Vidigueira/Portel: Colónia estratégica para a recuperação do abutre-preto em Portugal enfrenta sérias ameaças

Em junho de 2024 foi descoberta a quinta colónia reprodutora de abutre-preto em Portugal, na Serra do Mendro (Vidigueira/Portel). Apesar do estabelecimento recente, e de ser estratégica para a recuperação da espécie no país, a colónia enfrenta já várias ameaças que condicionam a sua viabilidade. O Projeto LIFE Aegypius Return alerta para a necessidade de medidas de proteção urgentes.

 

 

Serra do Mendro ©VCF

 

 

Crónica de uma colónia em risco

Foi no âmbito da monitorização de águias-reais (Aquila chrysaetos) que os técnicos do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) detetaram um ninho de abutre-preto (Aegypius monachus) na Herdade do Monte da Ribeira, na Vidigueira. Estava-se em junho de 2024 e, dado o adiantado da época de reprodução, não foi possível realizar uma monitorização próxima, para evitar perturbar as aves. Ainda assim, foi confirmada a existência de cinco ninhos, tendo-se registado reprodução bem-sucedida em pelo menos um deles. A cria resultante, um jovem macho, foi marcada com emissor GPS/GSM e batizado de Pousio. A colónia, localizada na Serra do Mendro, apresentava ninhos tanto no concelho de Vidigueira como, mais a norte, no de Portel.

 

Durante a época de reprodução de 2025, esta quinta colónia de abutre-preto em Portugal, beneficiou de um programa de monitorização mais detalhado. Técnicos da Liga para a Proteção da Natureza (LPN) – parceiros do projeto LIFE Aegypius Return – apoiaram o ICNF no seguimento de todos os parâmetros reprodutores. Os trabalhos de prospeção contaram ainda com o apoio de técnicos da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), também parceiros LIFE Aegypius Return. Foram detetados 10 ninhos de abutre-preto, oito dos quais ocupados por casais ativos.

 

A partir do mês de junho, em articulação com o projeto LIFE Aegypius Return, foram monitorizadas áreas mais afastadas do núcleo conhecido da colónia, por consultores ambientais no âmbito da avaliação de impactos do projeto de produção de energia renovável Central Híbrida do Grande Lago. Com estes trabalhos foram detetados quatro casais adicionais.

 

A colónia de Vidigueira/Portel conta agora com 14 ninhos conhecidos, 12 com casais nidificantes. Tanto quanto foi possível verificar, sete casais conseguiram incubar este ano, tendo nascido entre três e quatro crias. Destas, sobreviveram duas: a fêmea Vidigueira e o macho Farrobo, ambos marcados com emissores GPS/GSM que são continuamente monitorizados.

 

 

 

Marcação da cria de abutre-preto Vidigueira ©Carlos Pacheco; ©LPN

 

 

 

Colónia estratégica para a conservação do abutre-preto

Os dados demonstram que a colónia de Vidigueira/Portel se encontra em expansão e constitui um núcleo reprodutor de importância estratégica para a conservação do abutre-preto em Portugal, especialmente no sul do país. É a colónia mais a oeste conhecida para a espécie – a única colónia nacional afastada da fronteira com Espanha, localizando-se a cerca de 60 km da colónia mais próxima, na Herdade da Contenda.

 

Considerando o elevado grau de filopatria (tendência para regressar ao local de nascimento) típico da espécie, o estabelecimento de novas colónias afastadas das já existentes é um fenómeno raro e pode demorar várias décadas. Assim, a sobrevivência e o crescimento da colónia de Vidigueira/Portel são absolutamente cruciais para consolidar a população no Alentejo, reforçar a conetividade entre núcleos reprodutores e potenciar a recolonização de áreas históricas da espécie.

 

 

Habitat adequado à nidificação de abutre-preto, na Serra do Mendro ©VCF

 

 

 

Principais fatores de ameaça

A Serra do Mendro, pela sua localização próxima da barragem do Alqueva e das infraestruturas já existentes ligadas à produção de energia renovável, encontra-se sob forte pressão.

 

Vários projetos de produção e transporte de energia foram planeados antes de se conhecer a presença do abutre-preto na região. São exemplos a Central Híbrida do Grande Lago, o Projeto Híbrido de Pinel, a Central Solar Fotovoltaica do Alqueva, a Central Fotovoltaica da Sobreira de Baixo, a Linha Elétrica Alqueva – Divor ou a Linha Elétrica Vidigueira - Portel Sul.

