Uma mancha de vinho na liberdade de expressão

Imagem de Bruno /Germany por Pixabay

 

 

 

Ativista francesa alvo de ação judicial na região de Bordéus por criticar o uso massivo de pesticidas nas práticas vitivinícolas da região.

 

 

Valérie Murat, ela própria filha de um viticultor que morreu de cancro depois de ter sido exposto a níveis elevados de pesticidas, e a Iniciativa de Cidadania "Alerte aux toxiciques!” de que faz parte, mandaram testar mais de 20 vinhos para detecar resíduos de pesticidas.

 

Os resultados revelaram que os vinhos foram contaminados por 28 substâncias diferentes, algumas das quais consideradas muito perigosas devido aos seus efeitos cancerígenos ou mutagénicos. Em média, foram detetadas oito substâncias diferentes por garrafa.

 

Em setembro os resultados foram publicados, acompanhados por uma declaração da própria Valérie Murat condenando a elevada utilização de pesticidas nas práticas vitivinícolas da região como um risco para a saúde.

 

Tal como o lobby da maçã em Südtirol/Alto Adige, que a LPN recentemente apoiou (www.lpn.pt/pt/noticias/liberdade-de-expressao-sob-ataque), o lobby dos viticultores da região de Bordéus em França, considera, aparentemente, estas preocupações uma séria ameaça aos seus interesses económicos. Afinal, Bordelais é uma das maiores e mais conhecidas regiões vitivinícolas do mundo.

 

O "bom nome" dos vinhos de Bordéus não deve ser manchado, assim parece, razão pela qual a associação de viticultores da região Conseil Interprofessionnel du Vin de Bordeaux (CIVB) está a levar Valérie a tribunal por difamação e a processá-la por 100 000 € de danos compensatórios.

 

Além disso, exigem que Valérie retire as suas "reclamações difamatórias" ou que pague 5 000 € diários. Estas exigências vêm de casas mundialmente famosas cujos vinhos a Valérie tinha testado, entre eles os altamente prestigiados Lynch Bages e o Ducru-Beaucaillou. Uma garrafa de vinho de uma destas vinhas custa até várias centenas de euros, por isso não é surpresa que haja interesses económicos maciços em jogo.

 

Além de ter publicado os resultados das suas descobertas, a associação “Alerte aux toxiques” questiona também a legitimidade de um rótulo que os vinhos testados transportam. Consideram o rótulo "Haute Valeuer Environmentale" (HVE) um esquema porque não diz absolutamente nada sobre práticas de cultivo agroecológicas (certificadas pelo Estado), mas simplesmente afirma que os produtores "se preocupam com a relação entre as vinhas e o ambiente", não proibindo de forma alguma o uso de agroquímicos, o que faz com que o ambiente e os residentes da região de Bordéus fiquem expostos à pulverização frequente e intensa de pesticidas, muitas vezes entre abril e setembro.

 

A denúncia pública é uma das principais funções das associações de defesa do ambiente, pelo que a LPN está solidária com a situação da Valérie Murat.

 

 

Mais informações sobre este caso na imprensa:

  • França

https://www.lefigaro.fr/flash-eco/pesticides-dans-les-vins-hve-du-bordelais-la-justice-saisie-20201217

 

  • Itália

https://www.winetaste.it/pesticidi-nel-vino-svela-la-verita-sul-bordeaux-e-finisce-in-tribunale-la-storia-di-valerie-murat/

 

  • Alemanha

https://taz.de/Chemie-Einsatz-beim-Weinanbau/!5729207/

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