Viajar no tempo e na paisagem do Parque Natural Sintra-Cascais e Penedo do Lexim – Mafra

O Parque Natural de Sintra-Cascais e o Penedo do Lexim alarga os limites de uma simples narrativa no tempo.

Se o olharmos com um outro olhar, fazendo uma viagem pelo tempo, pelas camadas geológicas sobrepostas, inclinadas e afetadas por intrusões, entendemos melhor o que temos à nossa volta.

Esse olhar diferente permite-nos ter uma perspetiva evolutiva ao longo do tempo, da modificação do modelado da paisagem, da sua flora e fauna, mas também da necessidade que temos de preservar esse património.

Indo ao encontro desse “outro olhar”, a LPN através do Projeto Despertar para a Natureza realizou uma saída de campo, com alunos e professores da Escola Secundária do Lumiar permitindo vivenciar as situações em contexto, através da observação “in situ”, que em sala de aula não se consegue reproduzir.

 

Quando a professora Paula Pires, da Escola Secundária do Lumiar, se inscreveu no projeto Despertar para a Natureza organizado pela LPN, notou-se logo o seu dinamismo, mobilizando os seus alunos do 11º ano para uma saída ao Parque Natural Sintra- Cascais e Penedo do Lexim, com o objetivo de lhes proporcionar uma experiência diferente – o de promover uma maior integração entre a teoria dos currículos escolares e a prática, vivenciando os locais.

 

Munidos de um guião bastante completo, os alunos iniciaram a sua saída junto ao Forte da Cresmina. Nas suas muralhas recentemente existe um restaurante de 5 estrelas, a exemplo de outros que se instalaram ao redor da plataforma litoral de Cascais e de outras instalações e infraestruturas antrópicas. Ali, podemos disfrutar de uma vista em pleno para o Cabo da Roca e Serra de Sintra e, simultaneamente, observar o solo, as rochas e as plantas que tenazmente sobrevivem, adaptando-se à pequena película de solo existente, à salinidade, luminosidade, seca e aos ventos fortes que assolam essencialmente de Noroeste. Os pinheiros-mansos com as copas inclinadas, mas cheios de agulhas, assim refletem esses ventos fortes, oferecendo um pouco de sombra, ao mesmo tempo que juntamente com a restante vegetação vão tentando fixar as areias que, não obstante, vão avançando na duna da Cresmina.

 

Início da saída Junto ao Forte de Cresmina com observação das camadas de rochas sedimentares variadas (calcários, arenitos, argilitos) que se encontram inclinadas para Norte.

 

 

Naquele dia, porém, as condições atmosféricas estavam excelentes, o vento soprava apenas com uma leve brisa possibilitando de forma confortável o enquadramento da região efetuado pelo professor destacado na LPN – Jorge Fernandes.

 

Enquadramento Geográfico e Geológico Junto ao Forte da Cresmina.

 

 

Observando-se as camadas sedimentares (arenitos, calcários e argilas), as falhas, os filões de rochas eruptivas que as intersectam e a presença de fósseis, os alunos fizeram uma caminhada pelo tempo geológico, constatando numa viagem pelo Cretácico, até à atualidade, as diferenças de paleoambientes e as variações do nível do mar verificados.

 

 

Junto ao forte do Guincho e de uma falha com a presença de um filão eruptivo bastante alterado num calcário carsificado.

 

 

Caminhando pelo Cretácico Inferior (145 milhões a 100,5 milhões aproximadamente) em direção à praia da Cresmina,, na transição de litologias de calcários carsificados  para arenitos, mesmo no solo observávamos imensas carapaças de foraminíferos bentónicos do género Orbitolina  que nos indica ambientes de águas pouco profundas.

 

Quando se percorreu nos anos 80 do século passado a estrada do Guincho - EN 247, a paisagem era completamente diferente, era mais “verde”. No entanto, a superfície do campo dunar encontra-se sujeita a um impacto antropogénico muito significativo expresso pela construção, pisoteio e presença de espécies invasoras, que promovem o avanço das areias em direção ao interior. No caso do sistema dunar Cresmina-Guincho o seu avanço é tal que coloca em causa o parque de campismo do Guincho, e o Real Clube de Campo D. Carlos I , sendo que parte do passadiço nesta zona já está soterrado. Assim, a promoção da educação ambiental tem um papel muito importante, para impedir o atravessamento do campo dunar, a ocupação imobiliária e a construção de estradas. 

 

Saímos da praia da Cresmina e junto aos painéis informativos sobre o sistema dunar Cresmina-Guincho os técnicos no espaço do Núcleo de Interpretação introduziram a temática da dinâmica dunar do local tendo-nos dividido em dois grupos para se efetuar um percurso de interpretação pelos passadiços.

