísticas, e a biodiversidade de organismos no solo tendo-se observado entre outros seres vivos a presença de algumas minhocas que são biomonitores da qualidade do solo. Depois os formandos determinaram aproximadamente o pH utilizando a tira de papel indicadora de pH (método que no entanto não dispensa uma análise em laboratório para uma determinação mais fiável). Após a determinação da qualidade do solo os formandos montaram um refúgio para os insetos-Crisopídeos reutilizando garrafas de plástico de 1,5 litros. Enquanto isto, o outro grupo de formandos sob orientação da professora Teresa Oliveira ia colocando o solo no canteiro elevado instalado no jardim da LPN e plantava alfaces, ervilhas e cenouras.


Depois da colocação das plantas colocou-se uma cobertura de palha ou mulch e construíram um sistema de rega gota a gota utilizando materiais como por exemplo garrafas de plástico pequenas e cordéis. Para que todos os formandos participantes tivessem acesso às tarefas propostas os grupos alternaram de atividades com um grande dinamismo tendo-as concluído com satisfação.


Num mundo em mudança cada vez mais tecnológico, separado do mundo mais natural ou naturalizado, a implementação de hortas biológicas possibilita que as crianças e jovens aprendam a trabalhar a terra e a criar uma horta. Ajuda os alunos a criar uma ligação com os produtos locais, com a origem dos alimentos e permite estabelecer uma conexão entre alunos, professores, comunidade, natureza e sustentabilidade.


A agricultura convencional gera desafios ambientais enormes, e é um dos principais fatores responsáveis pela extinção da vida selvagem por essa razão as decisões presentes e futuras dos cidadãos são cruciais. A temática da ação de formação é assim fundamental pois os alunos e cidadãos podem ser produtores de alimentos biológicos e quando fizerem compras nos supermercados, como consumidores, farão as escolhas que decidirão o seu futuro.

 

Exemplo de um hotel de insetos. Fotografia de Maria rebelo.

 

Aplicação do solo no canteiro da LPN. Fotografia de Emília Martins.

 

Aplicação da técnica de mulching. Fotografia de Emilia Martins.

 

Sistema de rega gota a gota. Fotografia de Maria Rebelo.

 

Análise da qualidade do solo – pH. Fotografia de Eduarda Costa.

 

Análise da qualidade do solo do jardim da LPN.

 

 

Análise da qualidade do solo do jardim da LPN.

 

 

Noctua pronuba – lagarta de traça no solo do jardim da LPN. Fotografia de Emília Martins.

 

 

Minhocas do solo do jardim da LPN.

 

 

Determinação do pH do solo com a tira de papel indicador de pH. Fotografia de Isilda Costa.

 

 

Construção de um Refúgio para Insetos Crisopídeos. Fotografia de Emilia Martins.

 

Colocação do refúgio para insetos Crisopídeos. Fotografia de Isilda Costa.

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