 

Sem medidas urgentes de proteção, a quantidade e dimensão destes projetos tornam-se incompatíveis com a sobrevivência da colónia de abutre-preto e com a conservação de outras aves de grande porte.

 

O abutre-preto necessita de áreas de alimentação e de locais de nidificação muito tranquilos, sob pena de não se conseguir reproduzir. É também muito sensível à colisão com aerogeradores e linhas elétricas, bem como à eletrocussão em linhas de média-tensão. A vulnerabilidade é particularmente alta nos juvenis, quando exploram o território natal com reduzida experiência de voo.

 

 

 

Abutre-preto morto por eletrocussão na Bulgária ©Lachezar Bonchev/FWFF

 

 

Um estudo recentemente publicado pela Vulture Conservation Foundation (VCF), no âmbito do projeto LIFE Aegypius Return, demonstrou que para proteger o núcleo vital (ou seja, a área onde cada indivíduo passa cerca de metade do seu tempo) de 50% dos juvenis, os aerogeradores devem situar-se a pelo menos 7,7 km dos ninhos. Alguns dos aerogeradores previstos para a Serra do Mendro encontram-se a cerca de 2 km dos ninhos mais próximos, o que, se mantido, conduziria a uma elevada taxa de mortalidade e colocaria em risco todos os esforços de conservação.

 

 

 

 

 

Abutres-pretos mortos por colisão com aerogeradores na Grécia ©Society for the Protection of Biodiversity of Thrace; ©Stavros Tsiantikoudis/ NECCA

 

 

Para além da pressão dos projetos energéticos, esta colónia enfrenta as ameaças habituais que afetam o abutre-preto, como envenenamento ou perseguição direta. Recorde-se que o Pousio, a cria marcada em 2024, foi vítima de tiro, e permanece em recuperação no Centro de Recuperação para a Fauna da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (CRAS HV-UTAD).

 

 

Medidas urgentes necessárias

No âmbito do projeto LIFE Aegypius Return, os parceiros têm colaborado ativamente com autoridades, promotores e consultores, quer através de reuniões técnicas, quer pela emissão de pareceres fundamentados sobre a evolução da espécie na região e os riscos potenciais identificados. O projeto procura assegurar que a conservação da biodiversidade e, em particular, do abutre-preto, sejam devidamente integradas nos processos de decisão, de forma a minimizar conflitos e reduzir fatores de ameaça, alinhando a transição energética com a proteção ambiental.

 

No entanto, a crescente pressão sobre os valores naturais de Vidigueira/Portel exige medidas de proteção mais firmes, incluindo instrumentos legais específicos. Os parceiros LIFE Aegypius Return tudo farão para que a Serra do Mendro venha a ser classificada a nível nacional e/ou comunitário, ao abrigo da Diretiva Aves, numa tentativa de reduzir as ameaças que afetam o abutre-preto e outras espécies legalmente protegidas que ali se reproduzem.

 

O consórcio, liderado pela VCF, manifesta a sua disponibilidade para procurar soluções técnicas de compatibilização da conservação com os diversos projetos de energia renovável, mas mantêm uma posição firme: os aerogeradores têm de ser instalados a uma distância de segurança mínima dos ninhos (não inferior a 7,7km). Existem soluções para mitigar fatores como a perda de habitat de alimentação devido aos projetos fotovoltaicos, a potencial perturbação de ninhos provocada pela construção de infraestruturas ou o risco de colisão e eletrocussão em linhas elétricas. Contudo, o aumento do risco de mortalidade devido ao choque com torres eólicas nas imediações desta colónia comprometeria inevitavelmente a sua viabilidade, o seu potencial de crescimento e a futura recolonização de outras áreas no sul do país.

 

 

Sobre o LIFE Aegypius Return

 

 

 

 

 

O projeto LIFE Aegypius Return é cofinanciado pelo programa LIFE da União Europeia. O seu sucesso depende do envolvimento de todos os stakeholders relevantes, e da colaboração dos parceiros, a Vulture Conservation Foundation (VCF), beneficiário coordenador, e os parceiros locais Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural, Herdade da Contenda, Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, Liga para a Protecção da Natureza, Associação Transumância e Natureza, Fundación Naturaleza y Hombre, Guarda Nacional Republicana e Associação Nacional de Proprietários Rurais e Associação Nacional de Proprietários Rurais Gestão Cinegética e Biodiversidade.

 

 

 

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