Com uma explicação divertida e motivadora os técnicos descreveram a flora representativa dunar, salientando a importância das espécies endémicas, como a raiz-divina (Armeria welwitschii) ou a sabina-das-praias (Juniperus turbinata). Foi também mencionado as ações de recuperação da vegetação local, nomeadamente o controlo das espécies invasoras (como o chorão - Carpobrotus edulis), e plantação de espécies autóctones (como o estorno - Ammophila arenaria).

 

Depois de uma breve paragem para o almoço, partimos em direção à praia do Magoito para observação também de uma duna, mas desta vez uma duna fóssil ou paleoduna do Magoito, classificada como um geossítio (local de particular interesse para o estudo da geologia notável sob o ponto de vista científico, didático ou turístico) e que constitui um verdadeiro arquivo geológico e arqueológico.

 

Não obstante, o nevoeiro que se verificava impedindo mesmo a observação das camadas sedimentares a sul, observou-se a paleoduna. Empunhando o mapa geológico, o professor destacado na LPN - Jorge Fernandes efetuou um breve enquadramento da Geologia da região mencionando-se a importância da conservação das dunas, nomeadamente da duna do Magoito. Esta duna corresponde a um estádio de evolução de areia solta para arenito, um processo que leva milhões de anos, sendo contemporânea de uma regressão do mar com uma descida de aproximadamente de 100 metros.

 

Os níveis arqueológicos identificados com base em instrumentos de sílex e de cerâmica encontrados no local e em conexão com a duna consolidada do Magoito, permitiram obter uma datação fiável confirmando a cronologia do Pré-Boreal.

 

Colocando-se a questão de qual a direção dos ventos dominantes na época do Holocénico, observou-se a estratificação da paleoduna entrecruzada com algumas estruturas de avalanche e a disposição das lâminas de areia, esses indicadores possibilitam constatar que a direção do vento no Quaternário- Holocénico, na última glaciação, era do quadrante norte.

 

 

Explicação e enquadramento com o mapa geológico dos locais visitados.

 

 

De seguida, dirigimo-nos passando pela zona de Negrais, pelos campos de lapiás, pelas explorações e transformação dos calcários que servem como matéria prima para revestimentos, cantarias e rochas ornamentais em direção ao Penedo do Lexim.

 

Pelo caminho, mais próximo do nosso destino começamos a observar várias elevações topográficas que correspondem a antigas chaminés vulcânicas magmáticas, como sejam a Oeste a dos Cartaxos, junto a Cheleiros e a nordeste Serra do Funchal e Jarmeleira pertencentes ao Complexo Vulcânicos de Lisboa-Mafra, sendo testemunhos de um importante episódio magmático ocorrido no Cretácico Superior que intruíu os calcários e margas.

 

Chegados ao Penedo do Lexim encontramos uma paz neste local que o torna diferente de outras paragens. Aqui a beleza paisagística é um lugar de encontro entre a história e a natureza, numa monumentalidade natural que fez dele um povoado fortificado.

 

Saímos do autocarro e era tempo de efetuarmos uma outra caminhada por uma estrada apertada em que a Geologia e o enquadramento florístico servia de nosso combustível, para uma subida em direção à chaminé de um vulcão cuja atividade foi interrompida há milhões de anos, mas que deixou o seu vestígio, na disjunção prismática do basalto e nos solos férteis que nos rodeavam.

 

À medida que se ia destacando alguns elementos da paisagem, entre as veredas rodeadas de carrasco- (Quercus coccifera), observávamos o enrolamento da Salsaparrilha- brava (Smilax aspera), ou a particularidade da espécie trepadora Rubia peregrina no qual o seu caule se agarra às camisolas e onde no século XIX, constava como receita para quem quisesse criar uma tinta indelével e vermelha, tornada negra por ação do calor.  De súbito, somos surpreendidos pela Gilbardeira (Ruscus aculeatus) que nas plantas adultas não apresenta verdadeiras folhas e nas plantas jovens as folhas passam despercebidas por serem tão pequenas.

 

Chegados ao topo do Geomomnumento circundado por um castelo de penedos fortemente condicionados pela natureza, os grandes prismas basálticos erguiam-se à nossa frente constituindo uma muralha natural que foi ocupado desde o Neolítico Final (4000 a.C) até à época Romana.

 

 

A observação da disjunção prismática com um predomínio de formas pentagonais relacionada com a contração térmica da lava provocada pelo seu arrefecimento não é um processo que se possa visualizar de uma forma vulgar em afloramento o que torna este local de grande interesse didático.

 

Outrora este local foi uma pedreira e atualmente é considerado património geológico e classificado como Imóvel de Interesse Público. É como se o tempo tivesse recuado durante milhões de anos e nos tivesse oferecido um rico testemunho que importa preservar e valorizar. Esse é um dos objetivos do Projeto Despertar para a Natureza que após a entrega dos questionários de avaliação da saída de campo aos professores, achamos ter alcançado com esta saída -  o de contribuir para uma cidadania ativa de Valorização do Território - eixo temático da Estratégia Nacional de Educação Ambiental.

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